“Copo meio cheio e meio vazio”: PIB do 2º trimestre

“Copo meio cheio e meio vazio”: PIB do 2º trimestre
Gilmar Mendes Lourenço.

A variação de 0,5% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, no segundo trimestre de 2026, em confronto com o intervalo temporal compreendido entre janeiro e março, pode ser interpretada com manifestações eminentemente catastróficas ou acenos otimistas, ao estilo da velha imagem do “copo meio cheio e meio vazio”, dependendo do jeitão e da perspectiva de observação da realidade pelo respeitável público.

Para os que enxergam o recipiente meio ou “totalmente” vazio, o comportamento aferido reflete o princípio de um movimento de desaceleração dos níveis de atividade, em resposta à perversa combinação entre o aprofundamento da deterioração das condições de funcionamento da economia global e à piora da conjuntura doméstica, motivada por fatores econômicos, amplificados pela acentuação da instabilidade institucional e política.

Pela ótica da produção, o carro chefe foi, mais uma vez, a agropecuária, que subiu estupendos 2,8%, com estabilidade em serviços (0,2%, impulsionados ´por transporte, armazenagem e correios e travados pelo comércio) e indústria (0,1%, apoiada no segmento extrativo).

As influências exógenas repousam diretamente nos desdobramentos macroeconômicos e comerciais da multiplicação das tensões geopolíticas, verificada desde o começo da segunda administração de Donald Trump, nos Estados Unidos (EUA), em 2025, com a imposição de renovados e “amazônicos’ tarifaços comerciais.

A lista de vitimados engloba tanto parceiros históricos quanto estados não alinhados a lógica e prática autocrata, bandeira da extrema direita liderada pelo chefe de governo americano, que sofrem a quatro anos e meio com os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia e, neste 2026, foram brindados com o prosseguimento dos bombardeios na Faixa de Gaza e as agruras derivadas do desencadeamento e não resolução do conflito no Oriente Médio.

A propósito desse último embate, em conluio ou a pedido de Israel, Trump decidiu atacar instalações e população do Irã, o que resultou, na mais benevolente das avaliações, na operação precária do Estreito de Ormuz, espaço crucial ao suprimento das principais cadeias de valor internacionais.

Há objetivos amplos nas tresloucadas investidas do “mandatário de cor laranja”, sintetizados na intransigente busca de restauração, na marra, do protagonismo e hegemonia perdidos, em recente estágio da história da civilização, para a China, que se tornou, por incontáveis razões, na verdadeira fábrica e principal mercado consumidor do mundo.

Com a retórica protegida pelo guarda-chuva da religião batizada de MAGA (sigla da expressão Make America Great Again, “tornar a américa grande novamente), Trump carrega a utopia de ressuscitar o superado modelo de industrialização por substituição de importações, especialmente com o advento da quarta revolução industrial, capitaneada por processos digitais e inteligência artificial, desenraizando as escolhas locacionais das plantas fabris.

Os enormes prejuízos causados à sociedade americana pelas atitudes tempestivas do governante, em sua maioria carentes de argumentos políticos e técnicos consistentes e convincentes – notadamente quando à corrosão dos orçamentos das famílias e do caixa das empresas derivada da impulsão da inflação -, resultaram em enfraquecimento da adesão popular, que deve custar a perda de maioria no legislativo, nas eleições de meio de mandato de novembro de 2026.

Porém, há acusação generalizada dos golpes desferidos pelo comandante americano em curto prazo. Prova disso é apreciável descida do patamar de expansão da economia internacional, expressa na redução da velocidade de crescimento do PIB de 3,5%, no biênio 2024-2025, para 3%, em 2026, de acordo com cálculos do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Mas não é só isso. O fundo projeta expressiva diminuição da velocidade de acréscimo do comércio global, que deve passar de 5%, em 2025, para 3,6%, em 2026, afetando mais dramaticamente as nações em desenvolvimento, que amargarão contração de 6,4% para 3,6%, enquanto os países ricos devem registrar recuo de 4,2% para 3,4%.

A agência multilateral também inferiu ascensão da inflação medida ao consumidor, de 4,1%, em 2025, para 4,7%, em 2026, com elevação de 2,5% para 3%, nas as nações avançadas, e de 5,2% para 5,8%, nos mercados emergentes, em igual interregno.

O relatório do fundo igualmente destaca a previsão de elevação de 31,8% e 18,6% das cotações de petróleo e commodities não energéticas, respectivamente, neste ano, sendo que os preços da energia e insumos metálicos e alimentares aumentaram 15,3%, 12,8% e 5,2%, respectivamente, entre janeiro e julho de 2026, de acordo com acompanhamento do Banco Central (BC).

O cenário de imperfeições de fora para dentro é agudizado pelos imbróglios endógenos, sobretudo os de caráter institucional e político, caracterizados por recorrentes e estressantes disputas entre poderes, na caça de maiores fatias do bolo orçamentário em atendimento de interesses próprios, a despeito da preservação do discurso de irrestrito compromisso com a responsabilidade fiscal.

O mais gritante é que esse descalabro acontece em meio ao acirramento da polarização eleitoral, nascida no pleito presidencial, de 2018 e que sufoca o surgimento de figurantes moderados, hospedados no centro democrático, e interfere na opção por rejeição e não por adesão.

De seu turno, os que percebem o copo meio ou quase cheio enaltecem que o ciclo de negócios emite sinais de resistência às não poucas disfunções de natureza política e à prolongada aplicação da orientação de restrição monetária, pelo BC, escancarada com a fixação do maior juro real básico do planeta, que contamina as taxas cobradas nas diversas modalidades de empréstimos e financiamentos.

