Eleições presidenciais em clima de desaceleração da economia

Gilmar Mendes Lourenço.
Não é difícil entender que o prazo de seis meses até o acontecimento eleitoral consubstancie quase uma eternidade, a ponto de comportar vários arranjos de largada, que podem se deparar com a escuridão em alguns percursos até o momento da chegada triunfal ou desastrada.
Ainda assim, especialistas em ciência política têm se debruçado na realização de estudos, interpretações e, sobretudo, predições acerca do comportamento das variáveis determinantes da dinâmica das eleições presidenciais brasileiras relativas ao ano de 2026.
No cumprimento dessa complexa tarefa, a esmagadora maioria dos analistas, ao cotejar as flutuações atuais com a marcha determinante dos resultados do pleito de 2022, tem enxergado poucas semelhanças no atacado e profundas discrepâncias no varejo.
Resumidamente, em um plano geral, ressoa indiscutível a preponderância alargada do cenário de posturas e propostas diametralmente opostas, esboçadas e explicitadas pela equipe do candidato à reeleição e pelo grupo de amparo à família derrotada no evento verificado a menos de quatro anos.
Não restam dúvidas de que o espetáculo eleitoral de 2022 traduziu a maior disputa de segundo turno desde o embate de 1989, o primeiro depois da redemocratização de 1985 e promulgação da Constituição, em 1988, que sintetizou de maneira clara o antagonismo entre o conteúdo de ataque e defesa das bandeiras levantadas por Jair Bolsonaro e Lula.
De um lado, os envolvidos com o empreendimento de viabilização da vontade de reeleição multiplicavam manifestações de apologia ao “maior governo da história do país”, alertando até para chances concretas de encerramento não convencional da refrega, em caso de malogro, abarcando até o não reconhecimento dos números trazidos pelas urnas eletrônicas e a consumação de um golpe de estado, planejado desde 2019.
Por outra face, a frente de oposições, capitaneada por Lula, cerrava fileiras na difusão da ideia de derrubada das possibilidades de continuidade da administração precária e negacionista no enfrentamento da pandemia e no manejo econômico, absolutamente acéfala de prioridades, e no anúncio dos riscos de ocorrência de ruptura da ordem democrática.
Em uma contenda marcada pela supremacia do duelo de rejeições vis a vis aprovações, eventos dramáticos, ainda que folclóricos, protagonizados por personagens de uma espécie de “trio do barulho”, formado por Roberto Jeferson, Carla Zambelli e Silvinei Vasques (Política Federal), podem ter colaborado para o desenlace em favor dos progressistas.
No final das contas, o sucesso por mínima margem de Lula enfeixou mais o recado da sociedade de desejo de despejo do inquilino do Palácio do Planalto e menos a consistência do programa contratado durante o calendário eleitoral, com forte componente de proteção social – considerada quase que um direito adquirido pelas pessoas, independentemente do mandatário de plantão, que, quando agregados os repasses diretos e os dispêndios com saúde, educação e aposentadorias, respondem por 22,8% do produto interno bruto (PIB) -, e factível com pronunciada expansão fiscal.
Nas circunstâncias atuais, a observação do cotidiano de formulação de narrativas específicas permite inferir o tratamento superficial e o posicionamento vazio ou mesmo inadequado de diferentes assuntos cruciais, com potencial de debilitar as plataformas favoritas à conquista da cadeira de chefe de governo.
Em clima majoritário de não aceitação da dupla que provavelmente se enfrentará no segundo tempo – por conta da repetição da lentidão e indefinição e da luta de vaidades impregnada no centro democrático -, parece razoável supor a preponderância do “eles não” na escolha soberana do eleitor.
