Crise em grandes empresas acende alerta para efeito cascata no crédito no Brasil

Crise em grandes empresas acende alerta para efeito cascata no crédito no Brasil

Pressão sobre companhias de grande porte pode atingir fornecedores, FIDCs e elevar custos de financiamento em toda a economia

O aumento recente do estresse financeiro em grandes companhias brasileiras como a Braskem, a Ambipar, o Grupo Pão de Açúcar e a Raízen, acendeu um alerta no mercado de crédito. O risco pode não estar restrito às empresas em dificuldade, mas se espalhar por toda a cadeia produtiva, muitas vezes com maior intensidade nos elos mais frágeis.

Nos últimos meses, empresas relevantes do mercado brasileiro passaram a enfrentar maior pressão financeira, levantando questionamentos sobre o alcance real desses impactos e seus desdobramentos no sistema de crédito.

Segundo dados da Serasa Experian, o Brasil encerrou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, o maior número da série histórica, somando cerca de R$ 213 bilhões em dívidas. O cenário reflete um ambiente de crédito mais restritivo, juros elevados e maior dificuldade de rolagem financeira por parte das companhias.

Para Paula Pellegrini, educadora financeira e especialista em planejamento patrimonial, o problema raramente fica isolado. “Quando uma grande empresa entra em estresse financeiro, o problema quase nunca termina nela”, afirma.

De acordo com a especialista, grandes companhias funcionam como centros de cadeias produtivas extensas, conectando diversos agentes econômicos que dependem diretamente de sua operação e capacidade de pagamento.

“Grandes companhias são o centro de cadeias produtivas extensas. Quando o crédito aperta no topo, os efeitos se espalham para todos os lados e quase sempre com mais força na base”, explica Paula.

Esse efeito ganha ainda mais relevância em um contexto de maior interconexão financeira. Dados do Banco Central indicam expansão do crédito ampliado a empresas, com crescimento impulsionado por instrumentos de mercado de capitais, o que aumenta a exposição indireta entre diferentes agentes.

Nesse cenário, a análise de risco também precisa evoluir. “O mercado ainda analisa crédito de forma isolada, quando na prática, ele funciona como uma rede interdependente. Muitas vezes, o risco não está apenas no emissor, mas na cadeia que depende dele”, destaca Paula.

Na prática, o impacto se manifesta rapidamente em diversas camadas da economia, incluindo fornecedores altamente concentrados, operadores logísticos, produtores de matéria-prima e estruturas de financiamento como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). “Fluxo de caixa é sistêmico. Se uma engrenagem trava, o restante da máquina sente”, reforça.

Precificação de riscos

Com o aumento da percepção de risco, o mercado tende a reagir de forma abrangente, não apenas sobre empresas diretamente afetadas. “É nesse momento que o mercado começa a reprecificar risco, spreads sobem, prazos encurtam, ratings são revisados e até empresas saudáveis passam a pagar mais caro”, complementa a educadora financeira.

O movimento já é observado em diferentes setores da economia, com instituições financeiras adotando maior cautela na concessão de crédito e revisando exposições, diante do aumento da inadimplência em segmentos específicos.

Para Pellegrini, esse cenário exige uma mudança estrutural na forma como o risco é analisado no mercado. “Ao analisar uma empresa em dificuldade, a pergunta central não é apenas ‘o que acontece com ela?’, mas ‘quem mais depende dela para sobreviver?'”, diz.

Muitas vezes, o problema não é pontual, mas sim parte de um sistema interligado. “Em crédito, raramente existe um problema isolado. O que existe é uma rede interdependente de riscos e, muitas vezes, as maiores vulnerabilidades estão na segunda ou terceira camada da cadeia, não na primeira”, conclui Paula.

Esse movimento exige mais do que análise de crédito, exige arquitetura patrimonial. Porque, na prática, o investidor não está exposto apenas a ativos, mas a cadeias. E quando essa exposição não está organizada por função, prazo e liquidez, o risco deixa de ser percebido e passa a ser absorvido. Em um ambiente como o atual, a diferença não está em escolher melhor um ativo, mas em estruturar melhor o patrimônio.

 

 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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