Indicadores econômicos e largada eleitoral

Indicadores econômicos e largada eleitoral
Gilmar Mendes Lourenço.

Este texto deve iniciar, obrigatoriamente, com uma sincera manifestação ou solicitação de desculpas, aos estimados amigos e ao fiel e qualificado elenco de leitores, pela autêntica poluição provocada pelo despejo de sobrecarga tóxica de indicadores econômicos.

A justificativa para tamanha ousadia repousa, do ponto de vista da retaguarda oferecida pelo arsenal científico, na necessidade premente de esboçar e facilitar a apreensão da coincidência da inevitável composição de um quadro de inflexão na marcha de recuperação econômica, vivenciada desde o final de 2022, com a largada oficial do evento eleitoral.

Isso porque, a safra de estatísticas que fecha o primeiro semestre de 2026 flutua na perigosa faixa compreendida entre os conceitos modesto e ruim, reproduzindo aspectos negativos importados, preponderantemente distúrbios comerciais e geopolíticos, maximizados por algumas ameaças palpáveis no terreno doméstico, com ênfase para o aprofundamento da rivalidade eleitoral enrijecida, dominada pelos extremos das cartilhas ideológicas, condicionada pelos pesadelos de um passado mofado e acéfala de explicitação de programas abrangentes e consistentes de longo prazo.

O desempenho preocupante pode ser evidenciado pelo decréscimo de -1,8%, constatado na produção industrial, em junho de 2026, em relação ao mês imediatamente anterior, o segundo seguido nesta base de comparação, atingindo de maneira dramática todas as categorias econômicas.

A contração mais acentuada foi acusada nos ramos atuantes na ponta, dedicados à transformação para suprimento da demanda de consumo das famílias, especificamente de bens não duráveis e semiduráveis (-4,1%), de acordo com pesquisa do IBGE.

O recuo pode ser imputado primordialmente à compressão do poder aquisitivo da população, por conta da resistência da inflação (com tendência à estabilidade) em patamares que flertam com o teto de 4,5% ao ano, fixado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o regime de metas.

Porém, as manufaturas duráveis de consumo, caracterizadas por demanda movida predominantemente à crédito, também encolheram (com intensidade de -3,2%), em razão da persistente conjuntura de juros sufocantes e de disparada da inadimplência dos consumidores.

A esse respeito, sondagem preparada pela Serasa indica a existência de 83,7 milhões pessoas negativadas, em julho de 2026, o que representa o 18º recorde mensal consecutivo da série histórica, sendo que levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens Serviços e Turismo (CMC) verificou 85,3% da população com dívidas no cartão de crédito, a modalidade mais cara, também em julho do corrente ano.

Em direção análoga, a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil estimam 75,08 milhões de pessoas com contas em atraso, em julho de 2026, o que equivale ao maior patamar de inadimplência da história das apurações e representa 44,75% da população adulta.

Tal quadro escancara dramaticidade quando for acrescentado que, em quatro meses até julho, o Novo Desenrola ensejou a renegociação de R$ 44,1 bilhões em dívidas, com deságios que chegaram a 90%, o que comprova cabalmente o caráter estrutural do endividamento dos consumidores.

Na verdade, o adensamento da capacidade de consumo incitada pelo derrame de dispêndios governamentais é desmanchado, com doses de crueldade, pelos juros altos por um longo interregno, o que explica o atraso nos pagamentos das prestações em 38,5% das famílias declarantes de rendimentos mensais de até três salários mínimos.

Ao mesmo tempo, os segmentos operantes na base do sistema fabril, denominados bens de produção (intermediários e de capital) encolheram -1,1%, o que traduz o declínio na produção de insumos e matérias primas e, sobretudo, em bens de investimento, destinados ao aumento da capacidade produtiva, igualmente afetados pelo panorama inóspito vinculado aos juros proibitivos.

Embora o gigantismo da taxa Selic advenha da premência de controle da inflação ocasionada pela frouxidão da política fiscal – fora da meta, patrocinada por conluios entre executivo e parlamento -, ao menos na visão dos mercados e dos formadores de opinião, há argumentações distintas que destacam a influência da orientação macroeconômica atrelada ou mesmo atropelada pelos interesses do rentismo, que catapulta o custo de oportunidade dos projetos da economia real.

