Qual o peso da economia nas escolhas dos eleitores brasileiros?

Qual o peso da economia nas escolhas dos eleitores brasileiros?
Gilmar Mendes Lourenço.

Ao se fazer uma breve incursão retrospectiva na trajetória evolutiva política brasileira torna-se relativamente fácil apreender a predominância do comportamento das variáveis econômicas nas escolhas dos eleitores para a cadeira de mandatário do país, em especial a partir de 1994 por conta dos desdobramentos positivos provocados pela desinflação promovida pelo Plano Real.

Mais especificamente, Fernando Henrique Cardoso (FHC) surfou a onda da estabilidade monetária, nas disputas contra Lula, em 1994 e 1998, e a derrota do continuísmo, carregada pelo candidato de centro-direita, ou social-democrata, José Serra, à sucessão, em 2002, pode ser imputada primordialmente à não entrega de crescimento econômico mais robusto e duradouro, depois de dois tempos de administração, e ao temporário desarranjo macroeconômico, ensejado pela disparada da taxa de câmbio e, por extensão, da inflação.

Recorde-se que a flutuação dos parâmetros de estabilidade, naquele exercício, esteve intimamente ligada aos renovados ataques especulativos empreendidos contra a moeda nacional, em decorrência, paradoxalmente, das incertezas acopladas aos medos de vitória do pretendente das oposições na corrida presidencial. Foi o famoso Risco Lula.

Mais adiante, em plena apuração do episódio de malversação das verbas do orçamento público, organizado e viabilizado por articulações incestuosas entre executivo e Congresso Nacional, batizado de mensalão, os impactos da readequação alargada das iniciativas oficiais de proteção social deram a Lula um segundo mandato, a partir de 2007.

Na sequência, a concatenação entre a otimização doméstica do bônus internacional, catapultado pela escalada da demanda chinesa por commodities, e a colheita plena das reformas institucionais, plantadas em governos anteriores, proporcionou expansão de 4% ao ano do produto interno bruto (PIB), entre 2003 e 2010, sendo 7,5% apenas neste último ano, e assegurou recordes de popularidade a Lula e o êxito eleitoral de Dilma Rousseff, a preposta do petista, e o direito de governar a partir de 2011.

Mesmo com os evidentes sintomas de exaustão do paradigma de crescimento, escorado no consumo interno – em detrimento de estímulos aos investimentos – e no desaparecimento da vulnerabilidade externa, produzido por enormes e crescentes saldos positivos nas transações correntes do balanço de pagamentos, o controle artificial da inflação – fruto do intervencionismo nos preços administrados (câmbio, tarifas e combustíveis) e juros -, conferiu condições propícias à reeleição, ainda que apertada, de Dilma.

No entanto, a segunda permanência da presidente no Palácio do Planalto, estipulada para o período 2015-2018, foi interrompida, em agosto de 2016, mediante a cassação via processo de impeachment, consequência do caos econômico e da forte desidratação da retaguarda parlamentar do governo, em paralelo a engorda do conservadorismo e do patrimonialismo.

No fundo, o desconforto com as ações direcionadas à inclusão e mobilidade social, demonstrado pelas elites representadas pelo anacronismo dominante no parlamento, e a descoberta de cometimento de crimes de responsabilidade, materializados nos pagamentos das benesses assistenciais por bancos públicos e na liberação de créditos suplementares sem aprovação legislativa, foram cruciais para dar contornos legais à retirada de Dilma.

Desde então, o formato tradicional de resolução e conformação dos jogos políticos, condicionado à interferência vital do acesso ao emprego e renda, passou a incorporar, de maneira destacada, elementos na maioria das vezes alheios à lógica estritamente econômica.

Por essa perspectiva de compreensão, é necessário reconhecer que, a despeito das restrições metodológicas e dos critérios de montagem dos painéis de entrevistados – alvo de pertinentes críticas desferidas pelos meios especializados -, os principais institutos encarregados dos inquéritos de captura do sentimento da população têm revelado indiscutíveis avanços na construção interpretativa do ambiente brasileiro.

Um mergulho atento sobre as estatísticas oferecidas pelas sondagens permite apurar rápidas e profundas modificações na dinâmica social, demográfica e política nacional, nas últimas três décadas, que reúnem componentes explicativos do cenário de verdadeira mutação nas preferências e posicionamentos dos eleitores, delineada notadamente desde a eclosão das passeatas de 2013, conduzidas pelos movimentos “Vem pra Rua” e “Brasil Livre”, este último convertido no partido Missão, em outubro de 2023, que esmera-se em abrigar a direita não bolsonarista.

Contudo, foi a partir da campanha ao pleito presidencial de 2018 que a natureza virtuosa ou viciosa da performance da economia perdeu a preponderância na manifestação de apreço ou repúdio das pessoas com direito a voto, sendo submetida ao sacrifício de divisão de palco com outros aspectos ou atores emergentes fundamentais.

Tal processo, com feições de metamorfose, foi capitaneado pela multiplicação de posturas radicais, que resultaram em fragmentação do tecido social, caracterizada não necessariamente por influências ideológicas convencionais, mas por investidas de marcação de territórios tribais.

Esse fenômeno se deu por meio da explicitação escancarada de intransigência com posições e opiniões de adversários, maximizada com o advento das redes sociais, com predominância de adeptos da direita e, notadamente, fanáticos da ultradireita, do espectro ideológico, ainda que bizarra.

Em sendo destituídas de maiores exigências quanto a atributos mínimos de conhecimento e potencial de entendimento, as mídias digitais passaram a dar “vez e voz” a fabricantes de recortes de retalhos da realidade, também conhecidos como influenciadores, portadores de especialização em generalidades.

