Inadimplência empresarial cresce 13,64% e aumenta pressão sobre negociações no segundo semestre

Número de dívidas em atraso avança 15,66% em julho
A inadimplência empresarial segue em trajetória de alta no Brasil e coloca maior pressão sobre o planejamento financeiro das empresas no segundo semestre. Dados do Indicador de Inadimplência de Pessoas Jurídicas do SPC Brasil mostram que o número de empresas negativadas cresceu 13,64% em julho de 2026, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. No mesmo período, o número de dívidas em atraso avançou ainda mais, 15,66%.
O movimento ganha relevância em um período em que empresas de diferentes setores precisam organizar caixa, estoques e compromissos para os meses de maior movimentação comercial do ano. Para negócios que já chegam ao segundo semestre com restrições financeiras, a menor previsibilidade pode dificultar decisões relacionadas a compras, investimentos e negociação de condições comerciais.
Segundo João Paulo Travasso Maia, coordenador de Soluções do SPC Brasil, a inadimplência empresarial pode gerar efeitos que ultrapassam o compromisso financeiro que deixou de ser pago.
“Quando uma empresa apresenta restrições em seu CNPJ, o impacto não está apenas na dívida em aberto. A situação pode afetar sua capacidade de planejamento e tornar mais desafiadora a negociação de novos compromissos. Em um período em que as empresas precisam se preparar para um segundo semestre mais intenso, ter previsibilidade financeira passa a ser ainda mais importante”, afirma Maia.
O cenário também revela que, em muitos casos, a inadimplência não é um episódio isolado. Em julho, 69,02% das negativações de empresas correspondiam a negócios reincidentes, ou seja, que já haviam aparecido no cadastro de inadimplentes nos 12 meses anteriores. Desse total, 44,12% ainda não haviam quitado dívidas antigas, enquanto 24,89% haviam deixado o cadastro nos últimos 12 meses, mas voltaram a ser negativadas.
Cresce a reincidência
A reincidência empresarial também apresentou crescimento. Nos 12 meses encerrados em julho, o número de empresas reincidentes aumentou 11,91% em relação ao período anterior. Entre essas empresas, o intervalo médio entre o vencimento de uma dívida negativada e o vencimento de outra foi de 43,7 dias, o equivalente a cerca de um mês e meio.
Para Travasso, o dado mostra que a recuperação financeira precisa ser acompanhada de medidas capazes de evitar que a empresa volte a enfrentar o mesmo problema.
“A reincidência é um sinal de que, em muitos casos, a empresa conseguiu resolver uma pendência, mas ainda não conseguiu equacionar completamente sua situação financeira. Por isso, mais do que quitar uma dívida pontual, é importante entender a origem do desequilíbrio, reorganizar o fluxo de caixa e avaliar os compromissos que serão assumidos nos meses seguintes”, explica.
Inadimplência compromete previsibilidade financeira
Em julho, cada empresa negativada tinha, em média, R$ 7.013,87 em dívidas, considerando a soma de todos os débitos, e devia para uma média de 1,79 empresas credoras. O levantamento mostra ainda que 38,48% das empresas inadimplentes tinham dívidas de até R$ 1 mil, enquanto 24,71% concentravam débitos superiores a R$ 7,5 mil.
A combinação entre aumento do número de empresas negativadas, crescimento das dívidas em atraso e reincidência pode reduzir a margem de manobra financeira dos negócios. Na prática, empresas com menor capacidade de planejamento podem ter mais dificuldade para antecipar necessidades de capital de giro e organizar compromissos para períodos de maior demanda.
“O segundo semestre costuma exigir uma capacidade maior de planejamento porque a empresa precisa conciliar as despesas correntes com decisões que podem determinar o desempenho dos meses seguintes, como recomposição de estoque, contratação de serviços e preparação para períodos sazonais. Quando o caixa já está comprometido, essas decisões passam a ser tomadas com menos margem de segurança”, destaca Maia.
O impacto também aparece na distribuição regional. O Sul registrou a maior alta anual no número de empresas inadimplentes, de 17,89%, seguido pelo Centro-Oeste, com 17,11%, Norte, com 15,28%, Nordeste, com 12,45%, e Sudeste, com 11,67%.
Recuperar o crédito é possível, mas exige planejamento
Apesar da pressão sobre as empresas, os dados também mostram avanço na recuperação de crédito. Nos 12 meses encerrados em julho, o número de empresas que deixaram os cadastros de inadimplentes após quitar suas dívidas cresceu 6,28%. O tempo médio para pagamento foi de 10,1 meses.
O levantamento indica que 52,94% das empresas que recuperaram o crédito quitaram suas dívidas em até 90 dias, enquanto 24,96% levaram de 91 dias a um ano para realizar o pagamento. Em julho, cada empresa recuperada pagou, em média, R$ 4.229,04, considerando a soma de todas as dívidas que possuía.
Na avaliação de João, a recuperação do crédito deve ser acompanhada por uma reorganização financeira que permita à empresa voltar a operar com maior previsibilidade.
“A recuperação do crédito representa uma etapa importante, mas o objetivo deve ser construir uma situação financeira sustentável. A empresa precisa olhar para o fluxo de caixa, priorizar compromissos, renegociar quando necessário e evitar assumir novas obrigações sem avaliar sua capacidade de pagamento. Isso ajuda não apenas a regularizar a situação atual, mas também a preservar sua capacidade de negociação no futuro”, conclui o coordenador de Soluções do SPC Brasil.
Para as empresas que entram no segundo semestre com dificuldades financeiras, o planejamento do fluxo de caixa, a revisão de despesas e a renegociação de compromissos podem ser importantes para evitar que uma restrição pontual se transforme em um ciclo de reincidência. O acompanhamento da situação financeira e do histórico de crédito também ajuda na tomada de decisões e na preservação da capacidade de negociação.








