Selic cai, mas crédito caro deve manter empresas pressionadas até 2027

Queda dos juros abre espaço para otimismo, mas efeito prático sobre consumo, crédito e empresas ainda será limitado, afirma André Caruso, CEO Grupo Pilar
Na Superquarta, o Comitê de Política Monetária decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, que passou para 14,25%. Confira a avaliação de 11 economistas brasileiros que afirmam que o corte não vai reaquecee o crédito.
Alex Sales, Fundador da Alumbra Empreendimentos Design
“Com a decisão de reduzir os juros nesta Superquarta, o Copom sinalizou uma mudança relevante no ciclo econômico, ainda que o movimento ainda exija cautela. Para a construção civil, especialmente no alto padrão, a leitura é positiva porque a queda dos juros melhora a percepção de confiança, reduz gradualmente o custo do crédito e torna o imóvel mais competitivo na comparação com outras alternativas de investimento. Neste segmento, o comprador costuma depender menos do financiamento tradicional, mas ele acompanha o ambiente econômico com muita atenção. Quando os juros começam a cair, a decisão de compra ganha mais força, porque o imóvel volta a ser visto não apenas como moradia, mas como proteção patrimonial, reserva de valor e ativo de longo prazo. Esse movimento tende a favorecer projetos bem localizados, com arquitetura diferenciada, padrão construtivo elevado e liquidez futura”.
Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos
“As decisões da Superquarta deixam um recado claro para o mercado de crédito: a queda da Selic ajuda, mas não muda sozinha o custo do dinheiro no Brasil. O Copom reduziu a taxa em 0,25 ponto, para 14,25%, enquanto o Fed manteve os juros nos Estados Unidos. Essa combinação mostra que o Brasil começa a aliviar a política monetária, mas ainda dentro de um ambiente de muita cautela. A decisão ocorre em um momento em que a inflação esperada segue acima da meta, a atividade econômica ainda mostra resistência e o cenário externo continua pressionado por juros altos nos EUA. Isso indica que o ciclo econômico brasileiro está em fase de transição: há espaço para algum alívio, mas não para uma retomada forte do crédito no curto prazo. Para empresas e consumidores, o impacto deve ser gradual. O custo financeiro continua elevado, o consumo tende a seguir mais seletivo e a atividade deve sentir apenas lentamente os efeitos da queda da Selic. Nesse contexto, os FIDCs ganham relevância porque funcionam como alternativa ao crédito bancário tradicional, permitindo que empresas antecipem recebíveis, financiem cadeias produtivas e acessem capital de forma mais estruturada. A manutenção dos juros pelo Fed limita o espaço do Copom, porque mantém o dólar sob pressão e o investidor global mais conservador. Já a queda recente do petróleo pode ajudar a aliviar parte da inflação, especialmente em combustíveis e transporte, mas esse efeito ainda é frágil diante da escalada do conflito no Oriente Médio. Se o petróleo voltar a subir, as expectativas de inflação podem piorar e o Banco Central pode reduzir o ritmo dos cortes ou até pausar o ciclo. Por isso, a Superquarta reforça que o crédito no Brasil ainda dependerá menos de juros baixos e mais estruturas eficientes, governança e capacidade de conectar capital a empresas com risco bem precificado”.
Valdir Piran Jr. CEO da Intra Asset
“O corte da Selic indica que o Banco Central enxergou espaço para avançar no processo de flexibilização monetária, diante de sinais de desaceleração da atividade e algum alívio no ambiente inflacionário. Ainda assim, a decisão não significa uma mudança para um ciclo acelerado de queda dos juros. A inflação, as expectativas e o risco fiscal continuam exigindo cautela. Para crédito, consumo e atividade econômica, o impacto tende a ser positivo, mas gradual, porque o custo de capital ainda permanece elevado em termos reais. A decisão pode melhorar o humor do mercado e destravar parte das decisões de investimento, mas empresas e investidores ainda devem manter seletividade. No cenário externo, a redução das tensões no Oriente Médio e a queda do petróleo ajudam a aliviar riscos inflacionários, mas não eliminam os fatores domésticos que condicionam os próximos passos do Copom”.
