Ambiente econômico mundial: estagnação e inflação outra vez?
O alvoroço na comercialização de ativos de risco, neste começo de outubro 2021, é consequência direta da crescente preocupação dos agentes econômicos com a ampliação das chances de a economia global mergulhar em um processo conhecido como estagflação.
Tal anomalia, definida como a perversa combinação entre declínio ou estagnação dos níveis de atividade e subida persistente dos patamares gerais dos preços, foi projetada pelas duas entidades multilaterais de crédito, FMI e Banco Mundial, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e alguns especialistas internacionais.
O motivo da apreensão generalizada do ambiente dominado por experts repousa na captura de sinais de reversão da retomada das principais economias do planeta – atrelada à retaguarda anticíclica acionada por governos e bancos centrais e à amplitude e timing do processo de vacinação da população contra a Covid-19 – em paralelo à aceleração da espiral inflacionária na esmagadora maioria dos mercados.
De fato, a trajetória de expansão do produto interno bruto (PIB), observada desde julho de 2020, acusou perda de fôlego, no 2º trimestre de 2021, evidenciada por desempenhos discretos nos Estados Unidos (1,6%), Alemanha (1,6%), China (1,3%), França (0,9%) e Japão (0,3%). Enquanto isso, a inflação superou a marca de 5% ao ano, nos EUA, e chegou a 3,4% a.a., na Zona do Euro, 4,1% a.a., na Alemanha, e 3,2% a.a., no Reino Unido.
Especificamente na China, ressalta o correto, embora atrasado, direcionamento das atenções governamentais para questões ligadas ao meio ambiente, materializado na imposição de limitações nas emissões industriais de CO2, o que deve comprometer o funcionamento de linhas de produção dos ramos de siderurgia, minerais não metálicos e da química; além das intervenções nos mercados de tecnologia da informação, criptomoedas e construção civil.
A respeito desse último ponto, a eclosão das enormes dificuldades financeiras da corporação Evergrande, que não constitui caso isolado, por sinal, contabilizando passivo de curto prazo que suplanta os US$ 300 bilhões, pode vir a engendrar o estouro da bolha imobiliária do gigante asiático, e, por extensão, uma crise bancária, na ausência de pronunciada interferência das autoridades governamentais chinesas.
No entanto, os espaços internacionais líderes ostentaram performances econômicas relevantes no 1º semestre, marcados por acréscimos do PIB da China (13,1%), França (10,0%), Japão (7,5%), EUA (6,3%) e Alemanha (3,2%). Já as tensões inflacionárias permaneceram bastante reduzidas na França (2,1% a.a.) e China (0,8% a.a.), e negativas no Japão (-0,4% a.a.).
O exame preliminar desses indicadores sugere o descarte do diagnóstico clássico de ocorrência de estagflação. Isso porque, além de não ser perceptível o retorno do embaraço recessivo, o evento de disseminação automática e abrangente da inflação ainda não está suficientemente presente. Sem contar o razoável arsenal de instrumentos ortodoxos de combate ao flagelo, disponível nas mesas de avaliações de conjuntura de governos e bancos centrais.
A rigor, o curso de ascensão da inflação em escala planetária, constatado desde o 2º semestre de 2020, pode ser imputado a quatro ordens de fatores:
- as pressões de demanda decorrentes dos vultosos pacotes de socorro oficiais, disponibilizados pelos departamentos de tesouro e autoridades monetárias dos países centrais;
- o choque de preços de energia, preponderantemente o gás natural, com a menor queima de carvão nas usinas térmicas, em atendimento as exigências ambientais, inclusive na China, além dos distúrbios climáticos;
- a impulsão das cotações das commodities, puxada pela firme demanda incremental da China, desde abril de 2020, com o rápido bloqueio do alastramento da endemia no país; e
- as enormes dificuldades de restabelecimento da operação plena da infraestrutura de logística das cadeias globais de suprimento, abalada com a propagação do surto de Sars-Cov-2 e as disformes interrupções de atividades dela decorrentes, marcadas por quarentenas e lockdowns, o que vem ocasionando graves situações de gargalos de abastecimento de insumos, peças, partes e componentes.
Apenas a título de referência a respeito das condutas de apoio, praticadas pelos vários bancos centrais, a taxa nominal de juros para bônus de curto prazo encontra-se em entre 0% e 0,25% ao ano, nos EUA, 0% a.a., na Zona do Euro, e -0,1% a.a., no Japão, configurando custo negativo do dinheiro para operações de financiamentos.
A propósito das cotações das commodities, segundo cálculos do Banco Central (BC) e do Commodity Research Bureau, houve elevação agregada de 40,2%, em doze meses, sendo 35% para alimentos (carne de boi, algodão, óleo de soja, trigo, açúcar, milho, café, arroz, carne de porco, suco de laranja e cacau), 36,4% para metais (alumínio, minério de ferro, cobre, estanho, zinco, chumbo, níquel, ouro e prata) e 62% para energia (petróleo brent, gás natural e carvão).
No fundo, a disfunção mais saliente do aparelho econômico global pode ser expressa no revigoramento da produção e negócios de forma heterogênea, fortemente concentrada nas economias avançadas, dotadas, de um lado, de maior capacidade de despejo de recursos monetários e fiscais, para amenização dos prejuízos na renda e emprego, e, de outro, de percepção estratégica no estímulo a ciência e no planejamento e efetivação de ações voltadas à aquisição de volume expressivo de imunizantes, e respectiva aplicação em massa nas pessoas.
Tais procedimentos de amparo social foram incomparavelmente inferiores nas nações emergentes e, principalmente, pobres, em razão, notadamente, de apreciáveis restrições orçamentárias, aprofundadas pela queda de arrecadação provocada por várias decisões de interrupção das atividades produtivas, na tentativa de contenção da escalada do vírus e retardamento do colapso dos sistemas de saúde.
Igualmente nocivas foram as escolhas voluntárias de alguns governantes, empenhados em minimizar a dimensão do desastre sanitário, desmerecer as iniciativas científicas, negligenciar os protocolos recomendados pela saúde, defender soluções mágicas desprovidas de eficácia e ignorar esforços de descoberta e boicotar a aquisição de vacinas.
Como se vê, o caráter incompleto da superação da depressão associada à pandemia e as chances de manejo do empuxe da inflação, mediante o uso de ingredientes propulsores da oferta agregada, desabonariam o emprego de remédios ortodoxos, como a abrupta retirada do suporte fiscal e financeiro às famílias e empresas, para o tratamento de distorções temporárias associadas mais a majoração de custos e menos a focos de demanda.
Mais do que isso, a prescrição de aperto fiscal e monetário para frear o galope dos reajustes de preços, em circunstâncias de ociosidade dos fatores de produção bastante superior ao patamar pré-pandemia, pode, por meio da precipitação da recessão e impulsão do desemprego, agravar as mazelas sociais que se deseja enfrentar e debelar. Até porque, a mistura indigesta entre inflação e desocupação da mão de obra só serve para intensificar a miséria, a insegurança alimentar e a fome.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








