Subida da Selic: tiro no pé?

Enquanto o Federal Reserve (FED) manteve a taxa básica de juros dos Estados Unidos na faixa compreendida entre zero e 0,25% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), decidiu, na reunião de 17.03.2021, iniciar nova rodada de subida da taxa Selic, que passou de 2% a.a. para 2,75% a.a., sendo a 1ª elevação desde 2015 e a maior em dez anos.

Com tal deliberação, a instância monetária seguiu fielmente as regras protocolares gerais expressas no regime de metas de inflação, que recomendam a elevação da Selic quando o IPCA, medido pelo IBGE, se aproximar do teto do objetivo fixado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), para o ano em curso.

O IPCA fechou em 5,20%, em doze meses, encerrados em fevereiro de 2021, com projeção de 4,54% e 4,25%, realizada pela pesquisa Focus do BC, para o ano e próximos 12 meses, respectivamente, versus meta de 5,25%, para o exercício de 2021, fechado.

No entanto, desta feita, o Comitê parece não ter conferido relevância à baixa correlação entre a atual escalada inflacionária nacional e os conhecidos componentes de demanda (pressões oriundas de majorações da massa de salários e crédito e monetização do déficit público).

Particularmente a atual espiral de preços possui raízes em choques de oferta (custos), determinados pela valorização do dólar, por conta do embrião de reativação da economia mundial, com o avanço e generalização do processo de imunização da população contra o coronavírus, e o enfraquecimento do real, associado aos incontáveis tropeços da atual gestão do poder executivo, em especial na frente sanitária, o que vem combalindo a confiança dos investidores no futuro do país.

Há também a forte influência exercida pela disparada das cotações das commodities no front externo, derivada do cenário de firme recuperação da economia chinesa, desde o 2º trimestre de 2020, atrelada ao êxito no estancamento da evolução da pandemia de Sars-CoV-2, naquela nação.

Por fim, emerge a equivocada política de precificação doméstica dos combustíveis, em linha direta com o comportamento dos preços globais e do dólar, que, em momentos de turbulências, provoca pronunciado desalinhamento da estrutura de preços relativos.

Mais que isso, a estratégia de formação de preços internos dos derivados de petróleo que privilegia movimentos pendulares exógenos ocasiona imprevisibilidade no funcionamento de várias cadeias de produção e distribuição e, o que é pior, diminuição da renda líquida disponível das famílias, já suficientemente afetadas pela profunda crise, instaurada em 2014 e agravada pela pandemia.

Igualmente negligenciados na escolha do Copom, emergem os nítidos sinais de interrupção da tendência de recuperação do ciclo de negócios e de novo mergulho no pântano depressivo, atestado pela queda de -0,46% do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), em janeiro de 2021, em relação a dezembro de 2020.

O regresso ao estágio recessivo decorre da combinação de três fatores. O primeiro compreende a derrubada antes da hora do muro de proteção aos vulneráveis, às finanças estaduais e aos microempreendedores, levantado em 2020, pelo Congresso Nacional, para mitigação dos impactos devastadores do vírus.

O segundo elemento explicativo da nova retração engloba os desdobramentos do caráter explosivo da 2ª onda de contágios, internamentos e mortes por Covid-19 por aqui, imputado essencialmente à falta de coordenação nacional no enfrentamento da doença e na definição e execução da vacinação em massa.

O terceiro vetor de contração dos níveis de atividade reside na surpreendente inexistência de um projeto de longo prazo de nação, focado em propostas para o depois do desastre sanitário e ancorado na preparação, para negociação legislativa, de uma pauta de prioridades capaz de promover a modernização e eficiência econômica e a diminuição da desigualdade na apropriação do produto social.

Em outros termos, a majoração dos juros, em ambiente de prevalência de inflação de custos e economia anêmica, pode não produzir o efeito esperado na reversão das expectativas inflacionárias, representar um verdadeiro tiro no pé e servir apenas para acalmar, temporariamente, os mercados, que contemplam a hipótese de insolvência do setor público, diante das resistências do executivo e legislativo em levantar a bandeira do ajuste fiscal e das reformas estruturais.

De qualquer forma, pela postura recente, o BC ainda é detentor de crédito e representa uma solitária “ilha de excelência”, no oceano ocupado por um governo que, a rigor, não existe.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *