Juros altos transformam gestão financeira das empresas e ampliam divisão entre sobrevivência e sofisticação

Estudo da Celero aponta que nas micro e pequenas empresas, fluxo de caixa é a principal preocupação
O cenário de investimentos corporativos no Brasil vive uma transformação marcada por contrastes profundos entre empresas que operam em busca de sobrevivência financeira e organizações que já tratam a gestão de caixa como uma estratégia sofisticada de geração de valor. O estudo Panorama do Investimento Corporativo no Brasil, realizado pela Celero, fintech criada em Curitiba, especializada em gestão financeira empresarial, infraestrutura de dados e soluções de Open Finance voltadas para pequenas e médias empresas (PMEs), revela que o ambiente econômico brasileiro — historicamente caracterizado por juros elevados e volatilidade — influencia diretamente o comportamento financeiro das empresas e redefine a forma como o capital é administrado no país.
A elevada taxa Selic criou uma espécie de “dupla realidade” no setor corporativo. Para empresas com sobra de caixa, aplicações financeiras atreladas ao CDI se tornaram fontes relevantes de receita, fazendo com que deixar dinheiro parado em conta corrente represente perda de oportunidade. Já para negócios com dificuldade de capitalização, o mesmo ambiente de juros altos transforma o crédito em um custo quase proibitivo, obrigando empresários a priorizar a manutenção da operação acima de qualquer estratégia de rentabilidade financeira.
Nesse contexto, a gestão de tesouraria deixou de ser apenas uma função operacional e passou a ocupar posição estratégica dentro das empresas. Porém, o grau de sofisticação varia drasticamente conforme o porte do negócio.
Segundo o estudo da Celero, nas micro e pequenas empresas, o foco ainda está concentrado na sobrevivência financeira. O fluxo de caixa continua sendo a principal preocupação dos empreendedores, que direcionam esforços para garantir o pagamento de salários, fornecedores e despesas básicas. Ferramentas simples, como livro-caixa e controle de entradas e saídas, seguem predominando na rotina financeira das PMEs.
Conta pessoal X conta da empresa
Um dos sinais mais claros da baixa maturidade financeira nesse segmento é a mistura entre contas pessoais e empresariais. Levantamentos apontam que parte significativa dos empresários ainda administra os recursos da empresa junto às finanças da família, dificultando uma visão real da lucratividade e impedindo planejamentos mais estruturados.
Quando conseguem gerar algum excedente financeiro, as pequenas empresas tendem a reinvestir diretamente na própria operação. O conceito de investimento, nesse universo, está ligado à compra de equipamentos, ampliação de estoque, reformas ou ações voltadas à aquisição de clientes. O avanço da digitalização também mudou o destino desses recursos. Hoje, muitos pequenos negócios direcionam capital para propaganda em redes sociais, ferramentas digitais e estratégias de marketing online, considerados investimentos com retorno mais rápido e tangível.
A relação das PMEs com o mercado financeiro ainda é limitada. A poupança continua sendo o produto mais conhecido, utilizada muitas vezes apenas como reserva para despesas específicas, como pagamento do 13º salário. Mesmo produtos relativamente simples, como CDBs, ainda enfrentam baixa adesão devido à falta de conhecimento financeiro, aponta o estudo da Celero.
O estudo mostra que o desconhecimento sobre produtos financeiros sofisticados continua sendo uma barreira estrutural importante. Enquanto a maioria dos empresários conhece linhas de empréstimo bancário, poucos compreendem conceitos ligados ao mercado de capitais, investimentos ou instrumentos de proteção financeira. Como consequência, muitas empresas acabam recorrendo a alternativas perigosas para capital de giro, como cartão de crédito e cheque especial, cujos juros corroem margens e dificultam a formação de reservas financeiras.
Já as empresas de médio porte vivem uma fase de transição. Elas representam a ponte entre a gestão baseada apenas na sobrevivência e a profissionalização financeira das grandes corporações. Nesse segmento, cresce a adoção de instrumentos mais sofisticados de gestão de caixa, como fundos DI, aplicações em renda fixa e estruturas de planejamento financeiro mais organizadas.
Captação de recursos
A necessidade de captar recursos para expansão também aproxima essas empresas do mercado de capitais. Esse movimento contribui para elevar o grau de profissionalização da gestão financeira e amplia o conhecimento sobre alternativas de investimento e financiamento.
Nas grandes corporações, o cenário é completamente diferente, destaca o Panorama do Investimento Corporativo no Brasil. A tesouraria é tratada como uma unidade estratégica de negócios, responsável não apenas pela preservação de capital, mas também pela geração de resultados financeiros relevantes. Essas empresas operam com portfólios diversificados, gestão ativa de risco e participação intensa no mercado de capitais, tanto na captação quanto na alocação de recursos.
O estudo da Celero aponta ainda três tendências que devem moldar o futuro dos investimentos corporativos no Brasil. A primeira é a democratização do acesso a produtos financeiros por meio da tecnologia, com plataformas digitais voltadas ao público empresarial reduzindo barreiras históricas enfrentadas pelas PMEs. A segunda é a expansão do crédito privado, criando novas alternativas de financiamento além dos bancos tradicionais. E a terceira, considerada a mais decisiva, é o avanço da educação financeira empresarial.
A conclusão do levantamento é clara: o futuro do investimento corporativo no Brasil dependerá menos da criação de novos produtos financeiros e mais da capacidade de preparar empresários para tomar decisões estratégicas sobre capital, liquidez e crescimento. Em um ambiente econômico desafiador, conhecimento financeiro deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico de competitividade.