Porém, emergem outros aspectos de perturbação ausentes do ciclo político de 2022. O primeiro deles diz respeito aos efeitos da instabilidade geopolítica global – limitada à invasão da Ucrânia pela Rússia e ao ingresso da China na luta pela hegemonia, há quatro anos -, patrocinada pelas atitudes agressivas, típicas da “imprevisibilidade ambulante” associada ao chefe de estado norte-americano, Donald Trump, que escapam do raio de manobra dos dois preferidos da nação, tanto na satisfação quanto no desprezo ou no amor e no ódio.
Vale destacar que as condutas de Trump percorreram alguns estágios de apreciação de humores, começando como sendo impensáveis, passando por trechos como discutíveis, subindo para o degrau de aceitáveis e, finalmente, atingindo o topo da inevitabilidade.
À primeira vista, os desdobramentos econômicos negativos da estratégia protecionista e belicista trumpista devem afetar os projetos de Lula, a despeito do “climão” criado em fins de 2025, diante da intensificação da desaceleração dos níveis de produção e emprego, gestada ainda no ano passado, da alteração para cima do patamar médio dos preços do petróleo e do inevitável repique inflacionário, mesmo com a deterioração do dólar, o que impedirá o desencadeamento de rodadas de diminuições mais expressivas da taxa de juros primária, por parte da autoridade monetária, e, em consequência, do custo do capital para consumo, giro e investimento.
Cumpre advertir que a inflação em doze meses, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), saltou de 3,81% para 4,14%, entre fevereiro e março de 2026, puxada justamente por combustíveis e alimentos.
Em contrapartida, em razão da péssima popularidade de Trump em terras brasileiras, notadamente depois da imposição do tarifaço, completamente destituído de bases técnicas, as renovadas declarações de simpatia e cumplicidade com o governante dos Estados Unidos (EUA), por parte do principal opositor de Lula, em uma conjuntura bastante distinta daquela que prevaleceu em 2018, pode representar um autêntico “tiro no pé”.
A aderência plena à cartilha e iniciativas de Trump – como por exemplo, a oferta irrestrita de minerais críticos e de reservas de terras raras, sem contrapartidas, e as ameaças de interferência contra a operação do pix – uma unanimidade nacional e grande responsável pelos reclames das empresas oligopolistas de cartão de bandeira americana – pode conferir perda expressiva de apoios dos cidadãos.
Os prejuízos se darão no contingente do centro e direita do espectro ideológico, somada a aversão definitiva daqueles declarados independentes ou não alinhados, entediados com a mesmice radical e a ausência de alternativas de renovação, que abrangem 27% do eleitorado, conforme o Datafolha.
Um complicador adicional às duas postulações repousa nos escândalos financeiros de dilapidação do erário, particularmente o do Banco Master, cuja participação amontoa agentes privados e públicos, de vários coturnos, englobando até, a julgar pelas robustas informações veiculadas nas mídias, ilustres figuras do judiciário, o que lhe conferiu o status de terremoto institucional.
Do ponto de vista político, depreende-se maior densidade de usuários e beneficiários do esquema nas hostes do bloco parlamentar chamado Centrão, preponderantemente os proprietários e aliados próximos, o que, em tese, deve prejudicar as pretensões do representante do clã familiar.
Há ainda o esquema de descontos ilegais de aposentados e pensionistas do INSS que, embora tenha começado lá atrás, envolve conexões políticas e ministros do governo que, cientes da rotineira irregularidade, não dispenderam o menor esforço para estancar as fraudes e sangria de recursos.
Ao mesmo tempo, considerando que Lula, de modo compensatório as batalhas perdidas para o empoderado poder legislativo, escorou-se em inúmeras decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), o inevitável avanço da retórica contra a ditadura da toga pode configurar ativo eleitoral para Flávio.
Só que esta vantagem deverá sofrer apreciável desgaste com o regresso, à mesa de confrontos e acusações, das famosas “rachadinhas”, levantadas pelo Ministério Público em 2018, que ocorreram no gabinete do então deputado estadual pelo Rio de Janeiro, executada pelo principal assessor e ex-policial militar, Fabrício Queiroz
Há o agravante incitado pela eclosão ou explosão do legado catastrófico do governador bolsonarista daquela unidade federativa, Cláudio Castro, cassado por corrupção, um dia depois de renunciar ao posto, e portador de laços com o Comando Vermelho.
