Desfecho das eleições e o inconformismo dos derrotados

Passados alguns dias desde a vitória da dobradinha Lula-Alkmin, da aliança liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) na disputa aos cargos de presidente e vice da república, o comportamento das variáveis políticas e econômicas vem desmanchando a névoa triunfalista defendida pelas autoridades durante o episódio eleitoral.

Na verdade, em vez de enfeixar apenas o retorno do protagonismo do lulopetismo no poder executivo do país, após sete anos de ostracismo derivado da cassação da presidente Dilma Rousseff, seguida da prisão do ex-presidente Lula e da emergência de um outsider, oriundo do baixo clero do parlamento, o evento de 30 de outubro de 2022 traduz outros elementos de relevância atrelados à intransigente esperança e resistência democrática, encampada pela maioria da sociedade brasileira votante.

O êxito da empreitada de outubro deve ser saudado, de forma renovada, principalmente se se levar em consideração que, em sintonia com o silêncio sepulcral do postulante à reeleição, quanto ao reconhecimento da derrota, precipitaram-se espasmos de uma trama golpista, expressos notadamente no bloqueio de rodovias por todo o território nacional.

Houve ainda espetáculos de mobilização antidemocrática diante de quartéis, nas cidades médias e grandes, orquestrados, patrocinados e/ou conduzidos por representantes da “tropa bolsonarista”, formada por frações descontentes da elite, grupos reacionários e fiéis seguidores induzidos por líderes de igrejas evangélicas neopentecostais.

Mais do que isso, assentados na bolha de propagação de desinformação, os revoltados vem operando em flagrante contestação do resultado brotado das urnas e, curiosamente, se dedicando à fervorosa luta pela democracia com o erguimento da bandeira de solicitação de intervenção das forças militares, de maneira análoga à ditadura que sufocou a nação entre abril de 1964 e março de 1985.

Do ponto de vista político e institucional, a onda de protestos reproduz a vontade de viabilização de uma espécie de terceiro turno, por meio de atuação incisiva, e por vezes cômica, de autênticos guerreiros revolucionários, espalhadores de vídeos e selfies nas mídias digitais.

Apenas a título de qualificação do desenho do clima de euforia oficial que antecedeu ao pleito, alimentados e orientados pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, membros do staff do governo e da linha de frente da campanha, insistiram, desde meados de abril do corrente exercício, de forma eloquente, acerca da conformação de um movimento virtuoso dos níveis de atividade no front doméstico, a ser reforçado em 2023, com a posse de um congresso conservador, intimamente aderente aos projetos de interesse do governo.

O desempenho econômico promissor deveria ser imputado primordialmente à “indiscutível competência” da gestão federal, sintetizada na conjugação entre declínio da inflação e prosperidade dos negócios, em contraste com o cenário de estagflação vivido pelas economias maduras e emergentes.

Como se sabe, os espaços geográficos centrais e em desenvolvimento padecem da ressaca depois da pandemia de Covid-19, particularmente com os desarranjos logísticos e o abre e fecha na China, determinado pela tolerância oficial zero às contaminações com o vírus, e dos desdobramentos da invasão da Ucrânia pela Rússia.

O ensaio diagnóstico e comprobatório da verdadeira proeza na economia repousava nas renúncias tributárias temporárias, federais e estaduais na comercialização de combustíveis e prestação de serviços de energia e telecomunicações, expedientes responsáveis pela deflação verificada entre junho e agosto de 2022, e no reajuste de 50% dos valores do Auxílio Brasil, além da disponibilização de vouchers a caminhoneiros e motoristas de taxi.

O Auxílio Brasil representa um programa de transferência direta de renda que substituiu o Benefício Emergencial, pago às famílias vulneráveis entre abril de 2020 e dezembro de 2021 (com interrupção entre janeiro e março de 2021) e o Bolsa Família, lançado na primeira gestão de Lula, como aperfeiçoamento da rede de proteção social plantada por Fernando Henrique Cardoso (FHC).

Em sendo definido de afogadilho, destituído de condicionalidades e de efetiva focalização no piso da pirâmide social e desvinculado da atuação social descentralizada, o Auxílio Brasil assumiu a condição de uma colcha de retalhos e anulou os componentes estruturais de inclusão e mobilidade social da nação, instalados a partir da desinflação produzida pelo plano real, em 1994.

