Retomada econômica e crise energética
Em recente evento acontecido no Palácio do Planalto, marcado pela cerimônia de sanção presidencial à lei que possibilita o desencadeamento do processo de capitalização da estatal Eletrobrás, o titular da pasta da Economia, Paulo Guedes, expressou incontido entusiasmo com o atual curso de reerguimento dos níveis de atividade no Brasil.
De fato, a despeito das não poucas barreiras erguidas desde a entrada e rápida evolução do Novo Coronavírus em território nacional, algumas derivadas de vários erros cometidos pelo governo no combate ao surto – agravado por ações precipitadas e/ou induzidas por importantes lideranças, comandadas pelo chefe de Estado, empenhadas em jogar contra -, o exame da conjuntura revela um clima de recuperação e o delineamento de cenários menos instáveis até o final do corrente ano.
Essas condições econômicas virtuosas decorrem da conjugação entre o resgate da marcha de aceleração da produção e comércio global – acoplada aos pacotes de socorro financeiro e fiscal, lançados pelos principais governos de estados nacionais, e a multiplicação da vacinação -, a subida das cotações das commodities, ancorada no bônus chinês, o prolongamento temporal do pagamento do auxílio emergencial à população vulnerável e a ocorrência de pavimentação primária dos tortuosos caminhos da vacinação por aqui.
A ruptura da tendência cadente pode ser comprovada pela observação de que indústria, comércio e serviços juntaram-se ao setor agropecuário e às exportações na celebração do espetáculo de reanimação de um organismo econômico debilitado, mesmo antes da eclosão da patologia em escala mundial e nacional.
Tanto que apesar da base de comparação depreciada de 2020, em face de heterogêneas paralisações de atividades por todo o país, associadas às quarentenas decretadas por governadores e prefeitos, no afã de conter as pressões da escalada da doença sobre as retaguardas de saúde, pesquisas do IBGE revelam expansão da produção industrial, do volume de vendas do comércio varejista e da receita real dos serviços, de 13,1%, 12,4% e 7,3%, respectivamente, entre janeiro e maio de 2021, em relação a igual período do ano anterior.
No entanto, parece razoável argumentar o caráter prematuro de comemorações e, principalmente, atitudes desprovidas de responsabilidade e olhares atentos aos movimentos pendulares da realidade que, a qualquer momento, poderá vir a frustrar decisões apressadas.
Até porque, o declínio de -03% do índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), indicador antecedente da variação do PIB, no trimestre móvel encerrado em maio de 2021, comprova a natureza transitória da atual etapa de retomada.
A reação dos patamares de transações é explicada por componentes portadores de enorme fragilidade, em especial a prorrogação do benefício provisório de transferência direta de renda às famílias mais atingidas pela Covid-19, antecedida por várias hesitações e discussões no interior do governo, a respeito da conveniência de preservação ou retirada da ajuda.
Em idêntico sentido triunfalista, no referido encontro, o ministro chegou a tirar da cartola a informação acerca do desempenho bombástico do consumo de energia elétrica nacional, para confirmar os sinais de vitalidade da recuperação do ciclo de produção e negócios, coincidentes com a perspectiva de abrandamento e reversão da pandemia.
O desejo de transmissão de recados otimistas ensejou o esquecimento de Guedes, mesmo que por alguns instantes, meramente protocolares, da predominância de circunstâncias adversas no horizonte de curto e médio prazo, adicionais à necessidade de conserto das incontáveis fraturas provocadas pelo desastre sanitário no tecido econômico e social da nação.
Apenas a título de exemplo, enquanto os governantes dos EUA vêm combatendo os desdobramentos negativos da pandemia por meio da conjugação entre vacinação e vultosos incentivos aos cidadãos e às empresas, as autoridades legislativas brasileiras preferiram orquestrar a aprovação da ampliação em 2,4 vezes a massa de recursos públicos destinada ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha, conhecido como fundo eleitoral, incluída na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2022.
No terreno dos desafios estruturais, não bastasse a dificuldade de levar adiante o programa de reformas, indispensável à devolução da funcionalidade e solvência do setor público e ao retorno de elevados ganhos de eficiência da microeconomia, prejudicado pelos percalços políticos e institucionais, as instâncias de Brasília descobriram e/ou receberam um novo e complexo dever de casa.
Trata-se da urgência de planejamento de enfrentamento da maior crise hídrica em um século que, por certo, deverá ocasionar efeitos negativos generalizados nas várias cadeias de valor, em médio termo, e dificuldades imediatas no controle da inflação.
Cumpre sublinhar aqui a diferença, para pior, entre os embaraços de hoje em relação àqueles subjacentes ao choque energético verificado em 2001. Há vinte anos, o apagão derivou da combinação entre insuficiência de chuvas, na região Sudeste, e da não implantação de grandes projetos de investimentos em linhas de transmissão de energia elétrica do Sul para os espaços de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Logo, o nó górdio residia na impossibilidade técnica de transferência da geração excedente do Sul para o Sudeste.
Desta feita, em um país governado por alianças hegemônicas desinteressadas no aprofundamento da diversificação da matriz energética (com o aproveitamento de fontes eólicas, solares e biomassa, por exemplo), a forte e prolongada estiagem deverá afetar o suprimento de água e energia elétrica em um eixo geográfico maior, que engloba o Sudeste, o Sul e o Centro-Oeste brasileiro, responsável por 80% do PIB nacional, de acordo com o Sistema de Contas Regionais (SCR), do IBGE. Portanto, a distorção repousa na escassez de água para consumo e geração de energia.
Mais do que isso, a inevitável exigência de ativação das usinas térmicas, que registram custos operacionais expressivamente superiores aos incorridos com a utilização dos aproveitamentos hidrelétricos, deverá encarecer o funcionamento das várias linhas de produção e incitar repasses aos preços finais.
Como se vê tal constrangimento atrapalhará os esforços de amenização da espiral inflacionária, já suficientemente impulsionada por distúrbios de oferta, em sua maioria de origem exógena, acoplados direta e indiretamente ao aparecimento, avanço e superação do Sars-CoV-2, exemplificados pela apreciação dos preços das matérias primas e a necessidade de convivência com a imprevisibilidade trazida por fases de descontinuidade no fornecimento de insumos e produtos acabados.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.