Peterson Rizzo, Head de Relações com Investidores da Multiplike
“O corte de 0,25 ponto é uma calibragem dentro de um ambiente que segue restritivo, não o início de uma aceleração de cortes. O Banco Central aproveitou a melhora externa, com o avanço do acordo entre Estados Unidos e Irã e o recuo do petróleo para baixo dos US$ 80, para dar um passo modesto, mas os próprios números do Focus mostram um ciclo curto e lento, com a Selic projetada em 13,5% para o fim de 2026 e o IPCA ainda em 5,30%, acima do teto. A manutenção dos juros pelo Fed nos Estados Unidos pesa nessa dose contida, porque preserva o diferencial e recomenda prudência. Para crédito, consumo e atividade, o alívio é real, mas marginal, já que um corte dessa magnitude não muda o patamar restritivo nem destrava de imediato a demanda por financiamento. O petróleo mais baixo e a desescalada no Oriente Médio abriram espaço para esse movimento, e a continuidade do ciclo vai depender de esse alívio se sustentar e de o quadro fiscal não voltar a pressionar as expectativas”.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos
“O corte de 0,25 ponto confirma a estratégia de flexibilização gradual do copom e foi favorecido pelo alívio recente do cenário externo, especialmente com a queda do petróleo. Mas o comunicado deixa claro que o espaço para novos cortes continua limitado. A inflação segue acima da meta e o risco fiscal ainda exige cautela. O impacto positivo sobre crédito e consumo existe, mas é modesto. O foco do mercado agora passa a ser a reunião de agosto e o nível terminal da selic em 2026”.
André Caruso, CEO Grupo Pilar
O Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto, para 14,25%, num movimento que tem mais cara de calibragem do que de afrouxamento. A decisão chama atenção pelo contexto: a inflação esperada para 2026 está em 5,30%, acima do teto da meta de 4,5%. A aposta do Banco Central é que o juro real ainda elevado e a gordura gerada no período em que se mantiveram os juros em patamar elevado abrem espaço para essa dose sem comprometer o controle de preços. A leitura para o ciclo é de que estamos próximos do fim da flexibilização, não no meio dela. Com a atividade ainda resiliente, como mostrou o IBC-Br positivo, sobra pouco espaço para ir além. Trata-se de um ajuste fino dentro de um patamar que segue claramente restritivo, devendo ser lido mais como o início de uma pausa duradoura. Para crédito, consumo e atividade, o alívio é marginal. A 14,25%, o crédito continua caro e o consumo contido, com os efeitos defasados da política monetária ainda pressionando a economia no segundo semestre, vide o resultado divulgado ontem sobre a atividade no varejo. O alívio mais substancial sobre os balanços das empresas, sobretudo as mais endividadas, tende a aparecer apenas em 2027. O ponto decisivo para os próximos passos é o petróleo e o seu efeito inflacionário global. A queda recente do barril, puxada pela desescalada no Oriente Médio, também contribuiu para a decisão do COPOM, analisando a economia adiante. Esse alívio, porém, é frágil: se o acordo travar e o conflito reacender, o petróleo volta a subir, as expectativas de inflação pioram e o Copom é forçado a pausar. A continuidade do ciclo está, hoje, refém da geopolítica, o mesmo pano de fundo que levou o Fed a manter os juros e a sinalizar cautela”.
Antonio Patrus, Diretor da Bossa Invest
“A Super Quarta acontece sob um pano de fundo geopolítico que se transformou radicalmente em poucos dias: Estados Unidos e Irã fecharam um acordo-quadro para encerrar a guerra iniciada em fevereiro, com cessar-fogo de 60 dias, fim do bloqueio americano e, o ponto mais relevante para os mercados, a reabertura do Estreito de Ormuz, rota por onde passa parcela decisiva do petróleo e gás globais. Nesse ambiente, o Copom reduziu a Selic e o Fed manteve os juros nos EUA. A combinação é das mais favoráveis que o Brasil poderia desenhar: distensão geopolítica, petróleo em queda e afrouxamento monetário doméstico. O corte confirma que o Copom enxerga a inflação em trajetória convergente e que o ciclo de afrouxamento tem fôlego. Para crédito e consumo, o efeito é gradual e positivo: spreads bancários recuam, financiamento imobiliário e de veículos fica mais acessível, e o consumo das famílias ganha impulso adicional ao mercado de trabalho aquecido”.
Fábio Murad, Sócio e Fundador da Ipê Avaliações
“O Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, mas essa decisão deve ser interpretada mais como um ajuste dentro de uma política monetária ainda restritiva do que como o início de um ciclo forte de estímulo. O Banco Central busca abrir espaço para a economia sem perder o controle das expectativas de inflação, enquanto a manutenção dos juros pelo Fed reforça a necessidade de cautela, já que influencia o fluxo estrangeiro, câmbio, Bolsa e o preço dos ativos. A economia brasileira segue em uma fase de transição: a inflação mostra sinais pontuais de alívio, mas ainda exige atenção, e a atividade resiliente limita cortes mais acelerados. Para crédito, consumo e investimentos, os efeitos serão graduais. No mercado de capitais, porém, já há uma reorganização das carteiras, com destaque para renda fixa, ETFs e ativos ligados ao crescimento. Para o investidor pessoa física, o momento reforça a importância da educação financeira e da diversificação, especialmente em um cenário em que o Brasil reduz juros enquanto os Estados Unidos mantêm uma postura mais conservadora. Além disso, os próximos passos do Copom dependerão fortemente do cenário externo: a queda do petróleo pode ajudar a aliviar pressões inflacionárias, mas tensões no Oriente Médio ainda representam risco para os preços da commodity, para o dólar e para as expectativas de inflação. A mensagem da Super Quarta, portanto, é de cautela: a continuidade dos cortes dependerá da combinação entre inflação doméstica, cenário fiscal, fluxo estrangeiro, petróleo e decisões do Fed”.
