Guedes: Miopia dos “olhos de águia”
A metáfora “olhos de águia” costuma ser atribuída a pessoas portadoras de excelente acuidade visual. Nas organizações, o termo é utilizado na identificação de agentes dotados de capacidade de plena compreensão da dinâmica das variáveis determinantes do ambiente interno e externo, imprescindíveis a atitudes antecipatórias, essenciais para a minimização ou neutralização das ameaças e potencialização dos pontos fortes.
Especificamente no campo da Economia, a expressão é imputada aos profissionais habilitados ao qualificado trabalho de estruturação das atividades subjacentes ao planejamento, que extrapolem os estritos limites do curto prazo e forneçam referências futuras para as escolhas estratégicas feitas no presente.
Depois da passagem de Guido Mantega pelo comando do Ministério da Fazenda, nos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), entre março de 2006 e novembro de 2014, sob os mandatos dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, parecia pouco provável o surgimento de um titular da Economia dotado de talento e desenvoltura para a realização de incontáveis manifestações inconvenientes, estapafúrdias e equivocadas.
No entanto, os desígnios do curso da política reservaram ao time de Paulo Guedes, absolutamente inexperiente em administração pública, as complicadas tarefas de diagnóstico das oportunidades e mazelas econômicas e sociais do país e identificação, programação e execução de providências dirigidas à mitigação, ou até eliminação, dos problemas e reforço das potencialidades.
Apesar do indiscutível desastre, a experiência amadorista não suprimiu a empáfia do Ministro que, em incursão deselegante, ao rebater crítica pertinente à política econômica oficial, proferida pelo ex-presidente do BC (1983-1985), Affonso Celso Pastore, conselheiro do pré-candidato à presidência, o ex-juiz Sérgio Moro, recomendou ao atuante Economista, ex-aluno e ex-colega de trabalho de Delfim Neto, que fosse “curtir a velhice”.
Basta “abrir a janela e olhar para fora” para perceber o retumbante descumprimento de promessas feitas em 2018, sobretudo quanto à “faxina da sujeira ética, moral e fiscal”, herdada das administrações predecessoras. Os diminutos aprimoramentos identificados, especificamente na área da previdência e concessões de serviços públicos, representam obras projetadas no curto mandato do presidente Michel Temer.
Decorridos praticamente três anos de desgoverno Bolsonaro, em recente evento, promovido pelo ministério, reservado à paradoxal abordagem do tema “governança”, Guedes defendeu uma espécie de requentada do conjunto de promessas do calendário eleitoral de 2018, esquecido ou ignorado a partir do começo de 2019.
Naquele encontro, o ministro resolveu esboçar a reprise das intenções levantadas na época de campanha e transição de governo, em 2018, com ênfase para privatização de estatais (que renderia R$ 1 trilhão aos cofres oficiais), venda de parcela relevante do patrimônio público (R$ 1 trilhão) e cobrança de recebíveis da União (R$ 2 trilhões).
De acordo com as declarações de Guedes, desta feita, os recursos arregimentados serão empregados no enfrentamento da miséria nacional. Para sublinhar o nobre desejo, o ministro lançou a frase: “vende alguns ativos aqui e enche o tanque do fundo ali”, ao se referir à criação de um ente financeiro capaz de abrigar as entradas de recursos, não submetido à camisa de força configurada no “famigerado” teto de gastos.
Com a inevitável exploração eleitoral do assunto, em 2022, e a desidratação do apoio popular ao chefe de estado, notadamente nas regiões mais pobres, o ministro buscou maquiar proposições velhas, no afã de, ao mesmo tempo, afagar os menos favorecidos, encobrir sucessivas e fragorosas derrotas e fornecer munição aos fanáticos devotos digitais de Bolsonaro.
Outro complicador compreende a reduzida generosidade da safra de estatísticas econômicas, ao exibir indicadores que tem funcionado como verdadeiras ondas a derrubar o “castelo de areia”, fincado em pilares frágeis de uma narrativa triunfalista do ministro, apoiada em dados “chapa-branca” do mercado de trabalho formal, destinada a enganar analistas precipitados.
