Bonança econômica brasileira: a fake news da vez

A retórica e propaganda oficial de ocorrência da combinação virtuosa entre vigorosa retomada econômica e consistente declínio da inflação no Brasil, na contramão do mundo avançado e emergente, pode ser conveniente aos objetivos de virada do candidato à reeleição presidencial no 2º turno, derrotado na 1ª fase.

Porém, as iniciativas de demonstração, em doses crescentes e cavalares, das ações dos governantes de plantão em favor da recuperação da economia e do mercado de trabalho, coincidindo com a proximidade do desfecho do ciclo eleitoral, não resistem à criteriosa observação da conjuntura. Até porque, na maioria delas, por omissão e/ou inoperância, o executivo foi conduzido a reboque pelo parlamento.

Decerto que os níveis de atividade e emprego vêm esboçando reação, em função da resposta do consumo privado à ampliação dos gastos públicos, propiciada pela engorda do pagamento do Auxílio Brasil e outras benesses concedidas pelo governo, no afã de alargamento da densidade eleitoral junto às camadas mais pobres da população.

No entanto, a informalidade da mão de obra, os juros cobrados nas operações de empréstimos e financiamentos e o endividamento e inadimplência dos consumidores permanecem em patamares recordes, o que, somado ao acentuado recuo da massa real de rendimentos, inclusive por causa da inflação, explica a postura cautelosa das decisões de compras à vista ou parceladas.

Mais do que isso, no front inflacionário, a propagada deflação acontecida nos últimos três meses pode ser imputada diretamente à diminuição dos preços de combustíveis e dos serviços de energia elétrica e de telecomunicações, em face da diminuição das cotações internacionais do petróleo e do decréscimo efêmero da cunha tributária federal e estadual.

Ainda assim, a defasagem do preço doméstico cobrado na comercialização de gasolina frente à referência internacional revela-se a maior desde julho de 2022, quando teve início a sucessão de reduções para as refinarias, efetuadas pela Petrobras.

É interessante assinalar que como o fenômeno deflacionário não alcançou os itens alimentares, que comprometem a maior proporção do orçamento das pessoas vulneráveis, e o represamento dos reajustes dos preços administrados favorecem as classes média e alta, o atual empenho de combate à inflação representa transferência de renda dos pobres para os ricos.

Sem contar que o inevitável colapso dos fluxos de arrecadação dos entes subnacionais, em médio prazo, exigirá ajustes no populismo tarifário, empregado pelo Palácio do Planalto na perspectiva de colheita de dividendos eleitorais, em 2023, o que servirá para derrubar o castelo de areia que tem sido utilizado como barreira à escalada da inflação.

A fragilidade da postura ufanista de Brasília, focada exclusivamente na vontade de reeleição do presidente, pode ser evidenciada pelo comportamento descendente constatado na marcha da produção industrial nacional, que, por sinal, não vem dando refresco e colocando os arautos da “ilha da fantasia” em situação bastante desconfortável.

O volume físico produzido pela indústria no país, levantado pela Pesquisa Industrial Mensal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o melhor indicador “não chapa branca” das flutuações cíclicas do segmento extrativo e de transformação, acusou recuo de -0,6%, em agosto de 2022, em confronto com julho, e de -1,3% no ano.

Com tal performance, o setor encontra-se -1,5% abaixo do montante fabricado antes da entrada e avanço do surto de Covid-19 no Brasil, considerado o mês de fevereiro de 2020, e, mais grave, -17,9% aquém do pico atingido em maio de 2011, influenciado na ocasião pelo transbordamento da estratégica expansiva, bancada no derradeiro ano da gestão Lula.

Entre janeiro e agosto de 2022, em confronto com o mesmo intervalo de 2021, foram apuradas variações negativas em todas as quatro categorias econômicas, 17 dos 26 ramos, 57 dos 79 grupos e 60,5% dos 805 produtos acompanhados.

As diminuições mais acentuadas ocorreram em bens de consumo duráveis (-7,2%), reproduzindo a fadiga da renda e emprego e as condições proibitivas de crédito, de capital (-1,2%), denotando o ambiente hostil ao investimento, e bens intermediários (-1,1%), sinalizando a retração da demanda por bens finais e a persistência dos desarranjos das cadeias de suprimento, precipitados pela pandemia e aprofundados com a guerra da Ucrânia.

Por tudo isso, em vez da insistente manutenção do arrogante discurso de bonança, adequado apenas aos ambientes com ar condicionado da esplanada dos ministérios e Congresso Nacional, regados com o fisiologismo e clientelismo, que transformaram o orçamento da União em fonte de recursos da campanha à reeleição, a cúpula governamental deveria promover, com quatro anos de atraso, maior dedicação à formulação e discussão de tópicos programáticos de longo prazo, incluindo a agenda da indústria.

Paradoxalmente, o compromisso com o choque de competitividade sistêmica, a ser aplicado no segmento portador dos maiores impactos multiplicadores dinâmicos para frente e para trás, foi selado em 2018, pelo então postulante à cadeira de mandatário do país, em evento realizado na Confederação Nacional da Indústria (CNI), com endosso do Posto Ipiranga. E nada de relevante aconteceu depois disso.

O artigo foi escrito pelo economista Gilmar Mendes Lourenço, que é também consultor econômico e foi presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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