Financiamento do rombo das finanças do governo no curso da pandemia

As contas públicas consolidadas do Brasil das três esferas de governo (união, estados e municípios), incluindo os registros do serviço da dívida pública, encerraram o exercício de 2020 com rombo de -R$ 1,0154 trilhão, o equivalente a 13,7% do produto interno bruto (PIB), contra buraco de -R$ 429,2 bilhões, em 2019, o que correspondeu a 5,79% do PIB.

 Considerando apenas o resultado primário, compreendendo receitas menos despesas correntes, sem o cômputo dos juros e amortizações dos passivos, o déficit situou-se em -R$ 703,0 bilhões (9,49% do PIB), versus de -R$ 61,9 bilhões (0,84% do PIB), no ano anterior.

Com isso, a dívida líquida do setor público saltou de R$ 4,042 trilhões (55,7% do PIB), em dezembro de 2019, para R$ 4,670 trilhões (63,0% do PIB), em dezembro de 2020, em consequência da disparada do desnível primário e da depreciação do real, estimada em 28,9%.

Os juros nominais experimentaram discreta redução no período, passando de R$ 367,3 bilhões (4,96% do PIB), em 2019, para R$ 312,4 bilhões (4,22% do PIB), em 2020, em decorrência das sucessivas rodadas de cortes na taxa Selic, referência principal à rolagem dos papéis governamentais colocados diariamente no mercado, promovidas pelo Banco Central (BC).

A Selic despencou de 4,5% ao ano para 2% a.a., entre dezembro de 2019 e dezembro de 2020, em consonância com a situação de depressão econômica e estabilidade do nível de preços, apesar do empuxe inflacionário acontecido no 2º semestre, associado a choques de oferta, expressos na elevação dos preços dos alimentos, ancorada na expansão da demanda doméstica e firme recuperação da economia chinesa, e forte desvalorização cambial, mencionada anteriormente.

De seu turno, a dívida bruta do governo geral – abarcando as administrações central, estaduais, municipais e INSS – disparou de R$ 5,500 trilhões para R$ 6,616 trilhões, em igual lapso temporal, elevando-se de 75,8% do PIB para 89,3% do PIB, para média de 63% do PIB nas nações emergentes, calculada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Essa flagrante deterioração fiscal e financeira do estado nacional está estritamente atrelada à drástica modificação do modus operandi imposta pela necessidade de mitigação dos incontáveis e apreciáveis impactos econômicos e sociais determinados pela penetração do surto do novo coronavírus em território nacional.

Mais especificamente, a partir de um estágio de preocupante estagnação econômica, predominante entre o começo de 2017 e março de 2020, houve profundo declínio da arrecadação, acoplado ao quadro de recessão e desemprego, provocado principalmente pela quase paralisação do ciclo de produção e negócios, no 2º trimestre de 2020, e pronunciado alargamento dos gastos públicos, imprescindível à viabilização das iniciativas de abrandamento dos múltiplos desdobramentos do desastre sanitário.

A propósito da brutal retração econômica, mesmo experimentando acréscimo de 41,8%, entre maio e dezembro de 2020, o que oportunizou a recomposição de 27,1% da contração verificada entre março e abril de 2020, a produção fabril nacional fechou o ano com queda de -4,5%, ficando -13,2% abaixo do nível recorde, observado quase uma década atrás, em maio de 2011.

No entanto, é fácil perceber o perigoso plantio das sementes podres de desestruturação fiscal, em escala exponencial, pela máquina operacional do poder executivo federal dedicada à negação, ou na melhor das hipóteses minimização, do poder destrutivo do patógeno, defendida fervorosamente pelo chefe de governo, em praticamente todos os momentos.

Não por acaso, proliferaram sinais de falta de planejamento e coordenação geral e, o que é pior, de transferência da responsabilidade pelo combate e controle da evolução da Covid-19 para as demais instâncias da federação, especificamente governadores e prefeitos.