Igualmente nocivos são as articulações do senador com milícias, constatadas a partir de declaração, feita em 2007, quando qualificou esse tipo de organização como um “novo tipo de policiamento”, ou “um conjunto de policiais, regidos por uma certa hierarquia e disciplina”, para expurgar do seio da comunidade o que há de pior”.
A entrada na corrida do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, pelo Partido Social Democrático (PSD), de Gilberto Kassab, relutante até o derradeiro instante na escolha de retirada da submissão ao bolsonarismo, pode ensejar algumas rearrumações nas intenções de voto nos estados do Sul e do Centro Oeste, poderosos no agronegócio, e na comunidade de evangélicos, o que, por certo, encolherá as declarações preferenciais pelo Zero Um.
Enquanto isso, a multidão que compõem a pequena produção agropecuária familiar e o gigantesco espaço social do Nordeste ainda emite sinais de enorme adesão a Lula, que, mais uma vez, enfrentará obstáculos nada desprezíveis em São Paulo e Minas Gerais, os dois maiores colégios eleitorais do país.
Ressalte-se que a região Nordeste se revela proporcionalmente maior absorvedora dos desembolsos públicos destinados à preservação da renda das famílias vulneráveis, embora as perspectivas de moderado enfraquecimento da aliança petista no Maranhão e Ceará, motivado por desacertos com outras frações de propensão social.
Por fim, pesquisa do Datafolha, realizada entre os dias 7 e 9 de abril de 2026, junto a 2.004 eleitores de 16 anos ou mais, captou acentuada ampliação da diferença negativa entre aprovação e reprovação do governo, incorporando até o segmento de pessoas pobres, e substancial rechace ao lulismo a ponto de colocar outros dois aspirantes, além de Flávio, em empate técnico com o presidente nas assinalações de segundo turno.
No fundo, o êxito da reeleição estará, mais do que em outras vezes, condicionado à sensação popular de melhora imediata da corrente de rendimentos, o que exigirá, fino traquejo no gerenciamento das iniciativas de inclusão social já consolidadas, também conhecidas como “economia do afeto”.
Mas, só isso não bastará. A factibilidade da reeleição subordina-se à rápida eficácia das benesses recém-implantadas, em especial o aumento da faixa de isenção do imposto de renda, o Gás do Povo e o Pé-de-Meia, e outros paliativos ou armas populistas.
O nó górdio compreende um panorama da atividade econômica já não tão promissor, que perfila elevada ocupação da mão de obra, mesmo com intensa informalidade, níveis recordes de inadimplência das famílias e empresas, juros proibitivos e disparada dos preços dos combustíveis.
Investigação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta a existência de 80,4% de consumidores com algum tipo de dívida (cartão de crédito, cheque especial e pré-datado, crédito consignado e pessoal, carnês, financiamento de casa e carro, dentre outros), em março de 2026, contra 77,1%, no mesmo mês de 2025. Aqueles com contas em atraso superior a 60 dias representam 29,6% das famílias, versus 28,6%, em março de 2025, e 12,3% declaram que não ter condições de quitação.
Em linha análoga, cálculos da Serasa Experian mostram crescimento de 29% da inadimplência e de 42% do endividamento das empresas, em 2025, em relação a 2024, chegando ao recorde de 8,9 milhões de companhias desprovidas de geração de caixa para honrar compromissos, que totalizaram R$ 213 bilhões.
Não por acaso, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), prévia do PIB, cresceu apenas 0,4%, no primeiro bimestre de 2026, e 1,9% em doze meses encerrados em fevereiro, o que evidencia, de modo eloquente, a perda de embalo dos níveis de produção e transações.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