Especificamente o represamento transitório da espiral inflacionária e a injeção incremental de verbas públicas destinadas à população mais pobre, ainda que ao preço da derrubada do aparato de responsabilidade fiscal, instituído nos anos 1990, estariam na raiz da recuperação do funcionamento do mercado de trabalho, mesmo que amparado na precarização, e, por extensão, do revigoramento do consumo privado.

Para coroar o reino de bonança, apoiado no emprego da máquina pública a serviço de objetivos do populismo eleitoral, foi autorizado o acesso ao crédito consignado ao público de cerca de 20 milhões de inscritos no Auxílio Brasil, em até R$ 2.500, em 24 parcelas de R$ 160, com teto de juros de 3,5% ao mês.

Paradoxalmente, a concessão desse incentivo desconsiderou a conjuntura de desemprego ainda elevado e inadimplência recorde da população, em paralelo ao prosseguimento da trajetória cadente dos rendimentos reais dos trabalhadores, a despeito do efêmero refresco conferido pela inflação.

Portanto, diante da constatação de arranque ocasional, provocado pela deflagração de mecanismos de cunho meramente artificiais, é fácil apreender que a propagação da mensagem de tempos bons para a economia é essencialmente falaciosa.

Mais do que isso, a retórica de construção da fake news do castelo da retomada econômica sucumbiu às métricas de evolução do cotidiano do ambiente de produção ou do “chão de fábrica”, absolutamente neutras e/ou insensíveis aos desejos e pressões oficiais na direção da multiplicação das vendas de ilusões voltada à frustrada colheita de frutos eleitorais.

Dentre os vários indicadores colidentes com as mensagens positivas emanadas dos gabinetes de Brasília e do QG do incumbente-candidato, o mais importante compreende a produção industrial, levantada mensalmente pelo IBGE, a partir de critérios metodológicos e operacionais que suplantam as rigorosas exigências da Organização das Nações Unidas (ONU) para a aplicação de sondagens de curto termo, e que representa inferência preliminar da evolução do PIB, por conta de seus inúmeros efeitos multiplicadores para frente e para trás.

Por essa ordem de observação, o nível de atividade fabril nacional caiu -0,3%, no trimestre móvel encerrado em setembro de 2022, e -1,1% no ano, puxado por bens de consumo duráveis (-5,3%), devido à deterioração do emprego e salários e das restrições creditícias (diminuição da oferta e impulsão dos juros).

Se no terreno econômico o quadro revela-se pouco promissor, na órbita política delineiam-se chances de aproximação entre as novas forças hegemônicas de centro-esquerda do espectro ideológico e parcela das organizações partidárias de perfil conservador atuantes no legislativo, que desencadearam sinais de aproximação colaborativa, em regime de presidencialismo de coalizão.

Como se vê, a atmosfera econômica e o panorama político mostram-se adversos aos habitantes dos cercadinhos de otimismo, erguidos no Palácio do Planalto e adjacências, cuja reversão requer a restauração dos requisitos imprescindíveis ao diálogo e negociação democráticas, voltadas à desativação das bombas armadas para 2023.

Por isso, cabe aos vencedores envidarem esforços de contenção da empolgação pós-eleitoral, compreensão do desfecho apertado do embate e sinalização clara de descida dos palanques, indispensável à travessia, sem traumas, da ponte de transição.

Também assinável será o preenchimento do campo de “jogo de dois meses” com peças dotadas de espírito responsável, capazes de realização de complexas conversas e articulações para assegurar apreciável fluxo de capital político necessário ao começo do mandato.

De outra parte, cumpre aos vencidos, particularmente à considerável fração hospedada nas fileiras da direita democrática, liberal e desapegada de extremismos, fortalecida nas eleições, o despojamento de posturas de insurreição depois da contenda, de engrandecimento do líder e de atrapalho dos ritos de passagem.

Alternativamente, aos perdedores resta a apreciação, aceitação, digestão e reconhecimento do malogro e pragmática acomodação no honroso espaço destinado às oposições, em circunstâncias de pleno cumprimento das normas democráticas escritas e informais.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente di Ipoardes.
(*) Os artigos assinados não representam necessariamente a linha editorial deste portal de notícias.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Um comentário em “Desfecho das eleições e o inconformismo dos derrotados

  1. Sempre certo, essa eleição mostra bem como o analfabetismo se espalhou e só olhar o número de pessoas pedindo a volta da milicada que por sinal está desmoralizada por tentar repetir 64 incentivando a anarquia

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