Empresas crescem, mas a gestão continua pequena

Falhas em liderança, sucessão e cultura organizacional estão entre os principais entraves para sustentar a expansão dos negócios no Brasil
Em um cenário marcado pela aceleração tecnológica, novas dinâmicas de trabalho e aumento da competitividade, empresas brasileiras que vivem ciclos de expansão enfrentam um desafio que vai além do crescimento de receita. Diagnóstico realizado pela Miraê Consultoria identificou que organizações em fase de crescimento acelerado têm encontrado dificuldades para sustentar sua evolução devido a fragilidades internas relacionadas à liderança, gestão, sucessão e cultura organizacional. O levantamento mostra que, mesmo diante de oportunidades de mercado e expansão das operações, gargalos estruturais podem comprometer a produtividade, a retenção de talentos e a geração de valor no longo prazo.
De acordo com Carine Leal Fraga, fundadora e CEO da Miraê Consultoria, economista, mestre em Planejamento Estratégico e especialista em cultura organizacional, liderança, governança e estratégia de pessoas, o problema costuma surgir quando o crescimento do negócio acontece em velocidade superior à capacidade de adaptação da gestão.
“Muitas empresas acreditam que seus desafios estão relacionados às pessoas, quando, na realidade, a origem dos problemas está na falta de clareza de papéis, alinhamento estratégico, processos de decisão e desenvolvimento de lideranças. À medida que a empresa cresce, torna-se indispensável fortalecer a estrutura organizacional para que o crescimento seja sustentável e não gere fragilidades internas”, afirma Carine.
Desafios
Os desafios identificados pela consultoria refletem uma realidade observada em diferentes pesquisas globais e nacionais. Segundo a McKinsey, cerca de 70% das transformações organizacionais não alcançam os resultados esperados ou não conseguem sustentar os ganhos obtidos ao longo do tempo. Já a 28ª Global CEO Survey, da PwC, mostrou que apenas 14% dos CEOs acreditam possuir lideranças suficientes para executar suas estratégias de crescimento. O tema ganha ainda mais relevância no Brasil, onde as empresas familiares representam aproximadamente 65% do Produto Interno Bruto (PIB) e respondem por cerca de 75% dos empregos formais, de acordo com dados do IBGE e do Sebrae. Apesar da relevância econômica, apenas cerca de 30% dessas organizações chegam à segunda geração e menos de 15% alcançam a terceira, evidenciando os desafios relacionados à sucessão e à continuidade dos negócios.
O diagnóstico da Miraêtambém aponta que a centralização excessiva das decisões, a ausência de planejamento sucessório e a falta de desenvolvimento estruturado de lideranças estão entre os fatores que mais dificultam a consolidação do crescimento empresarial. Essas fragilidades tendem a se intensificar conforme as operações se expandem, aumentando a complexidade da gestão e exigindo novos modelos de governança e tomada de decisão.
Para Carine, o crescimento sustentável depende de um trabalho consistente de fortalecimento organizacional.
“Quanto maior a empresa se torna, maior é a necessidade de investir em cultura, governança, liderança e processos. O crescimento não elimina problemas estruturais; ele os amplia. Organizações que conseguem alinhar estratégia, pessoas e gestão criam condições mais sólidas para atravessar mudanças de mercado, preservar conhecimento e construir valor de forma duradoura”, destaca.
Em um contexto de transformação acelerada dos modelos de negócio, impulsionada pelo avanço da tecnologia e pelas mudanças nas expectativas dos profissionais, a capacidade de estruturar lideranças, fortalecer a cultura organizacional e preparar a sucessão deixa de ser uma pauta de recursos humanos para se tornar uma questão estratégica. Para empresas que desejam transformar crescimento em longevidade, investir na evolução da gestão é tão importante quanto conquistar novos mercados.








