IR 2026: erros na declaração de imóveis elevam risco fiscal e pressionam reorganização patrimonial

IR 2026: erros na declaração de imóveis elevam risco fiscal e pressionam reorganização patrimonial

Inconsistências na base documental dos imóveis transformam a declaração anual em um alerta sobre riscos patrimoniais mais amplos

Com a aproximação do fim do prazo de entrega da declaração do Imposto de Renda em 29 de maio, contribuintes se apressam para organizar documentos, atualizar valores e revisar bens informados à Receita Federal. Para famílias que concentram patrimônio imobiliário, no entanto, o momento exige atenção redobrada. Divergências na forma como imóveis são declarados por diferentes membros da mesma família, erros na indicação de usufruto ou inconsistências históricas na titularidade podem gerar questionamentos fiscais e, mais adiante, dificultar vendas, inventários ou reorganizações patrimoniais.

O tema ganha peso em um país como o Brasil onde a irregularidade imobiliária ainda é expressiva: levantamento divulgado pela Associação dos Notários e Registradores do Brasil (Anoreg-BR) aponta que quatro em cada dez imóveis urbanos não estão devidamente regularizados e que mais de 5 milhões de brasileiros vivem em imóveis sem o devido registro em cartório. Na prática, a declaração pode se tornar um retrato imperfeito do patrimônio.

“É frequente encontrar casos em que o imóvel foi doado com usufruto e a informação não está refletida corretamente na declaração, ou em que cada membro da família declara o mesmo bem com dados diferentes. Isso pode gerar inconsistências relevantes e abrir margem para problemas com a Receita Federal”, afirma Rute Endo, sócia administradora da Ivan Endo Advocacia, escritório boutique com foco nos Direitos Imobiliário, Tributário e de Sucessão Familiar.

Segundo a especialista, o desafio não está apenas em preencher corretamente os campos da declaração, mas em garantir que o que está sendo informado represente a realidade jurídica do imóvel. Situações como usufruto ainda ativo, titularidade informal ou ajustes documentais antigos não registrados podem distorcer a declaração e gerar complicações futuras.

“Quando a base jurídica do patrimônio não está organizada, a declaração tende a refletir essa desorganização”, diz Rute Endo

Para Rute Endo, a entrega do Imposto de Renda é muitas vezes o primeiro momento do ano em que a família revisita o próprio patrimônio com atenção. Mas a preocupação deveria ir além do calendário fiscal, porque as inconsistências que aparecem na declaração costumam ser apenas sintomas de questões mais profundas, que surgem com força quando há uma venda, um inventário ou uma reorganização patrimonial.

Problemas comuns

Entre os problemas mais comuns estão divórcios e inventários antigos que não foram averbados na matrícula, usufrutos que não foram instituídos sobre a totalidade do imóvel, casamento realizado no exterior, doações que a família considera resolvidas, mas nunca foram registradas, ausência de averbação da construção na matrícula, remanescentes de desapropriações não registrados, divergências de área e perímetro, ausência de georreferenciamento, além de outras inconsistências na documentação do imóvel que podem travar negociações.

“Muitas famílias acreditam que está tudo certo porque essa sempre foi a história contada pelos pais e avós. No entanto, quando a documentação é analisada tecnicamente, descobre-se que nada foi formalizado”, afirma.

Ela ressalta que, antes de qualquer decisão mais complexa, como planejamento sucessório ou estruturação de holding familiar, ou até mesmo a tomada de decisão pela venda do ativo familiar, é recomendável realizar uma análise técnica do patrimônio para saber qual é a situação dos imóveis, quais riscos existem e como podem ser mitigados.

“Pode ser que a família não necessite de uma estruturação maior. Mas isso só fica claro com um diagnóstico do patrimônio. O planejamento começa com esse raio-x, para somente então viabilizar as decisões futuras com mais segurança e clareza”, destaca a advogada.

Ela lembra que a falta de organização documental não afeta apenas sucessão ou venda: pode limitar a liberdade de negociação do imóvel e dificultar locações para empresas que exigem regularidade, principalmente com as novas regras da Reforma Tributária que incluem essas operações, além de tornar inventários mais longos e custosos, especialmente quando envolvem menores de idade ou pessoas civilmente incapazes, situações que exigem maior intervenção judicial.

Com maior rigor documental trazido pelas normas da Reforma Tributária, e atenção crescente à governança patrimonial, a especialista avalia que a temporada do Imposto de Renda pode servir como um alerta anual para famílias com imóveis em comum. “Mais do que cumprir a obrigação fiscal, vale usar o período para garantir coerência, consistência e base documental sólida antes que um risco silencioso se transforme em um entrave jurídico e financeiro”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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