Em um período sazonalmente favorável ao desempenho da indústria, especificamente no final do 3º e começo do 4º trimestre do ano, caraterizado pelo funcionamento voltado ao atendimento dos pedidos do comércio para a realização das vendas associadas ao movimento proporcionado pelas festas de fim de ano, o setor vem amargando resultados negativos.
Mais precisamente, a produção industrial brasileira registrou queda de -0,6%, em outubro de 2021, em relação a setembro, sendo a 5ª diminuição seguida nesta base de cotejo, com contração acumulada de -3,7%, conforme pesquisa do IBGE. No confronto com o mesmo mês de 2020, o declínio foi de -7,8%, em outubro, o 3º consecutivo.
Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), indicam recuo de -1,3% da produtividade do trabalho fabril, no 3º trimestre de 2021, mantendo a tendência cadente iniciada em igual intervalo de 2020, e, o que é pior, retornando aos níveis observados entre abril e junho do ano anterior, marcado pelo pior momento derivado das quarentenas e paralisações impostas pela pandemia de Covid-19.
Do ponto de vista operacional, a performance ruim das unidades de manufatura reflete a insuficiência de insumos e componentes, ocasionada pelo prosseguimento do desarranjo das principais cadeias produtivas globais, fortemente comprometidas durante a fase mais aguda do avanço do Sars-CoV-2.
Há também a pronunciada interferência de fatores de mercado, expressa na desaceleração da demanda mundial, por conta da heterogeneidade geográfica da distribuição de vacinas, penalizando as nações mais pobres, e o retorno das contaminações nos países mais afetados pela rejeição aos imunizantes por parcela da população, o que tem determinado a decretação de novas limitações sanitárias, incluindo confinamentos.
Ressaltam ainda as restrições objetivas do ambiente doméstico, sintetizadas em elevados níveis de desemprego, subocupação, informalidade, juros, inadimplência e endividamento das famílias e acentuada corrosão dos rendimentos, ligada a disparada da inflação.
Na mesma linha, o volume de vendas do comércio varejista ampliado, mensurado pelo IBGE, encolheu pelo 3º mês seguido, em outubro de 2021, acumulando contração de -1,7%, na média móvel trimestral, em razão da nefasta concatenação entre aceleração da inflação e subida dos juros.
Porém, emerge um constrangimento adicional, acoplado ao cenário de multiplicação das incertezas, produzido por várias apresentações do espetáculo de exacerbação das perturbações políticas e institucionais, protagonizado pelo chefe do executivo, que resultam na interpretação de maximização do risco fiscal pelos mercados e volatilidade nas aplicações de risco, particularmente com a valorização do dólar e depreciação dos papéis do ambiente acionário.
Tanto que o Ibovespa, principal indicador da B3, amargou redução de -14,4%, entre janeiro e novembro de 2021, situando-se em penúltimo lugar em um ranking de 78 países, organizado pela agência de classificação de risco Austin Rating, à frente apenas da Venezuela, que experimentou retração de -99,5%.
Por tudo isso, não soa descabida a sugestão de o ministro esforçar-se no aprendizado do exercício das funções de “olhos de águia”, típicas de Economistas de adequada formação e índole, e na descoberta e entendimento do complexo cotidiano das forças sociais além dos limites de cercadinhos preparados e ocupados frequentemente pelo mandatário da nação.
A não ser que a intenção de Guedes seja consumir a grosseira sugestão endereçada ao eminente membro da equipe econômica do ministro Antônio Delfim Netto, no começo dos anos 1980. O que, por sinal, não seria uma má ideia. Se não necessariamente por idade por flagrante déficit de caráter e talento, que constitui regra em praticamente todas as áreas do executivo federal, com as honrosas exceções conferidas ao BC, Receita Federal, IBGE e IPEA.
Afinal de contas, como cantarolava em passado recente um general e poeta, atualmente integrante do 1º escalão da administração Bolsonaro: “e se gritar pega centrão…”.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








