Economia brasileira em época de guerra e tarifaço

Gilmar Mendes Lourenço.
Há poucas dúvidas dos especialistas acerca da formação de um panorama menos róseo para a atividade econômica no Brasil durante o calendário eleitoral, cuja amenização ou reversão dependerá da conquista de fôlego adicional dos ramos mais articulados às exportações e do aprofundamento eficaz da estratégia de elevação dos dispêndios governamentais.
De fato, a apreensão do funcionamento das engrenagens da economia global permite descobrir ou sugerir o mergulho em uma fase de redução de marcha, ou quase frenagem, da expansão vivenciada desde a superação das agruras provocadas pela pandemia de Covid-19, a partir de 2022.
Tanto é assim que inferências do Banco Mundial (BIRD), exibidas no Global Economic Prospects, referente a junho de 2026, apontam acentuada escorregada do crescimento do produto interno bruto (PIB) do degrau de 2,9%, em 2025, para 2,5%, neste ano, em consequência da intensificação dos desarranjos geopolíticos, ensejada pela irresponsável atuação do chefe de governo dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump.
Em uma apreciação resumida, parece correto admitir que, baseado em voluntarismo arrogante e belicoso e primitivismo comercial, Trump tenciona a rápida recomposição ou sonha com uma espécie de ressurreição da liderança hegemônica do Tio Sam, na política e na economia, suprimida inquestionavelmente pela gigante e moderna nação chinesa, especialmente depois da desastrada primeira passagem do autocrata pela Casa Branca, entre 2017 e 2020.
Em face da exacerbação das incertezas quanto à adequação das principais cadeias produtivas globais aos desmandos protecionistas de Trump – reproduzido em politização não dialogada ou negociada do comércio internacional, direcionada à intimidação tanto de adversários quanto aliados históricos – e às ofensivas militares dos EUA contra o Irã, em atendimento à solicitação do parceiro Israel, que resultaram no fechamento do Estreito de Ormuz, deflagrou-se um estágio de inflexão da produção e da corrente de comércio planetária.
Inferências da International Energy Agency (IEA) apontam estoque de petróleo de 100 milhões de barris no mercado, o que equivale a ¼ do volume disponível antes do conflito, sem contar a interrupção de fornecimento de óleo diesel pela Rússia, motivada por ataques da Ucrânia às refinarias.
Enquanto os EUA deverão manter a velocidade do PIB pouco acima de 2% – regada a insustentável combinação de multiplicação de despesas governamentais e renúncias de imposto -, em 2026, a despeito do empuxe inflacionário e da inexistência de chances de precipitação de rodadas encorpadas de corte dos juros, por parte do Federal Reserve (Fed), a Zona do Euro deve passar de 1,4% para 0,8%, a China de 5% para 4,2%, e o Japão de 1,1% para 0,7%, evidenciando circunstâncias de apatia.
No que diz respeito ao Brasil, o BIRD prevê redução de patamar de incremento do PIB de 2,3%, em 2025, para 1,9%, em 2026, o que converge com a emissão de persistentes sinais de fadiga da economia, embora o autêntico derrame de recursos públicos destinados prioritariamente à preservação e alargamento das iniciativas de proteção social, em fase com o adensamento do populismo atrelado ao ciclo eleitoral, em tempos de embate polarizado por motivações endógenas e exógenas, bastante conhecidas.
Mais especificamente, os principais marcadores de temperatura do ambiente de negócios (correntes e antecedentes) revelam a tendência de conformação de um cenário de estagnação do volume de produção e transações, em resposta à inescapável interferência de fatores de ordem política e econômica, fabricados de fora para dentro e no front doméstico.
Por conta disso, pelo lado da oferta, o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), qualificado como prévia do PIB, cresceu somente 0,1%, em maio, diante do mês de abril, com decréscimo de -0,4% da agropecuária e acréscimo de 0,4% da indústria e 0,1% dos serviços, atestando o desenho do princípio de uma etapa de paralisia.
Mesmo assim, as importações avançaram 5,1%, entre janeiro e junho de 2026, conduzidas pela indústria de transformação (+5,9%), dado que foram verificadas descidas na agropecuária (-16,3%) e extração (-1,3%), derivadas da guerra no Oriente Médio.
A produção industrial, apurada pelo IBGE experimentou declínio de -0,2%, em maio de 2026, em relação a abril, puxada pelas quedas das atividades gráficas (-8,1%), derivados de petróleo e biocombustíveis (-6,1%), têxtil (-4,0%), extrativa mineral (-2,6%) a alimentos (-1,3%).
Na mensuração por categorias de uso constatou-se encolhimento na fabricação de bens de consumo não duráveis e semiduráveis (-1,3%), intermediários (-0,4%) e de capital (-0,2%), com crescimento isolado de bens de consumo duráveis (3,6%), como rescaldo da disponibilidade de crédito caro.
Em simultâneo, as variáveis acompanhadas por pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresentaram marcha semelhante, com recuo da massa de salários reais (-3,2%) e rendimento médio real (-3,3%), variação zero nas horas trabalhadas e incremento de somente 0,2% e 0,5%, respectivamente, do faturamento real e do pessoal empregado, em maio em cotejo com abril.
Quanto aos componentes de demanda, as exportações nacionais, valoradas em dólares, subiram 11,5% no primeiro semestre de 2026, assentadas no dinamismo da indústria extrativa (+24,2%) e agropecuária (+9,2%), impulsionado pela procura chinesa (+21,9%) e da União Europeia (+12,8%), em paralelo ao encurtamento das vendas para Argentina e Estados Unidos de -19,4% e -13,0%, respectivamente.
