Retrato político a quatro meses das eleições

Gilmar Mendes Lourenço.
As sondagens de opinião lançadas pelos principais institutos de pesquisa, neste final de maio de 2026, emitiram sinais de transformação do panorama de manifestações de intenções de voto dos eleitores para o pleito que ocorrerá em pouco mais de quatro meses.
De um lado, percebe-se a devolução do favoritismo do presidente Lula, postulante à reeleição para cumprimento de um quarto mandato, e, de outro, há o desenho de uma crise de apoio à candidatura de ultradireita, além do encalhe das demais opções.
Essas últimas abarcam parcela dos conservadores tradicionais, abarcando entes da direita bolsonarista empenhados em voo solo, envergonhados, arrependidos ou até amoitados, e frações do centro que transitam por uma espécie de areia movediça, em razão da inadequada exposição de diagnósticos e elaboração de propostas críveis para o enfrentamento e resolução dos incontáveis desafios do país.
O revigoramento das chances de vitória de Lula pode ser imputado à combinação entre o rápido desdobramento das operações obscuras que envolveram a produção e, principalmente, o financiamento de uma peça cinematográfica a respeito da vida política do ex-chefe de estado, e a ampliação da intensidade de derrame, por parte do governo, de recursos públicos destinados à preservação dos níveis de renda das pessoas vulneráveis.
Em paralelo, são poucas as dúvidas quanto ao enfraquecimento do projeto bolsonarista de retorno ao poder – embora o amparo fotográfico acanhado recebido da Casa Branca -, em face do desnudamento das relações não republicanas ou mesmo tóxicas do representante “zero um” da família, o senador Flávio, com o ex-banqueiro e chefe de organização criminosa, Daniel Vorcaro, especialista na caça de haveres de fundos privados e públicos para a multiplicação de falcatruas que se transformaram no maior escândalo financeiro da história da república.
O roteiro patético de Flávio incluiu visita ao “empresário-irmão” em prisão domiciliar e solicitação descarada de amparo financeiro de R$ 134 milhões para a confecção de um filme, fora do Brasil, que descreveria uma “trajetória pessoal triunfal” do papai Jair, a ser usada como propaganda eleitoral, como disfarce de uma biografia carente de talento e seriedade e repleta de incompetência e desrespeito às regras democráticas.
A manutenção da candidatura, com reduzida probabilidade de ocupação por outro membro do clã, como Michele Bolsonaro, por exemplo, baseia-se na aposta, pouco provável, de prosseguir representando o papel de uma espécie de imã, habilitado a capturar a acentuada rejeição popular a Lula 3, ainda superior a 50% das assinalações nos distintos inquéritos.
Mesmo com o temor da vitória de Flávio aproximar-se de 60% das manifestações dos entrevistados, não há qualquer aceno de desistência, por parte do senador, em benefício de alternativas, hospedadas na extrema direita, direita ou centro-direita do espectro ideológico, especialmente se o nome da vez for dotado de princípios democráticos e portador de bandeiras em direção a avanços civilizatórios, algo ausente na cartilha bolsonarista.
É interessante argumentar que, à exceção da defesa retórica intransigente da moral, o núcleo bolsonarista, ou a porção extrema do Movimento Brasil Livre (MBL), surgido nas passeatas de protestos de 2013 e embrião do partido Missão, carece da explicitação de uma agenda consistente e, principalmente, compreensível.
Até porque, o transbordamento do sucesso eleitoral de Bolsonaro, em 2018 – beneficiado pelo desnudamento da corrupção e engolindo as forças de centro, direita e extrema -, em gestão pública, traduziu a absoluta incapacidade de aplicação do receituário liberal – com o confuso, vaidoso e espetaculoso Paulo Guedes – como fez Milei, na Argentina, ou da lógica nacionalista, tocada por Trump e Biden, nos Estados Unidos (EUA).
Enquanto isso, sob a orientação de Lula, o executivo vem perseguindo a redução da insatisfação da população, por meio da promoção do alargamento da densidade eleitoral do pretendente à reeleição, viabilizada com apreciável expansão fiscal, com potencial de erguimento de uma autêntica herança maldita.
Não obstante, o ambiente eleitoral ainda permanece carregado pela exacerbação de alguns elementos de incertezas, dentre os quais destacam-se o destino do contingente antipetista, em caso de derrocada ou não do empreendimento de oposição radical, a dimensão efetiva da polarização e o aparecimento de outras candidaturas.
Seria ocioso sublinhar que o modus operandi bolsonarista priorizou a absorção subserviente das agremiações e dos atores políticos de centro e de direita, e, mais do que isso, sufocou iniciativas voltadas à formulação de proposições de conquista de hegemonia política não vinculadas à ditadura militar e ao predomínio das elites na divisão funcional da renda, marcas da administração política e econômica do intervalo 2019-2022.
No entanto, convém entender que as investigações qualitativas sugerem que a fronteira de preferências do eleitorado fiel a Bolsonaro, ou ao poste por ele escolhido, varia entre o piso de 20% e o teto de 30%, e a dos petistas (ou lulistas) oscila entre 30% e 40%.
Tal configuração representa uma verdadeira barreira à entrada competitiva na contenda política de ensaios de dissidência, destituídos de plataformas diferentes e, sobretudo, convincentes, englobando a provocação de discussões de políticas públicas para o tratamento dos efeitos do fechamento da janela demográfica, a maximização da produtividade, o fortalecimento das instituições e a inserção brasileira na intrincada nova (des)ordem geopolítica internacional.
São os casos de Zema e Caiado, que, para piorar, velada ou abertamente trafegam subordinados às ordens e ao anacronismo dos apóstolos da família do capitão, suficientemente envolvida em inúmeros “deslizes” – resumidos no negacionismo na pandemia e na montagem de um bloco de ilegalidades para perpetuação no poder pela via golpista-, movidos pelo medo do substancial custo de encolhimento ou sepultamento político.
Sem qualquer incursão na direção da autonomia, Zema desferiu comentários ofensivos contra Flávio e, quase que prontamente, se arrependeu e, de modo apático, se desculpou e, novamente, agrediu. Já Caiado teceu observações críticas tão polidas que poderiam ser confundidas com elogios de um servo que deveria permanecer calado.
Afinal de contas, afigura-se demasiado tarde para a definição de marchas arriscadas e divorciadas das determinações, ou, na mais benevolente das hipóteses, orientações, do mito, pois o inimigo comum a ser combatido e derrubado é um só: o exército de Lula 4.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