Mais do que isso, há indisfarçável orquestração de um movimento de culpabilidade exclusiva da expansão das despesas do Tesouro por todas as mazelas nacionais, que, inclusive, já contaminou a retórica professoral de cobiçadores do cargo máximo em disputa.

Os aspirantes tem ignorado a tarefa matemática elementar que comprova déficit primário consolidado de 1,19% do PIB, em doze meses até junho de 2026, versus juros apropriados de 8,8% do PIB, que se propagam ao longo da cadeia de taxas cobradas pelas instituições financeiras nas diferentes modalidades de empréstimos e financiamentos.

Se a eliminação precoce da maravilhosa seleção canarinho – formada por atletas abnegados e treinada por Carlo Ancelotti – da Copa do Mundo da Fifa 2026 pela impiedosa equipe da Noruega fosse atribuída ao expansionismo fiscal não seria nenhuma surpresa.

Também não causa estranheza a colocação da alavanca fiscal no topo das causas dos pedidos de recuperação judicial por grupos tradicionais do varejo nacional, com destaque para Casas Bahia e Lojas Marabraz, o que serve para encobrir as raízes podres das deficiências microeconômicas, notadamente a morosidade de adaptação aos tempos pós-pandemia, com a multiplicação das vendas on line, e a leitura equivocada das tendências macroeconômicas, precarizando a administração dos passivos contraídos para financiamento da acumulação excessiva de estoques.

O clima cinzento pode ser comprovado ainda pelo exame da performance industrial entre janeiro e junho deste ano, em cotejo com idêntico intervalo de 2025, marcado por acréscimo de apenas 1,5%, contra 1,2%, com registro de posições desfavoráveis em 13 dos 25 ramos acompanhados, 45 dos 80 grupos e em 56,3% dos 789 produtos objeto do inquérito.

Em semelhante encalhe, o conjunto de variáveis observado por pesquisa mensal da Confederação Nacional da Indústria (CNI) demonstra a estagnação setorial em junho, denotada por incremento, frente a maio, de 0,8% no faturamento real, 0,2% nas horas trabalhadas na produção e no nível de emprego, 0,9% na massa salarial real e 0,6% no rendimento médio real.

Porém, os dados expressam conotação pouco animadora quando considerado o comportamento entre janeiro e junho deste ano, com retração no faturamento (-1,0%), horas trabalhadas (-1,1%) e pessoal ocupado (-0,6%) e variações positivas somente para salários totais (0,8%) e médios (1,4%). Mais inquietante foi a despencada do grau de utilização da capacidade produtiva que passou de 79,1%, em junho de 2025, para 76,8%, em junho de 2026.

Outro componente do desenho de marasmo da atividade real reside na variação zero do volume de serviços prestados, em junho deste ano, em confronto com maio, segundo o IBGE, explicada pela contração das atividades de atendimento às famílias (-1,2%), profissionais e administrativas (-1,4%), transportes e correios (-0,1%) e outros serviços (-2,2%).

Para piorar, os indicadores acumulados no ano em doze meses até junho, exprimiram variações de 2% e 2,6%, contra 2,5% e 3%, em igual referência de confronto em 2025, em resposta à combinação entre corrosão na renda líquida disponível, atrelada à inflação, e o encarecimento e seletividade das transações amparadas na obtenção de crédito.

Na mesma toada cadente, o volume de vendas do comércio diminuiu -1,0% em junho de 2026 ante maio, -0,7% na média móvel trimestral – em contraste com o avanço de 1,9%, entre janeiro e junho, e 0,8%, em doze meses – determinado pelas reduções em livros, jornais, revistas e papelaria (-9,9%), material de construção (-3,5%), tecidos, vestuário e calçados (-2,6%), combustíveis e lubrificantes (-1,7%), veículos e motos, partes e peças (-1,5%), e equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (-1,3%), retratando o mix de fragilização da renda e agravamento das restrições às compras a prazo.

