O ministro Guedes e a idade da pedra lascada

As tendências discrepantes demonstradas pelos dois principais instrumentos de aferição dos sinais do mercado de trabalho brasileiro, ao longo do 1º semestre de 2021, levaram o titular da Economia, Paulo Guedes, a desqualificar um deles. Trata-se da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão público de respeitabilidade internacional e ligado à estrutura do ministério da Economia.

É imperioso reconhecer que Guedes vem demonstrando crescente desconforto com as sucessivas derrotas sofridas desde o começo do governo Bolsonaro, quando surgiu como uma espécie de czar da Economia, com status de superministro, ao estilo exercido por Delfim Neto, durante a derradeira gestão da ditadura militar, tocada pelo General Figueiredo, entre 1979 e 1985.

Decerto que o atual titular do posto Econômico reúne atributos incomparavelmente menores do que aqueles apresentados pelo ocupante do cargo no final dos anos 1970 e começo dos 1980, notadamente competência, capacidade de diálogo e habilidade de negociação e articulação política.

Ressalvados os contextos históricos e políticos bastante diferentes, é fácil perceber que, em menos de dois anos e meio no exercício de funções tão complexas, Guedes perdeu todas as grandes batalhas que travou, com ênfase para a reforma da previdência, aprovada graças ao esforço do legislativo, com desidratação de mais de 40% da potência fiscal original, e os sucessivos insucessos na formulação e encaminhamento congressual de uma proposta abrangente e consistente de reforma tributária.

Mais recentemente, a reforma ministerial promovida pelo presidente da República, destinada a agradar o bloco parlamentar Centrão e acomodar interesses de outros súditos, diminuiu substancialmente as ações da pasta do antes todo poderoso Posto Ipiranga. Com o deslocamento das atribuições do Trabalho e Previdência para a pasta recém-criada, o ministro acatou a determinação presidencial e conformou-se com a perda dos anéis para a suposta salvação dos dedos.

Em circunstâncias operacionais tão inóspitas, a divulgação de resultados desfavoráveis a respeito da evolução do emprego e desemprego, em 2021, por parte da instância oficial de estatística, levou Guedes a mencionar que a entidade estaria na “idade da pedra lascada”.

Antes da grotesca manifestação de ataque ao IBGE e defesa de números positivos, apresentados pela Secretaria do Trabalho, também sob sua tutela, com o novo Caged, Guedes já havia protagonizado a tentativa de feitura de enorme poda no questionário do Censo Demográfico 2020.

Também se revelou ferrenho organizador das operações orçamentárias voltadas à inviabilização da cobertura financeira para a efetivação da investigação censitária ainda em 2021, elemento crucial para a atualização da base informacional requerida ao planejamento de médio e longo prazo dos destinos da nação.

Esse comportamento reprovável apenas sintetiza o desprezo governamental aos esforços de produção de conhecimento, diagnósticos e terapias baseadas em abrangentes pesquisas econômicas e sociais, destituídas de intervenções atreladas ao atendimento de vontades não republicanas.

Aliás, essa postura é peculiar de agentes egressos do ambiente privado, presos às armadilhas preparadas pelas modelagens econométricas e, na maioria das situações, portadores da miopia de curto prazo e incapazes de compreender a relevância das atividades subjacentes ao planejamento voltado à formulação de políticas públicas de longo alcance.

A cartilha do planejamento reúne ingredientes que adicionam conteúdos de racionalidade ao processo decisório e, em consequência, requer refinado e diversificado arsenal de dados, informações e indicadores, algo desprezado pelos atuais inquilinos do lócus da Economia.

A rigor, a frase “vivência nos tempos paleolíticos” seria mais apropriada ao ministro Guedes e parcela expressiva de seu time, umbilicalmente ligados ao atendimento dos desejos das bancas de negócios, incomodadas com o recorrente aparecimento de estatísticas que contrastam com a retórica de ocorrência de restauração da bonança por aqui.

Não somente isso. Os liberais despreparados para a gestão pública, conduzidos pelo ministro, não conseguem sequer disfarçar o constrangimento em reconhecer a natureza correta da utilização de ferramentas estatais pesadas na direção do abrandamento do sofrimento do tecido econômico e social brasileiro, em condições de prosseguimento da endemia e ainda tumultuado processo de vacinação.

Nessa ordem de ideias, em vez de constranger o IBGE, o ministro deveria dedicar redobrada atenção a outra fonte de perturbação, expressa na ampliação da fome no país, conforme cálculos da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), que deveria ser objeto de iniciativas da área Econômica.

De acordo com a entidade, a fração da população brasileira em situação de insegurança alimentar moderada e severa saltou de 18,3%, no triênio 2014-2016, para 23,5%, na média 2017-2020, e deve ter disparado em 2021, por conta da retirada do pagamento do auxílio emergencial, por três meses, e da escalada do desemprego conjuntural e estrutural, da informalidade, da precariedade, da pobreza absoluta e da inflação.

O pior é que aquelas anomalias, ressuscitadas pela combinação entre ausência de providências para a saída da estagnação econômica e o péssimo gerenciamento do desastre sanitário, são persistentes, cumulativas e de difícil reversão.

É deprimente constatar que a sobrevivência de Guedes vem sendo marcada pela contínua diminuição da capacidade de interferência nos rumos do governo Bolsonaro e o conformismo com a condição de tesoureiro privilegiado da campanha à reeleição.

Enquanto isso, a sociedade permanece no aguardo da elaboração, discussão ampla e implantação de um programa de nação que incorpore a busca intransigente do retorno das ações públicas voltadas à diminuição das desigualdades, agravadas com a pandemia.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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