Seria ocioso sublinhar o permanente desprezo à participação nacional na Aliança Global voltada à descoberta e produção de vacinas (Covax) e aos árduos esforços dispendidos por entidades como Butantan e Fiocruz, em parceria com entidades externas, na incessante busca de desenvolvimento e disponibilização de vacinas à população do país.

O mais gritante, porém, foram as vultosas somas de recursos desperdiçadas na acumulação de estoques e não utilização de kits destinados à testagem da população, marcada pelo vergonhoso vencimento do prazo de validade dos mesmos, e a compra de excessiva quantidade de remédios desaprovados pela ciência para tratamento precoce da doença.

Para coroar os desastres gerenciais e logísticos, emerge os fiascos nas operações de importações de doses de imunizantes e insumos da Índia e China, respectivamente, a lentidão no reconhecimento e atuação para reversão do colapso sanitário instalado no estado do Amazonas, com a 2ª onda de contaminações, englobando a nova variante do vírus, cujo ápice da inoperância pode ser sintetizado na insuficiência de oxigênio para pacientes graves.

A despeito dessas aberrações impregnadas na gestão sanitária imprimida pelo ministério da saúde, comandado por um servo do presidente da república, parece razoável imputar parte do brusco e rápido aprofundamento da fragilidade das finanças governamentais ao conjunto de providências virtuosas, autorizadas pelo Congresso Nacional, diante do absoluto despreparo e inação exibidos pelo Palácio do Planalto, em diversos fronts.

Na verdade, se, de um lado, o grupo de estímulos derivados do pagamento do auxílio emergencial aos vulneráveis, o socorro financeiro aos estados, a vigência do orçamento de guerra, a oferta de crédito subsidiado á fração microeconômica mais atingida pela crise e a cobertura de parte da flexibilização das jornadas de trabalho, com haveres públicos, serviu para catapultar o déficit e a dívida governamental, de outro, evitou uma retração ainda maior dos patamares de atividade econômica.

Levando em conta as prováveis, e não poucas, adversidades e barreiras Made in Brazil, erguidas no percurso do processo de vacinação, e respectivos reflexos desfavoráveis na marcha da recuperação da produção e do mercado de trabalho e rendimentos, parece razoável sugerir a pronta ressurreição dos programas de incentivos acionados em 2020, o que deve resultar em significativa ampliação das necessidades de financiamento das despesas da órbita pública brasileira em 2021.

O suprimento da demanda financeira incremental do estado, sem a geração de abalos na confiança em sua solvência futura, dependerá da capacidade de convencimento dos emprestadores acerca da eficácia da política macroeconômica nacional, em especial no desenho, exposição e execução das reformas indispensáveis ao resgate da funcionalidade do segmento público e da vontade de modernização e maximização da eficiência privada, em médio e longo termo.

Convém lembrar que mais da metade do montante da dívida pública, com garantia de recompra pelo Tesouro Nacional, possui tempo de vencimento inferior a dois anos, sendo que 21,3% do total requer quitação ou permuta de bônus até janeiro de 2022, o que não configura um quadro confortável.

 Até porque, o curto prazo deve ser tratado essencialmente como emergência sanitária, econômica e social. Por essa avaliação, a cartilha liberal, avessada à adoção de ações direcionadas à inversão da concentração de renda, deve ser substituída por pesadas intervenções públicas anticíclicas, dirigidas prioritariamente ao atendimento das carências dos agentes sociais mais penalizados pelo tsunami patológico.

Para tanto, há a opção de emprego de parcela do enorme volume de reservas internacionais, hospedado nos cofres da autoridade monetária, com rendimentos próximos de zero, avaliado em mais de US$ 340 bilhões, em dezembro de 2020. Porém, ao que parece, tal informação ainda não está acessível ao ministério da Economia.

Por enquanto, não constitui mera obra do acaso o brusco recuo do investimento direto estrangeiro (IDE) no país, que caiu de US$ 78,2 bilhões (4,2% do PIB), em 2018, para US$ 69,2 bilhões (3,68% do PIB), em 2019, e US$ 34,2 bilhões (2,38% do PIB), em 2020.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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