Paradoxalmente, os números alentadores provem do comércio exterior, ilustrados pela subida das exportações e importações, valoradas em dólares, de 10,5% e 5,5%, respectivamente, entre janeiro e julho de 2026, sendo as vendas externas impulsionadas pela indústria extrativa e agropecuária – com laços mais importantes com China e União Europeia -, beneficiadas pelas guerras entre Rússia e Ucrânia e no Oriente Médio, e as compras internacionais movidas pela indústria.

Por tudo isso, o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), tido como um parâmetro antecipador da evolução do produto interno bruto (PIB), encolheu -0,6% em junho de 2026, frente a maio, fruto de retrações de -1,4% na indústria e -0,5% em serviços, não compensadas pela variação positiva de 1,0% da agropecuária. A subida foi de apenas 0,2%, no segundo trimestre, e 1,5% no ano e em doze meses.

Convém finalizar com a advertência de que essa incursão interpretativa está respaldada na contemplação pelo espelho retrovisor da análise conjuntural, ou melhor, na espiada das imagens do pretérito recente, a despeito dos rigorosos critérios científicos e informacionais nela empregados.

Nas circunstâncias atuais, parece lícito alinhavar cenários futuros menos róseos em face das fortes apostas de contabilização de saldos líquidos negativos, em diferentes frentes, derivados das consequências perversas da continuidade do belicismo e protecionismo comercial norte-americano, não equacionáveis em curto prazo por meio de rearranjos relevantes, com a descoberta e penetração substancial em mercados alternativos.

Também dignos de atenção serão aos obstáculos políticos e institucionais endógenos, delimitados pela exacerbação das incertezas causadas por tensões institucionais e disputa eleitoral polarizada, afetada sobremaneira por fatores exógenos, incluindo os riscos à soberania nacional.

Há forte probabilidade, a julgar pelos levantamentos de opinião feitos pelos institutos portadores de maior reputação, de a peleja ser decidida em segundo turno, por margem apertada, subordinada ao peso do bloco Centrão e à escolha dos eleitores independentes e/ou moderados.

Como cerca de 40% deles encontram-se firmes com a alternativa progressista e pouco mais de 35% posicionam-se fechados com a ultradireita, o sufrágio do restante da massa de indecisos e/ou desacorçoados, que resolver apertar a tecla correspondente a um dos dois nomes na urna eletrônica, ocorrerá por exclusão, do petismo ou do bolsonarismo, e não por adesão.

É fácil notar a emissão de sinais de intromissão externa, com a requentada da doutrina Monroe, estampada no America First, no afã de resgate, das catacumbas das autocracias, da natureza “incontestavelmente” submissa das nações da América Latina aos devaneios do Departamento de Estado americano, que, por sinal, tem esbarrado em apreciáveis resistências impostas por México e Brasil.

O mais grave, no entanto, é que o esforço de ingerência de Trump no desenrolar da contenda ao cargo de mandatário brasileiro se dá em um estágio de flagrante exaustão dos impactos multiplicadores do farto coquetel de bondades fiscais e creditícias, disponibilizado pelo populismo pouco responsável acoplado ao empreendimento eleitoral.

Um aspecto alentador ou arrefecedor da interferência de fora aparece na menção de Hanna Arendt (ARENDT, 2020)1: “somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo, as massas têm que ser conquistadas por meio da propaganda”.

A dimensão macroeconômica desses elementos de distúrbios poderá ser conhecida e melhor analisada a partir da divulgação das informações acerca do PIB do segundo trimestre de 2026, a ser realizada pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do IBGE, em 1º de setembro.

Se bem que nunca é ocioso recordar uma das inúmeras frases antológicas proferidas pelo economista Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda do governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e um dos formuladores da mais bem sucedida estratégia de estabilização macroeconômica implantada na nação: o Plano Real.

O titular da economia costumava sublinhar que “no Brasil, até o passado é incerto”, o que, de modo elegante e velado, subvertia a lógica da infalibilidade dos paradigmas das certezas absolutas, que tanto penaliza os esforços e exercícios de observação retrospectiva e de preparação de contextos prospectivos, fundamentais às atitudes presentes.

1 ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2020.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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