Estagnação dos negócios no varejo brasileiro

Estagnação dos negócios no varejo brasileiro
Gilmar Mendes Lourenço.

Uma observação atenta dos indicadores da evolução do comércio e dos serviços, nos três primeiros meses de 2026, não deixa qualquer dúvida quando à conformação de um quadro de estagnação dos negócios no Brasil, quase às vésperas do desencadeamento oficial da etapa eleitoral, que, ao que tudo indica, acomodará uma disputa bastante acirrada e polarizada para a ocupação do cargo de presidente da república.

De acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE, o volume de vendas do segmento varejista nacional cresceu apenas 0,3%, em março de 2026, 0,8%, na média móvel trimestral, e 0,2%, em doze meses, o que sugere diminuição de fôlego e, em consequência, embalo.

Os ramos que apresentaram desempenho mais desfavorável no índice anual foram aqueles mais dependentes das compras a prazo, bastante prejudicadas pelo posicionamento dos juros e do endividamento das famílias em patamares sufocantes. Os piores resultados foram exibidos por móveis (-4,7%), veículos e motos, partes e peças (-3,9%) e materiais de construção (-1,8%).

Ressalte-se que pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revela que, em abril de 2026, 80,9% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida (cartão de crédito, cheque especial e pré-datado, crédito consignado e pessoal, carnês de loja, financiamento de carro e casa, dentre outros), contra 77,6%, em abril de 2025.

Ademais, 29,7% encontravam-se com débitos atrasados, em média de 65,1 dias, versus 29,1% e 64,6 dias, no mesmo mês de 2025, e 12,3% mencionavam não ter condições financeiras para a realização da quitação, versus 12,4%, em abril do ano anterior.

O maior complicador é que 85% declararam ter passivo no cartão de crédito, contra 83,8%, em abril de 2025, justamente a linha mais cara, que, segundo levantamento do Banco Central (BC), cobrava em média, em março de 2026, 428,3% ao ano, ou 25,9% ao mês.

Mais do que isso, apuração da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, constatou que o país alcançou nova marca recorde mensal seguida de inadimplência, em abril de 2026, com 74,82 milhões de pessoas negativadas, o que equivale a 44,7% da população adulta.

Retomando a apreciação do comportamento do varejo, mesmo outras atividades de peso, que sustentaram a marcha expansiva, a performance pode ser considerada modesta, caso de hiper e supermercados, alimentos e bebidas (1,1%), combustíveis (0,8%) e tecidos, vestuário e calçados (0,5%), por conta da inescapável penetração doméstica dos abalos globais e das distorções caseiras, seno que estas enfeixam disfunções institucionais, políticas e econômicas.

A perda de dinamismo das transações comerciais pode ser imputada diretamente à compressão do poder aquisitivo da população, provocada pelos desdobramentos do conflito no Oriente Médio, precisamente quanto à inversão da rota cadente e ao recrudescimento da inflação, e a conjuntura de intocabilidade do elevado custo das operações de crédito, em praticamente todas as modalidades de empréstimos e financiamentos.

Somente a título de ilustração do efeito exógeno, nos Estados Unidos (EUA), a inflação ao consumidor escapou da trajetória de convergência, ainda que vagarosa, em direção à meta de 2% ao ano, fixada pelo Federal Reserve (Fed), Banco Central, daquela nação, para 3,8% a.a., em abril de 2026.

Tal anomalia reproduz o potencial de estragos da investida bélica dos EUA e Israel contra o Irã, precipitada por dois chefes de governo radioativos, particularmente na deterioração dos orçamentos dos norte-americanos, com implicações planetárias, em especial a desarticulação de importantes cadeias de suprimento – energia, fertilizantes para a agricultura, chips para telefonia de múltiplas redes de computadores, plásticos, etc. -, a partir do fechamento do Estreito de Ormuz, com desdobramentos perversos nos níveis de preços e de atividade.

Em idêntico sentido, o volume de serviços prestados no Brasil amargou queda de -0,1%, em janeiro, estabilidade, em fevereiro, e decréscimo de -1,2%, em março de 2026, abarcando a maioria das atividades acompanhadas pela Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do IBGE, traduzindo a combinação entre corrosão do salário real e multiplicação das limitações de esticamento do consumo pela via da tomada de crédito praticamente proibitivo.

Chama a atenção a abrupta redução de -0,9% e -7,1%, verificada em transportes terrestres e aéreos, em março de 2026, motivada pela elevação dos preços do óleo diesel e querosene de aviação, o que encareceu o custo dos fretes e os valores cobrados na venda de passagens aéreas.

Não por acaso, ao juntar a paralisia do comércio e serviços com o desempenho ruim da indústria e da agropecuária, neste princípio de ano, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), prévia do PIB, assinalou redução de -0,7%, em março de 2026 (-0,2% na agricultura, -0,2%, na indústria, e -0,8%, nos serviços), e alta de 1,8%, em doze meses, versus 3,0%, em 2025.

De modo paliativo, em escancaradas ações voltadas à reversão do delineamento da jornada cadente dos níveis de oferta e demanda, as autoridades políticas tem manejado, de maneira alargada, o derrame de novíssimas bondades eminentemente focadas na recuperação de popularidade governamental e na caça aos votos, sustentadas em incrementos bilionários de dispêndios públicos, disfarçados em subvenções, isenções fiscais e subsídios do Tesouro Nacional.

Trata-se da repetição da velha tradição da política brasileira, a exemplo do acontecido em 2022, quando, sob o pretexto da invasão da Ucrânia pela Rússia, o comandante de plantão negligenciou as Leis de Responsabilidade Fiscal (LRF) e do Teto de Gastos ao promover a retirada, sem prazo de validade, do conjunto de impostos federais sobre combustíveis.

Ademais, o inquilino do Palácio do Planalto forçou o legislativo a deliberar pela aprovação da proposta de diminuição da alíquota do imposto sobre circulação de mercadoras e serviços (ICMS) sobre derivados de petróleo, o que constituiu uma espécie de entrega de champagne para a festa do oligopólio das distribuidoras e do cartel da comercialização de combustíveis.

Dentre as camadas de novidades em benesses sobressaem o novo refinanciamento, com enorme deságio, dos passivos das famílias, a ampliação da abrangência do Programa Minha Casa Minha Vida, as iniciativas de contenção dos reajustes dos derivados de petróleo (diesel, gás de cozinha, querosene de aviação e gasolina) e a abertura de linhas de crédito especiais destinadas ao atendimento dos reclames de taxistas e motoristas de aplicativos.

Foi também deliberada a eliminação do imposto de 20% incidente sobre as importações de até US$ 50, conhecido como “taxa das blusinhas”, que abrange mercadorias impregnadas de pronunciado desejo popular, buscadas em sites de fabricantes asiáticos.

Por fim, paradoxalmente, caberia adicionar, ao elenco de benevolências, a influência do enfraquecimento da principal candidatura das oposições ao pleito presidencial de outubro deste ano, pertencente ao núcleo da família de golpistas, desenhado a partir do escândalo que vincula o postulante ao ex-banqueiro, Daniel Vorcaro, criador do Banco Master, no financiamento heterodoxo da película cinematográfica “Dark Horse”.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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