Indústria do Paraná enfrenta grandes desafios e aposta na inovação

Indústria do Paraná enfrenta grandes desafios e aposta na inovação

Depois de cair no primeiro ano da pandemia, produção industrial paranaense reage e cresce dois dígitos em 2021

O ano de 2019, que antecedeu a pandemia do novo coronavírus, foi um período difícil para vários setores da economia. Ainda assim, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 1,2%, mas insuficiente para zerar as perdas de anos anteriores. No caso do Paraná, o PIB teve variação positiva de apenas 0,9%.

Veio então 2020. Era grande a expectativa dos empresários de que, finalmente, a economia iria reagir com vigor e seus negócios iriam decolar  Só que jamais poderiam imaginar que não só as empresas de todos os setores, como do mundo todo, iriam enfrentar uma crise sem precedentes, desencadeada pela pandemia do novo coronavírus, e uma situação até então jamais vivenciada, como o lockdown, o primeiro decretado em março daquele ano. Outro lockdown veio também em 2021.

Planejamentos estratégicos de longo prazo foram parar nas gavetas. Grandes e médias indústrias tiveram que rever a produção. As indústrias que produziam álcool em gel. lgun tipos de medicamentos e máscaras passaram por momentos inusitados.

No caso da indústria paranaense, os dois anos de pandemia da Covid-19 têm sido de muitos desafios, adaptação e trabalho para sobreviver e buscar o equilíbrio das contas.

Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Carlos Valter Martins Pedro, “o Paraná tem uma indústria forte e diversificada, com polos importantes de diferentes setores espalhados por todo o Estado”.

São ao todo mais de 68 mil indústrias, que movimentam por ano quase R$ 95 bilhões e respondem por 24,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Paraná. O Estado tem hoje o quarto maior parque industrial do Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Pandemia derruba indústria em 2020

Desempenho da indústria de alimentos diminui perdas da produção industrial em 2020. Foto/divulgação

Em 2019, a produção industrial paranaense cresceu 5,7% e segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) teve o melhor desempenho do País.

Só que em março de 2020, com a declaração da pandemia da Covid-19, as atividades em geral pararam. Além das incertezas do que ainda estava por vir, os números negativos apavoravam. A produção da indústria automotiva do Paraná caiu 98% no primeiro mês da pandemia.

No entanto, com o passar dos meses, alguns setores da indústria começam a reagir. “Com uma indústria bastante diversificada, os indicadores foram amenizados. A indústria de alimentos do Paraná foi um grande exemplo de superação e encerrou 2020 com um crescimento de 9,3%”, informa o coordenador da área econômica e de crédito da Fiep, o economista Marcelo Alves.

O resultado positivo da indústria de alimentação contribuiu para amenizar os números gerais da produção industrial do Paraná, que fechou o primeiro ano da pandemia com queda de 2,6%, ante uma redução de 4,5% da média nacional.

Reação no segundo ano

Paraná teve em 2021 o quarto melhor resultado do Brasil na produção industrial.

Com inovação, diversificação e empenho, a indústria paranaense volta a operar positivamente em 2021, segundo ano da pandemia.

Aliás, a indústria paranaense está entre as que mais cresceram no País no período de retomada econômica da vacinação contra a Covid-19, com avanço de 10% entre janeiro e novembro do ano passado, na comparação com o mesmo período de 2020. O Estado ocupa a quarta posição entre as 15 localidades avaliadas pela Pesquisa Industrial Mensal do IBGE. A média nacional de crescimento no período foi de 4,7%, com resultados positivos em nove locais.

No acumulado de 12 meses, entre dezembro de 2020 e novembro de 2021, o Paraná tem também o quarto melhor resultado do Brasil na produção industrial, com avanço de 10,6% ante os 12 meses anteriores. Estão à frente do Paraná, os estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

De acordo com avaliação de Marcelo Alves, os números fechados da produção industrial referentes a 2021 só serão divulgados pelo IBGE na próxima semana, mas ao que tudo indica, o crescimento do Paraná ficará na casa de dois dígitos, muito acima na média nacional de 3,9%.

Ao contrário de 2020, a reação da produção industrial do Paraná, em 2021, não foi puxada pela indústria de alimentos, mas sim pela fabricação de máquinas e equipamentos, que avançou 54,6% ante os 11 primeiros meses do ano anterior. Boa recuperação também foi verificada na indústria automotiva, que cresceu 30,4% e na fabricação de produtos de madeira, que subiu 26%.

“A queda de 5,5% da indústria de alimentos ocorreu pelo aumento de preço de vários produtos, principalmente das carnes, que também contribuíram para a elevação da inflação”, explica o economista da Fiep.

Indústria aumenta contratações

No primeiro ano da pandemia, indústra foi o setor que mais criou empregos no Paraná, Foto/Gilson Abreu/AEN

Os números positivos da produção industrial em 2021 se refletiram nas contratações. No ano passado, o saldo de novos postos de trabalho na indústria paranaense foi de 44.183.

