Valorização do real e carência de estratégica macroeconômica
A abrupta e substancial desvalorização do dólar no mercado brasileiro, neste começo de 2022, não deve ser interpretada como mérito da política econômica do ministro Paulo Guedes que, na melhor das hipóteses, perdeu contato com alguns ativos da estabilização plantados pela administração predecessora do presidente Michel Temer.
Até porque, se a orientação da equipe de Guedes sofreu alguma alteração ao longo de mais de três anos foi para pior, especialmente no que se refere ao aceite da multiplicação dos gastos governamentais, em atendimento às exigências de vultosas somas de recursos a serem endereçadas à cobertura da empreitada de reeleição do comandante da república.
É fácil perceber o movimento de vigorosa valorização do real, a maior entre os vinte e cinco principais mercados avançados e emergentes, no 1º trimestre do ano, – intensificada com o desenrolar do conflito bélico entre Rússia e Ucrânia -, fruto da combinação de alguns fatores não portadores de ligações com a estratégia macro da pasta da Economia.
Dentre eles destaca-se o esboço de um processo de depreciação do dólar, em escala planetária, consequência da exacerbação das expectativas desfavoráveis dos agentes econômicos associadas à demora dos bancos centrais das nações avançadas no acionamento dos instrumentos de restrição monetária dirigido à reversão da escalada inflacionária.
A título de ilustração, em 16 de março de 2022, o Federal Reserve (Fed), autoridade monetária dos Estados Unidos (EUA), promoveu a primeira elevação dos juros básicos nominais do país desde 2018. A Fed Funds rate passou do intervalo entre 0% ao ano e 0,25% a.a., para a faixa entre 0,25% a.a. e 0,50% a.a., algo ainda considerado tímido pela comunidade financeira internacional.
Porém, aquela instância norte-americana propõe a manutenção do ritmo de aumento do custo dos empréstimos nas próximas seis reuniões que ocorrerão ao longo do ano, o que fará a taxa ascender para o intervalo entre 1,75% e 2%, ao final do exercício. Estima-se ainda que os bônus de curto prazo alcancem remuneração próxima a 3% a.a., no encerramento de 2023.
Outro eixo explicativo da apreciação do real repousa na forte ascensão das cotações das matérias primas exportadas, aprofundada com a conflagração no leste europeu, propiciando salto no resultado da balança comercial do Brasil, por conta da maior velocidade de avanço das vendas externas em relação às importações, sendo estas afetadas pelo quadro de estagnação da produção e negócios no front interno.
O índice de commodities Brasil (IC-Br), calculado pelo Banco Central (BC) e o Commodity Research Bureau registrou acréscimo de 30,2% em doze meses findos em fevereiro de 2022.
Na mesma linha de elucidação da queda do valor do dólar e subsequente expressiva entrada líquida de divisas estrangeiras no ambiente nacional emerge o apreciável diferencial entre os juros praticados localmente e nas bancas do resto do mundo, em face da retomada da conduta de majoração da taxa Selic, pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do BC, a partir de março de 2021.
Tal expediente oportuniza maior poder de atração de capitais de curto prazo – endereçados predominantemente às transações nos balcões de ações e papéis de renda fixa – e/ou o desinteresse temporário das corporações multinacionais aqui instaladas de envio de remessas às matrizes, o que multiplica a oferta e barateia o preço do dólar.
O empuxe da Selic representa o componente principal da espinhosa tarefa dos encarregados da política monetária em perseguir a produção da reversão da curva de aceleração do nível geral de preços, que vem ultrapassando, em larga proporção, o centro e o teto da meta, fixados pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para os exercícios fechados.
Os juros básicos brasileiros, aplicados em operações interbancárias e na rolagem da dívida pública, pularam de 2% a.a., para 11,75% a.a., em um espaço de doze meses, posicionando o país na segunda posição no mundo, atrás apenas da Rússia. Ademais, devem permanecer em rota ascendente, ainda que ao custo extremo de transformação da apatia econômica em nova recessão, com seus desdobramentos nocivos na operação das firmas e no tecido social.
Diante do flagrante abandono dos compromissos com a estabilidade fiscal, por parte do governo e da maioria legislativa, ocupados com o clientelismo atrelado às demandas eleitorais, restou ao BC a dedicação inglória na luta contra o tipo de doença inflacionária causada por itens de oferta (custos – exógenos e endógenos) e inercial, por meio do tratamento com o amargo medicamento empregado para controlar a inflação de demanda.
A rigor, a fonte de impulsão dos preços vinculada à demanda encontra-se absolutamente ausente do cotidiano de uma nação marcada por enorme volume de população desempregada, ocupada na informalidade, figurando no estrato da insegurança alimentar e, o que é mais grave, convivendo com drástica corrosão da renda líquida disponível, ocasionada principalmente pelo recrudescimento do evento inflacionário.
Em vez de aproveitar o estágio de guinada transitória no comportamento da taxa de câmbio e utilizar o arsenal de medidas emergenciais dirigidas ao combate à inflação e garantia de fôlego aos níveis de atividade, o grupo da Economia, sob a orientação do chefe do estado e endosso do Congresso Nacional, empenha-se no emprego de iniciativas paliativas, de cunho meramente eleitoreiro e de impacto limitado.
Infelizmente, a menos de sete meses das eleições, o povo brasileiro sofre com o reaparecimento de mazelas que poderiam ser evitadas e minimizadas caso houvesse um governo dotado de percepção estratégica, em lugar de um incumbente incapacitado ao exercício da liderança que teima em substituir a pluralidade democrática pela retórica e incursões autocráticas sintetizadas na batalha do bem contra o mal.
A trajetória cadente do dólar pode estar com os dias contados, sujeita à inversão quando os mercados passarem a precificar os dois principais riscos eleitorais: a continuidade do presente de irresponsabilidade fiscal e institucional e a volta ao passado supostamente virtuoso bancado por manobras de verdadeiros predadores do estado.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