Tal atributo habilita influencers e legião de seguidores, predominantemente otários, a proferirem bobagens a respeito de todos os assuntos – sempre munidos do espírito de lacração -, que, certamente, envergonharia e enfureceria os antigos e preparadíssimos intelectuais orgânicos, atuantes em partidos políticos, sem qualquer remuneração.

Nesse caso, trata-se de atores sociais de saudosos tempos de luta contra o regime militar ditatorial e de redemocratização, em que as siglas costumavam formular, discutir, negociar e contratar, junto à população, diretrizes programáticas gerais a serem transformadas em objetivos específicos e políticas de ação, em linha com os rigorosos preceitos do planejamento.

Não por acidente, as pesquisas vêm aferindo maior inclinação à direita dos eleitores de ensino médio completo, avessos à formação universitária, afetados pelo charme do empreendedorismo de quermesse e a depreciação do emprego com carteira assinada, e diametralmente antagônicos às bandeiras do lulopetismo, enquanto que aqueles que cursaram apenas a educação fundamental continuam consubstanciando um reduto cativo do presidente Lula.

O encolhimento da área de posse da economia na mesa de deliberação dos eleitores pode ser ilustrado pelos resultados da contenda de 2018, determinados pela preponderância da pauta de costumes, oportunizada pela virada à direita do pedaço evangélico da sociedade, que triplicou de dimensão em três décadas, correspondendo a 26,9% da população (cerca de 47 milhões), segundo o Censo Demográfico 2022, do IBGE.

A vitória do outsider naquele ano foi também causada pela impregnação da agenda anticorrupção, conduzida pelo glamour da operação lava jato, que ganhou status de revolução ética após a prisão do ex-presidente Lula, então favorito na refrega, a despeito do episódio de superação do ciclo recessivo, atravessado pela nação entre março de 2014 e dezembro de 2016, o mais prolongado e intenso da história da república.

Na mesma linha, apesar dos efeitos do derrame de recursos públicos, focados na preservação e ampliação da densidade eleitoral das classes de renda baixa e média, a definição do embate de 2022, com diminuta margem de vantagem para Lula em relação a Bolsonaro, repousou nos incontáveis equívocos do governo de plantão na gestão da pandemia de Covid-19, notabilizados pelo deliberado desencadeamento de encrencas absurdas, inócuas e absolutamente dispensáveis.

Há quem defenda, em diagnóstico exagerado e apaixonado, a ideia de que, mesmo com a vasta lista de erros cometidos pelo executivo federal, bastaria um enfrentamento ativo e corajoso do surto do patógeno, englobando eventos de vacinação do chefe do estado e familiares, acompanhados de ampla veiculação publicitária, para a inversão do malogro nas urnas.

Esse raciocínio ignora a importância do repúdio da população feminina às extravagâncias despudoradas e preconceituosas de Bolsonaro e das pessoas pobres, permanentemente agradecidas e fiéis aquele agente político que consideram artífice e executor do populismo distributivo, ainda que com certa dose de exagero dado a retaguarda do assistencialismo foi incluída na Constituição de 1988 e implantada sob os mandatos de Itamar Franco e FHC.

Ademais, o que se constatou sob Bolsonaro foi um gerenciamento a favor do vírus, distinguido por desprezo às medidas de interrupção temporária de atividades e distanciamento e isolamento social, decretadas por governadores e prefeitos, e deboche dos princípios e esforços científicos.

O denodado trabalho contra o patrimônio também se reproduziu no campo ambiental, com a flexibilização e/ou desmonte do aparato regulatório de preservação na fronteira das atividades florestais e de mineração, sob a desculpa esfarrapada de permissão do livre mercado ou passagem da boiada, como preconizado pelo Ministro do Meio Ambiente da ocasião.

Na mesma frente negligente sobressaíram não poucas proibições ou atrasos de compra de insumos estratégicos, como oxigênio, além de vacinas, boicote à imunização, veemente recomendação de uso de medicamentos comprovadamente ineficazes (ivermectina e cloroquina) e moldagem do Ministério da Saúde como uma espécie de braço da caserna.

Outro sopro diferente dos ventos políticos identificado pelas pesquisas abrange a pauperização do centro democrático, acéfalo de opções eleitorais competitivas desde 2018, sufocado pela polarização, hospedeiro de parte do rechace ao Partido dos Trabalhadores (PT) e seduzido pela acomodação da direita na confortável hospedaria bolsonarista, tocada, em 2026, pelo filho zero um do ex-comandante, um dos escudeiros de Donald Trump, um pé-frio eleitoral fora do país.

Tangenciando esse elenco de anomalias emerge o adensamento de condutas corporativistas do poder judiciário, o mais caro do mundo e carente de uma reengenharia completa, e o empobrecimento qualitativo do legislativo, cada vez mais desatrelado dos anseios e interesses da sociedade.

Com o desmanche do papel estratégico das agremiações partidárias, que servem apenas para o cumprimento da tarefa de recolhimento das vultosas alocações dos fundos partidário e eleitoral, e aglutinação em blocos, a casa de leis empenha-se na liberação de emendas, paroquiais e desprovidas de transparência e de laços – ou responsabilidade de execução – com políticas públicas, que constituem autênticas alavancas para a eternização de mandatos proporcionais, por institucionalizarem a compra de votos e debilitarem a competição política.

Por fim, um enigma brota da anotação da incongruência entre reprovação do governo em patamares elevados, exposição de vigor da economia, mesmo com a presença cotidiana de juros proibitivos, e provável ocorrência de nova consagração de Lula, no segundo turno, em outubro deste ano.

Mas esse é um assunto extremamente complexo que merece estudos e análises aprofundadas, e respectivos esclarecimentos pelos profissionais experts na nobre arte da ciência política. Cabe aos pobres mortais, economistas, assimilá-los e disseminá-los com responsabilidade.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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