Depois de décadas na mesma empresa, como voltar ao mercado de trabalho?

Diego Godoy, headhunter e sócio da MUUDA.work.
Executivos com carreiras consolidadas enfrentam o desafio de apresentar sua experiência em processos seletivos que mudaram
Construir uma carreira sólida, ocupar posições de liderança e acumular décadas de experiência não significa necessariamente saber procurar um novo emprego. Para profissionais que passaram 10, 15 ou até 20 anos na mesma empresa, voltar ao mercado pode significar descobrir um processo de contratação muito diferente daquele que conheceram no início da carreira.
LinkedIn, networking, entrevistas online, recrutamento apoiado por tecnologia e uma preocupação maior com posicionamento profissional passaram a fazer parte dessa busca. Segundo Diego Godoy, headhunter e sócio da MUUDA.work, é comum encontrar executivos altamente qualificados que chegam ao mercado sem saber por onde começar.
“Procurar uma nova posição no mercado também é uma competência que precisa ser desenvolvida. Muitas vezes estamos falando de um excelente executivo, que sabe gerir equipes, tomar decisões e entregar resultados, mas que não participa de um processo seletivo há 15 anos. Ele pode estar muito preparado para exercer uma nova função e, ao mesmo tempo, despreparado para mostrar ao mercado tudo o que construiu”, explica Godoy.
Para Godoy, o primeiro passo é entender que procurar uma nova posição exige estratégia. Atualizar currículo e LinkedIn é importante, mas não suficiente. É preciso conseguir traduzir uma trajetória extensa em uma narrativa clara sobre competências, resultados e o tipo de desafio profissional buscado naquele momento.
Um dos erros mais frequentes entre profissionais seniores é atualizar o perfil no LinkedIn apenas quando precisam de uma nova posição. Para o headhunter, mais do que funcionar como um “currículo on-line”, a plataforma deve ajudar o mercado a compreender quem é aquele executivo hoje, como ele pensa e de que forma vê o segmento em que atua. “Depois de muitos anos na mesma empresa, é natural que a identidade profissional fique muito ligada à organização e ao cargo. Quando esse ciclo termina, o executivo precisa conseguir responder: quem sou eu profissionalmente sem o nome daquela empresa ao lado?”, afirma, “Não somos um crachá, temos um crachá.”
O mesmo vale para a rede de relacionamentos. Profissionais com carreiras longas normalmente conheceram muitas pessoas, mas isso não significa que tenham mantido uma rede profissional ativa. Godoy explica que networking não deve ser entendido como procurar conhecidos apenas para pedir uma indicação. “Se você procura alguém depois de dez anos sem contato e a primeira mensagem é perguntando sobre uma vaga, provavelmente está usando sua rede tarde demais. Networking é relacionamento. Ele precisa ser construído e cultivado ao longo da carreira, da vida, com verdade, e não somente quando existe uma necessidade. Isso é utilitarismo.”
Experiência também precisa ser bem comunicada
Nas entrevistas, uma longa trajetória pode levar o candidato a tentar contar toda a carreira. O resultado, muitas vezes, é uma apresentação extensa e pouco objetiva. A recomendação é selecionar experiências que ajudem a demonstrar competências e resultados relevantes para a posição pretendida. “Um executivo com 20 anos de carreira tem muita história para contar, mas uma entrevista não é uma biografia. O recrutador precisa entender quais problemas aquele profissional sabe resolver, quais resultados já entregou e como essa experiência pode contribuir para a próxima posição.”, explica.
Para o headhunter, um dos principais equívocos é acreditar que a própria trajetória será suficiente para abrir portas. Quanto mais tempo o profissional permaneceu distante dos processos seletivos, maior pode ser a necessidade de preparação para voltar a participar deles.
“O mercado mudou, as ferramentas mudaram e a maneira de contratar também mudou. Isso não diminui a experiência de quem construiu uma carreira de 20 ou 30 anos. Pelo contrário: o desafio é aprender a comunicar essa experiência dentro da lógica atual do mercado”, afirma Godoy.
Para ele, a busca por uma nova posição deve ser tratada como um projeto profissional, com objetivo, posicionamento, relacionamento e preparação. “Executivos passaram a carreira inteira aprendendo a liderar, negociar, gerir negócios e desenvolver pessoas. Quando chega a hora de uma transição, precisam aprender também a gerir a própria carreira. Procurar emprego faz parte disso”, completa.
Crédito da foto: Lucas Costa