Em todas as atividades econômicas foram criados 172 mil novos empregos em todo o Paraná, sendo que só a indústria respondeu por 26% deste total.

Vale lembrar que em 2020, a indústria foi o segmento que mais criou empregos formais no Paraná, com 24.799 novos postos de trabalho, respondendo por quase metade das vagas geradas no Estado no ano.

“Mesmo em meio a uma das piores crises vividas pelo país nos últimos tempos e sofrendo com os altos custos de produção no país, a indústria vem dando uma resposta extremamente positiva”, afirma o presidente da Fiep. “Isso mostra que o setor precisa ser mais valorizado, com uma política industrial que dê mais competitividade aos nossos produtos e possibilite novos investimentos, que contribuirão para a geração de ainda mais empregos e renda”, completa.

Inovação é o caminho para crescer

Para 2022, mais de 68% dos industriais do Paraná se mostram otimistas e pretendem investir, apesar dos desafios e das limitações impostas pela pandemia e do cenário macroeconômico brasileiro.

O resultado positivo apontado pela 26ª Sondagem Industrial realizada com empresários da indústria paranaense pela Fiep está ancorado principalmente na perspectiva de crescimento das vendas (67,8%), na abertura de novos mercados (39,0%) e na previsão de investimentos (33,6%).

Na avaliação do coordenador da área econômica da Fiep, Marcelo Alves, os investimentos têm ligação com as estratégias das indústrias para este ano. O economista informa que mais de 30% dos industriais do Paraná devem apostar em desenvolvimento de novos negócios, no aumento da capacidade produtiva/nova unidade industrial e na incorporação de novos produtos à linha.

Por sua vez, 20% das indústrias do Estado pretendem dar prioridade ao aumento do valor agregado dos produtos, segmentar os canais de vendas e investir em desenvolvimento e inovação.

“Os empresários estão se preparando para ampliar seus mercados e se tornarem mais competitivos. Isso está em sinergia com as expectativas positivas das indústrias em relação a 2022”, afirma Marcelo Alves.

O economista chama a atenção para o fato de que a pandemia colocou em destaque a importância da inovação no sentido das empresas criarem novos produtos, melhorarem o processo de produção e ganharem novos mercados.

“Os custos aumentarem significativamente nestes dois anos de pandemia e muitas empresas não conseguiram repassar. A alternativa foi buscar na inovação a solução para se manter no mercado”, destaca Alves.

Confira como o Sistema Fiep auxilia as indústrias a inovar

Visando atender a constante transformação dos setores produtivos do Paraná, o Sistema Fiep, por meio da Fiep, Sesi, Senai e IEL, desenvolve a inovação e tecnologia.

O Sistema Fiep entende que inovar não está apenas no avanço tecnológico ou na evolução da ciência. Está em visualizar nos processos ou ideias o momento adequado para o desenvolvimento.

Assim sendo, o Sistema Fiep viabiliza o acesso à tecnologia como forma de promover o desenvolvimento tecnológico das empresas, apoiando seu crescimento e a inovação de produtos e processos. Além disso, promove, difunde e facilita o acesso a linhas de apoio à inovação e à atividade das indústrias paranaenses, operacionalizando programas e projetos, e agindo como articulador institucional junto a agentes locais.

Bússola mede grau de inovação nas indústrias

Com foco no desenvolvimento das indústrias do Paraná, o Sistema Fiep dispõe da Bússola da Inovação, que visa fortalecer o ambiente de negócios através da disseminação de práticas inovadoras. Para isso, gestores respondem a um questionário que define o perfil inovador da organização. Com este raio x em mãos, a equipe do Observatório avalia o nível de esforços investidos pela empresa e orienta como alcançar melhores resultados.

O objetivo é que as empresas possam, a partir do diagnóstico detalhado oferecido gratuitamente pela Bússola, transformar processos, ganhar eficiência e aumentar sua competitividade no curto prazo. Indústrias de todos os portes e regiões do Estado podem participar.

O projeto é atualizado a cada dois anos e desde 2012, quando foi lançado, já beneficiou três mil empresas do Paraná. Mais de 20 mil participaram do estudo e 30 mil pessoas estiveram envolvidas nos processos de avaliação.

O pesquisador do Observatório Sistema Fiep, Augusto Machado, explica que as empresas têm acesso gratuito a informações sobre tecnologia, investimentos, equipamentos e métodos ágeis. “O diferencial é o compromisso de cada gestor em atuar como agente de transformação nesse processo dentro das organizações”, destaca.

Outro ponto importante é não só receber o diagnóstico, mas sair da zona de conforto e fazer uma autoavaliação”, reforça Machado.

Por que é importante inovar?

Augusto Machado: não é preciso muito dinheiro para inovar.

O acesso à inovação é democrático, não se restringe a grandes empresas e nem a um determinado segmento. Todos podem e devem inovar, segundo o pesquisador do Observatório, Augusto Machado.

”A inovação se torna essencial na medida em que traz bons resultados. Não necessariamente é preciso ter muito dinheiro para começar um processo de inovação. Temos casos concretos de que otimiza recursos, reduz custos e gera aumento de receita”, afirma Augusto Machado.

