Eleição presidencial 2022: polarização e terceira via
O exercício de montagem de cenários para as eleições presidenciais brasileiras de 2022, realizado pelos meios especializados a partir das sondagens de opinião dos principais institutos de pesquisa, vem insistindo no resultado de polarização entre esquerda e direita, protagonizada pelo embate entre o ex-chefe de estado, Luiz Inácio Lula da Silva, e o atual mandatário da nação, Jair Bolsonaro, que ocupam, respectivamente, o 1º e o 2º lugar nos inquéritos de aferição das intenções de voto da população.
A rigor, do ponto de vista essencialmente técnico ou por uma apreciação analítica mais abrangente, a ciência política não conferiria chancela a pressuposição de reprodução de uma situação de ferrenha disputa entre os extremos do espectro ideológico.
Isso porque, a despeito de ser originário de movimentos populares, em especial do sindicalismo hospedado no eixo dinâmico da economia nacional, formado pela moderna indústria de bens de consumo duráveis e de capital, atraída pelo Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956-1961), Lula jamais integrou as bases da esquerda.
Na melhor das hipóteses, o ex-chefe de governo figuraria no elenco de centro-esquerda, que surfou, entre 2003 e 2010, a onda de maturação das mudanças institucionais promovidas na década de 1990, incluindo a desinflação trazida pelo Plano Real, do bônus das commodities, com a emergência chinesa, e das iniciativas públicas de transferência direta de renda, plantadas na Constituição de 1988 e ativadas por ocasião do governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC).
Dentre os mecanismos de proteção social, herdados por Lula das gestões antecedentes, sobressai a estratégia de valorização do salário mínimo e o programa Bolsa Família, que sofreu alargamento de abrangência e intensidade em seus dois mandatos como presidente da república.
Parece fácil notar que Lula afagou a parcela carente da população com ações assistencialistas, que, maximizadas pelo estágio de subida do patamar de crescimento econômico, acoplado ao declínio estrutural da inflação, ensejaram mobilidade social sem precedentes na história do país.
Porém, o ex-presidente também incorporou ao arranjo de poder expressivas frações das elites corporativas, que foram fartamente beneficiadas com o direcionamento ampliado de incentivos fiscais e financeiros subsidiados, bancados diretamente com emissão de dívida pública.
Ademais, Lula protagonizou dois atos de um espetáculo grotesco de malversação de haveres públicos no país. O primeiro deles, identificado em 2005, conhecido como Mensalão, compreendeu a compra de apoio parlamentar à aprovação de projetos de interesse da aliança hegemônica, por meio da manipulação da peça orçamentária.
Já, o segundo momento, investigado e levantado no âmbito da operação Lava-Jato, no princípio da década de 2010, denominado de Petrolão, consistiu na privatização às avessas, ou aparelhamento partidário, da gestão e do fluxo de caixa das companhias estatais, com participação privilegiada de grandes empreiteiras e membros do executivo e legislativo.
Não por acidente, o filme “Lula, o filho do Brasil”, drama biográfico lançado em 2009, ainda no governo do ex-presidente, orçado em R$ 15 milhões, contou o patrocínio de 18 grupos privados, com destaque para Camargo Corrêa, Odebrecht e OAS, enroscadas nas investigações da Lava-Jato.
Ressalte-se que esse modus operandi, decifrado nos anos subsequentes à saída de Lula do Palácio do Planalto, derrubou os frágeis pilares da gestão de Dilma Rousseff, sintetizados em um paradigma econômico que privilegiava a multiplicação do consumo público e privado, em detrimento do investimento, partindo da premissa pouco racional de ausência de limites à elevação do dispêndio e dívida governamental.
Decerto que a devolução da liberdade e direitos políticos e anulação das condenações de Lula, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), contribuíram decisivamente para a construção de seu favoritismo na corrida eleitoral do ano vindouro, o que é denotado pelas coletas qualitativas recentes.
Contudo, afigura-se razoável admitir que a confirmação dessas condições privilegiadas esteja condicionada à capacidade da sociedade interpretar e absorver a natureza de injustiçado do ex-presidente e ignorar o pacto preferencial com “ricos e pobres” e os gigantescos esquemas de corrupção, selados em seus dois períodos de gestão.
De seu turno, ao longo de quase três décadas de atuação parlamentar, o atual inquilino do Palácio do Planalto nunca se esforçou sequer para disfarçar suas características ultraconservadoras, expressas em incontáveis inclinações em favor de bandeiras defendidas por representantes da direita radical, preponderantemente o corporativismo fardado, a ampliação do belicismo privado, a aplicação de parâmetros de retrocesso nas pautas educacionais e ambientais e os frequentes ataques ao equilíbrio institucional.
Não surpreende o retumbante fracasso da administração Bolsonaro em praticamente todas as áreas de atuação – com ênfase para o envolvimento desastroso no combate à pandemia de Covid-19, o desmoronamento da doutrina liberal na orientação econômica, desembocando em disparada da inflação, da informalidade e da miséria, o desvirtuamento do cerne das políticas educacionais e o descaso com o meio ambiente – atestado pela autêntica desidratação do apoio popular.
Nessas circunstâncias, o volume de apostas de não passagem do atual ocupante da cadeira presidencial para o 2º turno da corrida eleitoral, em 2002, pode disparar, o que quebraria a tradição de sucesso na reeleição, mantida pelos postulantes ao cargo desde 1998.
Não bastasse isso, simulações preparadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontam que a retomada completa dos patamares de atividade econômica pré-pandemia no Brasil não deverá acontecer antes do final de 2025, o que colocará o país na lanterna do G20, que, em média, deverá restaurar os níveis anteriores ao surto em fins de 2022, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Nunca é demais recordar que, por muito menos – malogro da nova matriz econômica, cometimento de dois crimes de responsabilidade e negação de apoio ao então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, na Comissão de Constituição e Justiça, da Casa – a ex-presidente Dilma amargou a instauração de um processo de impeachment, em 2016, que culminou com cassação do mandato.
Por tudo isso, não seria recomendável a desistência da sociedade brasileira da tentativa de enxergar e viabilizar o percurso de um caminho de escape da encruzilhada imposta por Lula e Bolsonaro. Trata-se do esforço de erguimento da propalada terceira via, voltado à eliminação das oportunidades de regresso do populismo redistributivista e repetição, em dose ampliada, de incursões totalitárias.
Para tanto, será crucial a convergência das forças de centro na organização de uma plataforma de desenvolvimento que combine modernização econômica e inclusão social, bancada por criteriosa reorganização dos gastos públicos e aperfeiçoamento dos programas assistenciais, imprescindível à arregimentação de Bolsonaristas e Lulistas arrependidos, envergonhados e/ou portadores do sentimento de abandono.
Ainda resta algum tempo. Até porque, a depender do movimento pendular da dinâmica política e eleitoral, o humor dos agentes pode sofrer abruptas alterações a ponto de um ano poder representar um século.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








