Brasil lidera estresse no trabalho na América Latina

45% dos trabalhadores relatam sobrecarga ou estresse constante
A saúde mental já ocupa um espaço central nas discussões sobre qualidade de vida e futuro do trabalho. É o que revela a Pesquisa de Saúde Mental 2026 – Insights e Implicações de Negócio para líderes de RH na América Latina, apresentada nesta quarta-feira (30), primeiro dia do 24º Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida (CBQV), realizado pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).
Elaborado pela Aon e pela TELUS Health, o levantamento ouviu mais de 10 mil trabalhadores de dez países da América Latina, incluindo 2 mil brasileiros, e foi realizado por meio de pesquisa online em fevereiro de 2026. O estudo analisa a saúde mental dos trabalhadores e seus impactos sobre produtividade, estresse, bem-estar financeiro, relações de trabalho, estigma e atuação das lideranças.
Um dos principais indicadores apresentados é o Índice de Saúde Mental (MHI) da América Latina, que alcançou 64,9 pontos, classificação considerada “pressionada” pela metodologia da pesquisa. O índice considera que pontuações entre 50 e 79 representam um quadro de saúde mental sob tensão e maior risco, enquanto resultados de 80 a 100 correspondem à faixa considerada ótima.
O levantamento aponta ainda que 79% dos trabalhadores da região apresentam perfil de risco de saúde mental moderado a alto. Além disso, 74% afirmam trabalhar pelo menos um dia por semana sentindo-se mal, caracterizando uma situação de presenteísmo. Para 30% dos entrevistados, a saúde mental impacta negativamente a produtividade no trabalho.
Brasil tem índice de 65,5 pontos
Entre os dados apresentados no congresso, o recorte brasileiro mostra um Índice de Saúde Mental de 65,5 pontos, ligeiramente acima da média latino-americana de 64,9. A pesquisa contou com 2 mil participantes no Brasil.
No país, 43% dos trabalhadores relatam sentir ansiedade, enquanto 36% relatam sentimentos de depressão e 33% afirmam sentir-se isolados. O levantamento também mostra que 37% não possuem uma reserva de emergência, enquanto apenas 43% dizem conseguir fechar as contas com facilidade com a renda atual. As finanças pessoais aparecem como principal fonte de estresse para 27% dos brasileiros entrevistados.
A relação entre saúde mental e carreira também aparece entre os principais achados. 65% dos trabalhadores brasileiros afirmam que se sentiriam mal consigo mesmos caso tivessem um problema de saúde mental, enquanto 63% temem que suas opções de carreira sejam limitadas se o empregador soubesse da situação. Além disso, 28% dizem que não conseguiriam conversar abertamente com seu gestor ou colega de trabalho sobre o impacto de uma questão profissional em sua saúde mental.
Saúde mental e produtividade
A pesquisa evidencia uma relação direta entre as condições de saúde mental e a produtividade. Na América Latina, 55% dos trabalhadores apresentam pontuação de saúde mental igual ou inferior a 40, e esse grupo registra perda de produtividade pelo menos três vezes maior do que trabalhadores com pontuação de 80 ou mais.
No Brasil, trabalhadores com pontuação de saúde mental de 40 ou menos apresentam perdas de produtividade no mínimo duas vezes maiores do que aqueles com pontuação de 80 ou mais.
Para a pesquisa, o impacto não se restringe ao absenteísmo. O presenteísmo – quando o trabalhador permanece exercendo suas atividades mesmo sem se sentir bem física ou mentalmente – representa uma dimensão importante desse problema, por estar associado à produtividade e ao desempenho no trabalho.
Estigma ainda é uma barreira
Outro ponto destacado pelo estudo é o estigma relacionado à saúde mental no ambiente corporativo. Em toda a América Latina, 67% dos trabalhadores afirmam que ficariam preocupados com possíveis limitações na carreira caso tivessem um problema de saúde mental e seu empregador soubesse. Mais da metade, 54%, também afirma que se sentiria mal consigo mesma diante dessa situação.
O levantamento mostra ainda desafios para as próprias lideranças. Apenas 52% dos gestores afirmam saber o que fazer caso suspeitem que um colaborador esteja enfrentando um problema de saúde mental, enquanto 35% consideram desafiador administrar as necessidades emocionais de integrantes de suas equipes.
Apoio oferecido pelas empresas
A pesquisa também chama atenção para a percepção dos trabalhadores sobre os programas oferecidos pelas organizações. 48% afirmam que os benefícios e programas de saúde mental disponibilizados por seus empregadores não atendem totalmente às suas necessidades. Ao mesmo tempo, 42% dizem que um melhor apoio ao bem-estar seria mais importante para eles do que um aumento salarial de 10%.
Os resultados reforçam, segundo o estudo, a necessidade de que as organizações considerem diferentes perfis e necessidades dos trabalhadores na construção de suas estratégias de saúde mental, em vez de depender exclusivamente de iniciativas genéricas.
Um desafio para a agenda de RH
Ao analisar os resultados, a pesquisa coloca a saúde mental como um tema relacionado não apenas ao bem-estar individual, mas também à produtividade, ao engajamento, à retenção de talentos e à sustentabilidade das organizações. Entre as recomendações apresentadas estão a integração da saúde mental aos indicadores organizacionais, a capacitação de líderes para lidar com riscos psicossociais, o desenvolvimento de soluções baseadas em evidências e a criação de ambientes em que os trabalhadores possam falar sobre saúde mental sem receio de consequências profissionais.
A apresentação da pesquisa ocorreu no primeiro dia do 24º Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida (CBQV), promovido pela ABQV, que reúne profissionais e especialistas para discutir os desafios contemporâneos relacionados à qualidade de vida, saúde e bem-estar no trabalho.
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