Ninguém assistiu ao mesmo debate

Ninguém assistiu ao mesmo debate

Milhares acompanharam o confronto desse domingo (18) entre Lula e Flávio Bolsonaro. O que vai circular nesta semana são 40 segundos escolhidos por quem já tinha decidido o voto

Na noite desse domingo (18), milhões de brasileiros assistiram ao primeiro debate do segundo turno. Na manhã desta segunda-feira (19), a pergunta era uma só, do grupo da família à bancada do telejornal: quem venceu? 

Cada lado já tinha a resposta pronta. Um campo tem certeza de que o seu candidato “amassou”. O outro tem a mesma certeza, com o sinal trocado. E o mais desconfortável é que os dois estão certos. Cada um assistiu a um debate diferente.

Não porque alguém esteja mentindo. É que o debate que vai circular nesta semana não é o que foi ao ar. São quarenta segundos escolhidos por alguém que já tinha decidido o voto antes de a vinheta começar. E o corte nunca é sobre juro, dívida ou imposto. É sobre o tropeço, o rótulo, a acusação que cabe numa legenda. Essas são as partes que rendem.

Isso não é um acidente de domingo. É o formato funcionando exatamente como foi desenhado.

Comecemos pelo relógio. “Você tem um minuto” parece uma regra de organização, mas é um molde. Um minuto não é tempo para responder; é tempo para executar. Quem sobe ao púlpito sabe disso e, por isso, não responde. Concorda por dois segundos, agradece a importância do tema, atravessa a ponte e fala do que sempre quis falar. Para quem assiste, fica a sensação de que houve conteúdo: teve ritmo, convicção, fechamento. Só faltou um detalhe: a resposta.

O cronômetro protege essa manobra. Quando o tempo é curto, corta-se a explicação, nunca o slogan. Educação vira “futuro”, economia vira “coragem”, segurança vira “ordem”. Palavras grandes, com pouco compromisso com a realidade. E o pensamento de verdade, aquele que abre definição, testa exemplo, volta e ajusta, é lento demais para a televisão.

Depois entram os comentaristas. Com a seriedade de uma análise esportiva, avaliam postura, energia, domínio de palco, controle emocional. Quem amassou, quem se enrolou, quem se perdeu. Repare no vocabulário: é o de uma luta, não o de uma investigação sobre ideias. O espectador não precisa compreender nada. Precisa apenas escolher o vencedor. E escolher quem vence é muito mais fácil do que escolher uma ideia.

A cobertura faz isso com boa-fé e profissionalismo. Mas, ao transformar a conversa pública em disputa estética, ensina à plateia uma lição que ela aprende rápido: política é performance, discurso é esporte e a verdade é efeito colateral.

Há ainda uma camada mais recente. O cronômetro saiu do relógio do apresentador e entrou no bolso. É o que, em “Falo, logo existo!”, chamo de ringue de bolso. No estúdio, a gente assistia ao espetáculo. No celular, a gente participa dele. Cada pessoa vira distribuidora, e o corte que chega ao seu feed não é “o debate”: é o pedaço que se parece com o que ela já pensa. A máquina não pergunta o que é verdade. Pergunta o que segura a atenção. E conflito segura.

É assim que duas pessoas de boa-fé saem do mesmo domingo com certezas opostas e nenhuma mentira entre elas. Cada uma está respondendo a um mundo que a outra não enxerga. O debate não deixa de existir porque o país ficou burro de repente. Deixa de existir porque faltou o chão comum.

Esse mecanismo não pertence a um lado. Ele rouba de todos. Transforma causas legítimas em torcida, críticas reais em caça às bruxas e dores concretas em moeda de engajamento. Quem ganha, sempre, é o formato.

Existe saída? Não é grandiosa, mas existe, e cabe nos poucos segundos entre o estímulo e a resposta. Antes de compartilhar o corte, três perguntas rápidas: isso é prova ou clima? Definição ou rótulo? Argumento ou atalho? E uma quarta, mais dura, para fazer no espelho: existe algo que, se eu tivesse visto o debate inteiro, me faria pensar diferente? Se a resposta sincera for “nada”, o debate não era para mim. Eu já tinha decidido e só queria os quarenta segundos que confirmassem a decisão.

Haverá outros debates antes do voto. Vale testar uma pergunta diferente ao final de cada um. Não “quem venceu?”, mas “o que foi dito, e o que eu ouvi?”. Numa época em que falar virou prova de existência, ouvir um debate inteiro virou um ato quase subversivo. Talvez seja o mais útil que um eleitor pode fazer nesta semana.

O artigo foi escrito por Luciano Claudino, que é autor de “Falo, logo existo!”, estrategista político e consultor de investimentos há mais de 15 anos. Transformou sua experiência em comunicação e influência em uma investigação sobre o poder das palavras.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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