Nesse particular, prevalecem falhas relevantes na condução da orientação monetária, começando pelo estabelecimento de metas de inflação extremamente rígidas – centro de anual de 3%, com margem de tolerância de 1,5 pontos percentuais -, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), absolutamente descoladas do padrão histórico de 7,2% ao ano, pós-desinflação do Plano Real.

Em continuidade, supostamente no gerenciamento fino do regime de metas, o Comitê de Política Monetária (Copom) superestima os focos de variação de preços provenientes do lado da demanda do sistema, preponderantemente a expansão fiscal, e negligencia os elementos de oferta, traduzidos na disparada de custos, em grande parte exógena, para os quais a política de juros estratosféricos não faz sequer cócegas.

Por fim, ao utilizar como baliza de predição inflacionária as expectativas de mercado, captadas pela pesquisa Focus, preenchida semanalmente por uma centena e meia de chefes de economia de bancos e consultorias financeiras – atualmente em 5% para doze meses para o IPCA-15 de 4,24%, em agosto de 2026 -, o Copom explicita a opção preferencial por garantir a rentabilidade rentismo em detrimento da saúde da comunidade empresarial e consumidores, penalizados com o avanço exponencial dos juros desde o final de 2024.

Em consequência, há o adensamento de avarias exprimidas nos casos recordes de solicitações de recuperação judicial ou extra de encorpados e populares grupos empresariais, como Casas Bahia e a rede de lojas Habib’s, com efeito cascata sobre pequenas e médias firmas, e inadimplência de consumidores, igualmente explicada pelo despejo de cartões de crédito a pessoas recém-bancarizadas.

Interessante apanhado efetuado pelo Instituto de Estudos de Protesto de Títulos do Brasil aponta que a Casas Bahia possui 4.457 dívidas protestadas, perfazendo R$ 235,7 milhões.

Com isso, a participação do endividamento no fluxo de renda das famílias chegou a 49,8%, em junho de 2026, contra 47,7%, em junho de 2024, e 48,8%, em junho de 2025, em condições de desembolsos mensais com o serviço da dívida (amortizações e juros) mais robustos, apurados em 28,9%, versus 26,4%, em junho de 2024, e 27,2%, em junho de 2025, pelo BC.

Não fossem os tradicionais vetores de dinamismo, o Brasil já estaria mergulhado em uma recessão. De um lado, salta aos olhos a ampliação das vendas externas, da indústria extrativa mineral, com a disparada dos preços do petróleo, e o avanço da demanda chinesa e europeia, em contrapartida ao previsível encolhimento da americana. Ainda assim, as exportações totais caíram -0,8% e as importações aumentaram 1,8%.

De outro ângulo, emergiu a força da absorção interna, particularmente do investimento, que cresceu 1,8%, e gastos do governo, que variaram 0,4%, enquanto o consumo das famílias recuou -0,4% (o mais intenso desde o período entre outubro e dezembro de 2024, quando regrediu -0,6%), apesar do empuxe dos recordes de emprego e renda, também irradiada pelos programas públicos dirigidos às pessoas vulneráveis.

De qualquer modo, as estatísticas de PIB integram o elenco de ilustres indicadores do pretérito, em um momento de exacerbação das incertezas em relação ao futuro de curto, médio e longo termo, e de proliferação de esperanças de que os próximos quatro anos da política sejam preenchidos com diálogos, negociações, entendimentos e deliberações maduras, entre os atores sociais.

Só assim será factível a construção de consensos dirigidos à recuperação da funcionalidade fiscal e financeira da máquina pública dos requisitos de perene maximização da eficiência microeconômica, essenciais à transformação de episódicos voos de galinha em etapas de crescimento econômico virtuosas e duradouras.

O regresso do avanço sustentado deverá ser amparado na inserção externa competitiva e no fortalecimento do mercado doméstico, ladeados por contínua melhoria na distribuição de renda visando à eliminação das mazelas seculares da pobreza e miséria, algo que já incomodava filósofos como Platão, Adam Smith, John Stuart Mill e Karl Marx.

Urge compreender que a época de meritórios incentivos ao consumo carece de ser preferencialmente antecedida pela recomposição do ambiente propício à otimização dos investimentos privados e públicos em infraestrutura econômica e social, autêntica variável portadora de elementos delineadores do futuro. Até porque, a taxa de investimento caiu de 16,6% do PIB, entre abril e junho de 2025, para 16,1% do PIB, no segundo trimestre de 2026.

Em não sendo isso feito, resta adoção de iniciativas oficiais daquilo que se convencionou denominar de “derrame de afetos”, como a aprovação da supressão da jornada de trabalho de seis dias, por um de descanso, e a renegociação das dívidas no cartão de crédito que, na linha rotativo, cobrava juros médios de 436,2% ao ano, em julho de 2026, conforme o BC.

No entanto, não se deve perder de vista, neste conturbado jogo eleitoral, a premência de não abandono de esforços no sentido de aproveitamento das oportunidades e eliminação das ameaças, assentados na resolução de conflitos pelo caminho da radicalização dos valores universais e inegociáveis da democracia.

Na mesma toada afigura-se crucial a negação soberana de interferências de superpotências externas, endossadas e/ou solicitadas por frações retrógradas e golpistas de cúmplices infiltrados no interior da sociedade brasileira, principalmente em circunstâncias de degradação institucional, centrada na minimização do evento de 08 de janeiro de 2023 e apologia a governos autoritários, manifestadas por algumas candidaturas.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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