Leticia Moschioni, Sócia da Finscale
“A queda da Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, traz algum alívio para a economia, mas ainda não muda de forma estrutural o cenário para empresas e consumidores. O crédito segue caro, o consumo deve continuar contido e as companhias ainda precisam ser seletivas na hora de investir. A manutenção dos juros pelo Fed reforça esse cuidado, porque mantém o capital global mais conservador e limita o espaço para cortes mais acelerados no Brasil. A decisão do Copom mostra que o país está em uma fase de transição: há sinais de melhora, mas a inflação, o câmbio e o ambiente externo ainda exigem prudência. Para empresas que buscam transformar serviços financeiros em nova linha de receita, esse cenário reforça a importância de estruturar bem operações de crédito, antecipação de recebíveis, contas digitais e soluções financeiras integradas ao negócio principal. A queda recente do petróleo pode ajudar a reduzir pressões sobre custos e inflação, mas a escalada do conflito no Oriente Médio ainda pode mudar esse quadro. Se o petróleo voltar a subir e pressionar o dólar, o Banco Central pode reduzir o ritmo dos cortes ou até pausar o ciclo. Por isso, mais do que esperar crédito barato, as empresas precisarão ganhar eficiência, controlar risco e criar novas fontes de receita”.
Gustavo Assis, CEO da Asset Bank
A decisão de reduzir os juros indicaria que o Banco Central e o Federal Reserve enxergam um avanço no processo de controle da inflação e maior equilíbrio entre atividade econômica e estabilidade de preços. Os dados recentes mostram desaceleração em alguns indicadores de inflação, redução das pressões sobre commodities e um ambiente externo menos tensionado após os avanços diplomáticos no Oriente Médio. Para a economia, o corte de juros tende a estimular gradualmente o crédito, o consumo e os investimentos. No entanto, os bancos centrais precisam ter cautela, pois uma redução prematura pode reacelerar a demanda e gerar novas pressões inflacionárias no futuro. Além disso, existe atualmente um descompasso entre a taxa básica de juros e a curva longa de juros. Mesmo com uma eventual redução da Selic, as taxas de mercado utilizadas para financiamentos de longo prazo continuam elevadas, refletindo preocupações com inflação, risco fiscal e sustentabilidade das contas públicas. Na prática, isso significa que uma queda da Selic nem sempre se traduz imediatamente em crédito mais barato para empresas e consumidores, já que boa parte das operações de financiamento utiliza como referência os juros longos da economia. A recente queda do petróleo reforça um cenário mais favorável para a inflação, mas o Banco Central continuará monitorando as expectativas inflacionárias, o cenário fiscal e o comportamento da curva de juros antes de acelerar um ciclo de flexibilização monetária”,
Isabella Almeida, gestora de Fundos Imobiliários da Rio Bravo Investimentos
“A performance dos fundos imobiliários costuma apresentar uma relação inversa com os juros, já que os investidores exigem um prêmio de risco para se investir em FIIs. Como os FIIs são investimentos com horizonte essencialmente de longo prazo e seus retornos refletem uma taxa real, o prêmio de risco do segmento é geralmente medido pela diferença entre o dividend yield dos fundos e a taxa das NTN-Bs de vencimentos mais longos, como as de 10 ou 20 anos. O desempenho dos FIIs, dessa forma, tende a ser mais sensível ao comportamento dos juros reais longos do que propriamente a alterações pontuais na taxa Selic, uma taxa nominal de curto prazo. Os investidores costumam antecipar movimentos esperados da política monetária. Assim, mais importante do que a decisão em si de cortar a Selic será a interpretação do mercado do comunicado do Copom e, posteriormente, da ata da reunião. Esses fatores tendem a influenciar a curva de juros futuros e consequentemente a precificação dos FIIs. Diante da deterioração das expectativas inflacionárias e dos dados de inflação recentes, os FIIs podem apresentar volatilidade. Por outro lado, esses momentos também podem criar oportunidades de alocação em fundos com fundamentos sólidos. FIIs com portfólios resilientes, ativos de alta qualidade e estruturas de capital saudáveis, caracterizadas por baixos níveis de endividamento e custos de dívida controlados, tendem a atravessar períodos de maior incerteza com mais robustez, mantendo distribuições recorrentes e preservando potencial de valorização no longo prazo”.








