Dívida em alta exigirá do próximo governo controle de gastos e combate a privilégios

Dívida em alta exigirá do próximo governo controle de gastos e combate a privilégios

Com endividamento em 81,9% do PIB e Selic a 14%, especialistas dizem que próximo governo terá de priorizar medidas estruturais de controle das despesas

Mesmo após a arrecadação federal alcançar o recorde de R$ 1,59 trilhão no primeiro semestre de 2026, o Brasil encerrou junho com uma dívida bruta equivalente a 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 10,8 trilhões. Foi o maior patamar registrado desde 2021.

Os dados, divulgados pela Receita Federal e pelo Banco Central, reforçam o debate sobre os limites de uma estratégia fiscal concentrada principalmente na ampliação das receitas. Embora os indicadores tenham abrangências diferentes, o avanço simultâneo da arrecadação e do endividamento mostra que o aumento da receita não tem sido suficiente para estabilizar as contas públicas.

Para Luís Garcia, advogado tributarista pela USP/SP, sócio do Tax Group, administrador de empresas pela FGV e especialista em Governança e Compliance, o equilíbrio fiscal depende de medidas permanentes sobre as despesas.

“A elevação da arrecadação pode aliviar o resultado no curto prazo, mas não substitui o controle dos gastos. Quando o Estado mantém despesas obrigatórias crescentes e adia ajustes estruturais, novas receitas não são suficientes para colocar a dívida em uma trajetória sustentável”, afirma.

Segundo o Banco Central, o déficit nominal do setor público chegou a 9,99% do PIB no acumulado de 12 meses até junho. As despesas com juros corresponderam a 8,8% do PIB, enquanto o déficit primário, que desconsidera esses encargos, ficou em 1,19%.

O cenário ganhou um novo componente na semana passada, quando o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano. Apesar do quarto corte consecutivo, a taxa permanece elevada e continua pressionando tanto o custo da dívida pública quanto o crédito destinado às empresas e aos consumidores.

Na avaliação de Garcia, o atual arcabouço fiscal não conseguiu produzir a previsibilidade esperada porque o crescimento das despesas e o adiamento de medidas estruturais enfraqueceram sua capacidade de conter o endividamento.

“O arcabouço deveria oferecer uma referência segura para as contas públicas, mas perde força quando o ajuste depende do aumento contínuo das receitas. Sem enfrentar a estrutura das despesas, o país permanece exposto a déficits e a custos elevados de financiamento”, avalia.

Com a proximidade das eleições, a situação fiscal também passa a representar um dos principais desafios para quem assumir a Presidência em 2027. Entre as medidas consideradas necessárias pelo especialista estão uma reforma administrativa voltada ao combate aos supersalários, a revisão das vinculações que reduzem a flexibilidade do Orçamento e a avaliação de subsídios que não apresentem retorno social ou econômico.

“O próximo governo precisará deslocar o foco da receita para uma gestão rigorosa da despesa. Isso exige enfrentar privilégios, rever vinculações orçamentárias e interromper benefícios concedidos sem uma avaliação concreta dos resultados produzidos”, diz.

Na avaliação de Marcelo Costa Censoni Filho, sócio do Censoni Advogados Associados, especialista em Direito Tributário e CEO do Censoni Tecnologia Fiscal e Tributária, a manutenção dos incentivos deve estar condicionada à comprovação de seu retorno econômico e social.

“As empresas não poderão mais tratar o incentivo como um ganho permanente, mas como um instrumento de política pública que exige contrapartida mensurável. A administração desses incentivos passará a exigir uma área dedicada à gestão de desempenho e ao relacionamento com os órgãos gestores”, explica.

O adiamento dessas decisões, acrescenta Garcia, pode dificultar uma redução mais consistente dos juros e prolongar os efeitos do desequilíbrio fiscal sobre a atividade econômica.

“Para as empresas, as consequências aparecem no custo do crédito, no fluxo de caixa e na decisão de investir. Quanto maior a incerteza fiscal, maior tende a ser o custo para financiar o Estado e a economia, o que limita o crescimento e aumenta a pressão sobre empresas e contribuintes”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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