Dia do Economista: reflexão e revisão de posturas
A data de 13 de agosto de 2022 engloba a comemoração do 71º aniversário da regulamentação da profissão de Economista no Brasil, merecedora de incontáveis aplausos e homenagens e não poucas críticas e reparos, por conta do tortuoso percurso de inserção e interferência no ambiente social e político do país.
Com diferentes formas e intensidades de atuação, a categoria tem marcado presença no cotidiano nacional, com participação decisiva na implantação e consolidação do prolongado estágio de industrialização pesada substitutiva de importações e outras contribuições não tão brilhantes que precipitaram a falência do estado e a superinflação nos anos 1980.
Ainda na década de 1980, de um lado, a classe engrossou as fileiras dos movimentos pró-redemocratização do país e, de outro, teve larga responsabilidade na preparação da instrumentação da reprodução doméstica, e posterior fracasso, do paradigma da globalização dos mercados, ditado pela aplicação dos preceitos neoliberais, prescritos pelo Consenso de Washington – fruto de reunião acontecida em novembro de 1989 -, centrados na abertura comercial e financeira, desregulamentação e desestatização, do decênio de 1990 em diante.
Em um momento tão delicado da vida brasileira, atestado por flagrante agravamento das condições sociais, especialmente a pobreza e a miséria, e apreciáveis ameaças à estabilidade das instituições democráticas, parece oportuna a feitura de algumas reflexões acerca do papel do Economista e respectivas entidades de representação, com ênfase para algumas lacunas e revisões de procedimentos de atuação.
Antes de tudo, soa imprescindível o resgate das ideias encorajadoras do eterno mestre, Celso Furtado, que entendia a Ciência Econômica como mera ferramenta ao melhor entendimento da complexidade dos processos sociais. Igualmente adequada é a busca de aproximação com a argumentação defendida pela mestra Maria da Conceição Tavares que sentenciava que um Economista insensível à desigualdade na apropriação do produto social não passa de um tecnocrata.
Em outros termos, o Economista excessivamente preso às cartilhas acadêmicas, avesso ao exame das intrincadas articulações verificadas no interior dos estabelecimentos produtivos e não ocupado com a observação atenta da heterogeneidade do desenho da trajetória social, estará irremediavelmente condenado ao rótulo de “pregador no deserto” ou “cabeça de planilha”.
Nessa perspectiva, o primeiro conserto na linha comportamental do profissional repousa no convencimento da necessidade de submissão das estatísticas “normalmente gélidas”, apurados em esforços de gabinetes, e dos diagnósticos e recomendações deles derivados, às engrenagens das relações sociais.
Somente a incessante busca de identificação de aderência ou conflito entre a costumeira frieza dos indicadores quantitativos e qualitativos e a dinâmica social permitirá a constatação das fortalezas e fraquezas dos entes econômicos, em circunstâncias de acirramento da contenda distributiva, fenômeno comum no comportamento cíclico das economias capitalistas.
Não seria ocioso recordar que os trabalhos de modelagem configuram esforços de aproximação da realidade, baseados em um conjunto de premissas que devem ser submetidas a testes, revisões e atualizações, para não conduzirem a interpretações e, sobretudo, escolhas decisórias, equivocadas.
A segunda ação corretiva compreende o acompanhamento permanente da marcha da história, na tentativa de compatibilizar a autoridade científica com os processos e eventos econômicos, de modo a fixar ligações entre academia e diagnósticos de posturas propositivas.
Há que reconhecer o caráter imprescindível da perseguição da sintonia fina entre as formulações científicas e as sugestões de intervenções de natureza política, voltadas prioritariamente ao desmanche do controle do estado por agentes concentradores de poder econômico e político em detrimento da justiça social.
O terceiro alinhamento requerido reside na perseguição do entendimento da limitação dos remédios liberais, fabricados no laboratório das forças invisíveis dos mercados – normalmente arredios à mediação de conflitos pela via política e institucional – para a cura de graves moléstias econômicas e sociais, ocasionadas por distúrbios de oferta, externos e/ou domésticos, exigentes de pesada intervenção anticíclica.
A quarta imposição de arrumação, abarcando o terreno das prescrições e monitoramentos de políticas sociais, sinaliza o escape da areia movediça das manifestações críticas distanciadas, carregadas, na maioria das vezes, de retórica superficial e panfletária, e do comodismo, passividade e contemplação ante a negligência ou morosa resposta dos atores públicos aos expressivos e crescentes pleitos coletivos.
O quinto vetor de rearranjo diz respeito ao aceite da tarefa de elaboração de uma agenda mínima de recolocação da nação nos trilhos da expansão econômica com justiça social, desprovida da improvisa concessão de bondades atrelada às intenções meramente eleitoreiras dos membros do andar de cima do executivo e legislativo.
Por fim, o sexto pilar de ajuste equivale à postulação ao jogo na defesa intransigente da preservação das regras democráticas escritas e informais, por meio do rompimento do protocolar e quase sepulcral silêncio ou, o que é pior, adesão velada ou escancarada ao status quo.
A propósito dessa última determinação, independentemente das vertentes ideológicas em disputa, da plataforma vencedora nas eleições de outubro de 2022 e do cenário demarcado a partir de janeiro de 2023, não há como ignorar os riscos de retrocessos políticos, econômicos e sociais subjacentes ao confronto polarizado.
Do contrário, a conduta de recusa de admissibilidade da existência de um clima de insana exacerbação de empenhos de estagiários de autocratas, resistentes à construção de diálogos e entendimentos e desejosos da ruptura institucional, pode transmitir a ideia de submissão aos interesses dos inquilinos do poder, arautos do retorno ao passado ditatorial.
Nunca é demais lembrar que aquele intervalo de tempo tenebroso da república brasileira, com duração de 21 anos, abrigou o aprofundamento do capitalismo selvagem, organizado e viabilizado com o objetivo de acolher e saciar o voraz apetite da conspiração das elites, concentradora de renda e expropriadora do estado.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Loureço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