O volume de vendas do comércio varejista amargou encolhimento de -0,2% em maio em comparação com abril, sendo as piores performances assinaladas por super e hipermercados (-2,0%) e equipamentos para escritório, informática e comunicações (-1,7%), segundo levantamento do IBGE, traduzindo a deterioração da renda pelo repique inflacionário e os juros exorbitantes.
Já para os serviços aconteceu regressão de -0.4%, determinada por transporte aéreo (-5,1%), os prestados às famílias (-2,2%, exceto os ramos de alojamento e alimentação que, no agregado, cresceram 0,4%), armazenagem (-1,1%) e telecomunicações (-0,8%).
Nessas condições, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência dos Consumidores (PEIC), efetuada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apontou que 81,6% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de passivo (cartão de crédito, cheque especial e pré-datado, crédito consignado e pessoal, carnês e financiamento de carros e casa), em julho de 2026, repetindo o recorde da série histórica, contabilizado em junho.
A CNC demonstra igualmente que 29,9% dos investigados encontram-se com o pagamento de contas em atraso (em média de 64,8 dias), e 12,2% declararam não dispor dos requisitos mínimos imprescindíveis para a realização da regularização das pendências financeiras.
O pior é que 84,7% mencionaram possuir dívidas no cartão de crédito, a modalidade mais predadora dos orçamentos, que, na especificação rotativo, cobrava juros de 439,9% ao ano, conforme inquérito do Banco Central (BC), atualizado para maio de 2026.
Em tais circunstâncias, depois de anotar recordes seguidos, a inadimplência caiu somente -0,3%, entre maio e junho de 2026, porém ainda atinge 74,8 milhões de pessoas, o que equivale a 44,6% da população adulta, conforme cálculos da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil.
Não por acaso, os medidores das expectativas dos agentes padecem de contínua e rápida deterioração, notadamente o estado de confiança do mundo ocupado pelas corporações industriais, detentor de maior capacidade de geração de efeitos multiplicadores para frente e para trás.
. Apenas a título de exemplo, o índice de confiança do empresário industrial (que varia entre zero e cem pontos, sendo que 50 pontos constitui a linha divisória entre entusiasmo e desesperança), da CNI, retrocedeu de 46,7 pontos, em junho, para 44,4 pontos, em julho, completando 19 meses de ausência de otimismo.
Portanto, em curto prazo, em face da impossibilidade de extração de uma limonada a partir de um único limão, resta perseguir a preservação do ânimo exportador, à margem das imposições absurdas da administração Trump, incitadas por “patriotas locais”, alguns com residência fixa nos EUA, em absoluto descompasso com o multilateralismo e a defesa da soberania dos estados nacionais.
No caso do recente tarifaço de 25% aplicado as exportações brasileiras para os EUA, não tem nada a ver com atitudes ou conflitos comerciais. Em vez disso, o propósito básico repousa na conquista da submissão de Lula, ou, melhor ainda, na derrota do postulante à reeleição no pleito de outubro deste ano.
A Global Trade Alert aponta que a tarifa efetiva média incidente sobre as vendas do Brasil aos EUA saltará de 11,7% para 18,2%, colocando-se como a segunda maior do mundo, atrás da China (26,7%) e a frente de Turquia, Indonésia, Vietnã e Tailândia, todos com 14,4%.
Estimativas do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC) mostram que a sobretaxação imposta pela gestão norte-americana em julho de 2026 deverá afetar 18% das exportações brasileiras dirigidas aquele país, ou US$ 7,4 bilhões, concentrados nas indústrias de madeira, móveis e calçados, o que exigiu socorro financeiro pontual, mediante o fortalecimento de linhas de crédito subsidiadas de amparo ao comércio externo.
Tanto que, em 22 de julho de 2026, por medida provisória, o governo anunciou aporte extra de R$ 18,5 bilhões em recursos emergenciais, oriundos do Tesouro Nacional e do BNDES, dirigidos às atividades afetadas diretamente pelo tarifaço e pela guerra no Golfo Pérsico, e encaixados na terceira etapa do Programa Brasil Soberano.
No entanto, o desmanche da “química” entre Trump e Lula explica a intensificação de uma guerra política unilateral – disfarçada por incursões protecionistas -, em face do desconforto provocado pelas reiteradas manifestações em defesa da soberania brasileira.
Mais precisamente, Trump nunca disfarçou o descontentamento com o não bloqueio dos tramites institucionais do julgamento dos líderes do projeto de supressão do estado democrático de direito, esboçado desde o princípio de 2019 e materializado após a divulgação dos resultados do segundo turno das eleições presidenciais de 2022.
Até porque, é interessante sublinhar que o esforço e torcida da Casa Branca no embate para a ocupação do posto de mandatário brasileiro sempre repousaram sobre a candidatura da extrema direita do espectro ideológico, composta por representantes de frações de “golpistas pela própria natureza”.
A esse respeito, nunca é demais recordar uma frase proferida algumas vezes pelo Dr. Ulysses Guimarães, grande articulador e condutor do movimento popular “Diretas Já”, em 1983 e 1984, e presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1988, ao detectar insinuações de ameaças externas: “o Brasil não é uma Uganda qualquer”.
Sobra também o empenho para o alargamento dos dispêndios públicos acertar o alvo não inflacionário, dado que, a agenda estrutural, envolvendo a preocupação com a produtividade microeconômica e a recomposição da eficiência do estado, em tempos de digitalização e inteligência artificial – exigentes em ciência, matemática e infraestrutura energética -, não deverá escapar do próximo mandato presidencial.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