Ele acrescenta que a inovação auxilia no desenvolvimento de produtos de alto valor agregado, contribui para a atualização do uso de tecnologias, capacita pessoas e promove avanços em pesquisas”, destaca.

“A Bússola aponta ainda que melhora a produtividade, permite que a empresa possa atender com mais eficiência às expectativas dos clientes e até ampliar a carteira e, num mundo cada vez mais globalizado e competitivo, isso faz toda a diferença”, diz.

Conheça os cinco passos para a inovação

1. Capacitação

Os caminhos para quem quer começar a inovar, passam pela capacitação de pessoas. Tudo para que sejam agentes transformadores dentro da organização e façam a conexão entre a inovação internamente e fora da empresa.

2. Avaliação

O segundo passo é avaliar processos e otimizá-los a fim de reduzir custos.

3. Uso de Tecnologia

Depois vem a busca e o uso de tecnologia aplicada ao negócio. Como aproveitar melhor as já existentes ou investir em novos que tragam retorno no curto prazo.

4. Recursos financeiros

Os recursos financeiros também são importantes, mas não é o ponto principal do processo de inovação. “É possível fazer mais com menos”, garante Augusto Machado. Planejar, organizar o caixa e conhecer as opções mais vantajosas disponíveis no mercado podem ser um bom começo.

5. Cultura inovadora

Por fim vem a cultura inovadora. Este conceito traduz a vontade, as atitudes, a disposição e o foco da equipe que vai colocar um projeto de inovação em prática e sua multiplicação entre os diversos atores envolvidos no processo.

“É por aqui que costumo afirmar que uma empresa pode inovar mesmo sem buscar recursos financeiros. A parte mais sensível para tudo acontecer é o engajamento entre as equipes e os colaboradores, o gerenciamento de ideias e a transformação delas em práticas inovadoras”, acrescenta o pesquisador do Observatório da Indústria.

Qual o melhor momento para começar a inovar?

O melhor momento para começar a inovar é agora. Segundo Augusto Machado,  geralmente quando as dificuldades e desafios apontam é que as oportunidades aparecem. “A pandemia trouxe muitos ensinamentos e é no presente que as empresas precisam buscar soluções criativas para se diferenciar no mercado. A partir do que se faz hoje já se pode colher os frutos no amanhã e alcançar os melhores resultados”, recomenda.

A experiência de nove anos de trabalho mostra que é pela transformação do ambiente de negócios, por meio da inovação, que as empresas alcançam melhorias. Daí a importância da participação massiva das indústrias nessa fase de pesquisa. “Só diante de um resultado expressivo de respostas teremos um retrato fiel das necessidades e pretensões das empresas para atingirem seus objetivos”, completa o pesquisador.

Modelo bem-sucedido

Quem investiu confirma os bons resultados. O gerente de Inovação e Melhoria Contínua da Metalúrgica Schwarz, na região de Curitiba, Rafael Bispo Rodrigues, conta que a bússola ajudou muito a empresa a direcionar os esforços em tempos de recursos escassos.

“A bússola traz esse olhar mais seletivo para a alta gestão ter foco nos projetos. O diagnóstico apontou quais as iniciativas eram mais transformadoras e que já estavam bem encaminhadas e quais áreas poderíamos otimizar para melhorar os resultados”, destaca.

Na prática, ele conta sobre os ganhos financeiros e de cultura dentro da empresa. Entre eles, um programa interno de ideias. “Em dois anos de implantação conseguimos aproveitar de 6 a 10 ideias a cada mês. Os profissionais da empresa apresentam a sugestão, avaliamos os ganhos e elas são imediatamente colocadas em prática. Em 2020, essa iniciativa gerou mais de R$ 1 milhão em recursos para empresa”, comemora.

Quando a solução para uma questão não sai de dentro da empresa, a alternativa é recorrer à ajuda externa. O processo de inovação levou à maior conexão com startups. Elas auxiliam a indústria em diversas frentes. “Uma delas, aqui mesmo da região, tem sido fundamental na prospecção de novos clientes de forma mais inteligente e automatizada. Outra parceira tem nos auxiliado na sensorização”, exemplifica.

O incentivo à capacitação de colaboradores, apontado no diagnóstico, tem sido fundamental. Além de divulgar cursos internamente, a empresa atua em mentorias para cursos oferecidos em universidades. “Sabemos que é um passo importante para fomentar a inovação aqui. Tanto que um de nossos profissionais, aluno de Mestrado em Indústria 4.0, da Universidade Federal do Paraná, está sendo fundamental na implantação da manufatura aditiva e a impressora 3D na empresa. Isso nos gerou ganhos expressivos em prototipagem e substituição de itens que a impressora produz”, conta.

“Estamos investindo agora em treinamentos online para os colaboradores, pelo conceito de microlearning – com dicas curtas e regulares enviadas por whatsapp – para disseminar a cultura da inovação internamente e engajar as equipes”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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