50 anos do Ipardes: Pesquisa e planejamento do desenvolvimento do Paraná

50 anos do Ipardes: Pesquisa e planejamento do desenvolvimento do Paraná
Gilmar Mendes Lourenço.

Parte II

Este ensaio é o segundo de um conjunto de três dedicado à descrição dos cinquenta anos de existência do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), completados em 7 de junho de 2023, publicado neste maravilhoso espaço de discussão econômica, implantado e conduzido pela minha grande amiga, desde as empreitadas no Jornal “Indústria e Comércio”, nos anos 1980, Mirian Gasparin.

Invariavelmente prestigiado e valorizado, o Ipardes foi progressivamente ganhando forma e conteúdo autônomos, na segunda metade da década de 1970, ainda que atrelados ao imperativo de adequação às diretrizes governamentais, designadas pelas instâncias autoritárias, durante a ditadura militar, ou acordadas com a sociedade nos tempos de recuperação e consolidação da democracia no país.

Assim foi possível a consecução de diagnósticos retrospectivos e cenários prospectivos capazes de apoiar a estruturação, monitoramento e avaliação das políticas públicas e a correspondente otimização de oportunidades e negação ou reversão de condutas e providências consideradas indesejáveis.

Mais precisamente, o grupo de especialistas do Ipardes esteve permanentemente credenciado a conjecturar acerca do boom econômico estadual daquele decênio, em linha com os avanços do capitalismo selvagem e autocrático, reinante na nação, resumidos em significativos ganhos de produtividade do setor rural às custas de enorme redução da ocupação de mão de obra e precarização das relações de trabalho.

Em idêntico sentido, é destacável a interpretação das diversas vitórias nas contendas com outras unidades da federação na atração de unidades industriais estatais e privadas nacionais, dirigidas preferencialmente à Região Metropolitana de Curitiba (RMC), na esteira da desconcentração endógena, induzida pelo segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), do governo Geisel (1974-1979).

Na mesma época houve a hospedagem de empresas multinacionais no território estadual, resultado do curso espontâneo do capital estrangeiro, na descoberta de fronteiras não tradicionais e dotadas de amplo potencial de densificação do mercado interno e correspondente absorção de projetos de investimentos de apreciável dimensão, em função da concatenação entre recessão global, pós I choque do petróleo, de 1973, e emergência de reciclagem dos petrodólares.

Ademais, a aprovação e conquista daqueles projetos de grande envergadura dependeu de denodado trabalho de pressão política e intermediação de interesses, efetuado por importantes técnicos paranaenses colocados em postos chave da administração federal, notadamente nas instâncias de segundo escalão gestoras dos incentivos fiscais e financeiros, em particular o Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI).

Caberia aqui um parêntesis para registro do desconforto institucional causado pela demissão sumária, em 1977, de cinco importantes pesquisadores do Ipardes, sob a alegação de rearranjos administrativos, que seriam corriqueiros na administração pública regida pela CLT.

Só que a versão alternativa, circulante nos esconderijos acadêmicos e de comunicação, asseverava que os profissionais desligados integrariam uma lista de mais de uma centena de “perigosos adversários do sistema”, entregue pelo ministro do Exército, Silvio Frota, pertencente à chamada “linha dura”, ao presidente Geisel, logo após ser despachado da pasta, por suas pretensões presidenciais e aversão à distensão gradual, propagada pelo mandatário.

A natureza e repercussões da mutação apurada na década de 1970, incluindo a captura dos grandes projetos de manufatura, foram suficientemente esclarecidas pelas investigações “Estudos dos Fatores de Decisão na Implantação de Indústrias na RMC” e “Paraná: Economia e Sociedade”, publicados nos anos de 1980 e 1981, respectivamente.

Enquanto o primeiro estudo, quando da explanação dos levantamentos de campo, aflorou uma salutar polêmica teórica entre neoclássicos e adeptos da teoria do oligopólio, o segundo envolveu direta e indiretamente quase a terça parte do Ipardes e contou com a qualificada consultoria do professor Carlos Alonso Barbosa de Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A propósito da influência técnica externa, cumpre enaltecer que, não sem alguns conflitos de cultura ou até rusgas, a bem sucedida articulação entre “pratas da casa” e profissionais importados de outras universidades e/ou centros de vanguarda em pesquisa, nacionais e até do exterior – beneficiada pela aprovação da anistia pelo governo militar, depois de intensa pressão da sociedade -, ensejou substancial ascensão qualitativa nos estudos da instituição, amparada na contínua busca de abertura de horizontes diversificados de capacitação por “técnicos da gema”.

Isso foi especialmente importante por acontecer no segundo mandato de Ney Braga (1979-1983), governador eleito indiretamente, por aclamação da Assembleia Legislativa, que apenas referendou a escolha feita pelo presidente da república, General Ernesto Geisel, em cumprimento do protocolo ditatorial, em 1978.

Os técnicos do Ipardes exerceram papel fundamental na organização das informações e realização de estudos básicos, com destaque para as projeções macroeconômicas e populacionais, que alimentaram exposições e discussões com a equipe de futuros secretários da administração Ney Braga, em especial o coordenador, Véspero Mendes (Planejamento).

Em outros termos, no ápice dos “anos de chumbo” no Brasil, graças à visão de longo alcance de um comandante e equipe atentos às questões do desenvolvimento, o Ipardes foi palco do espetáculo de radicalização da pluralidade técnica, impregnado não apenas nos debates internos, mas sobretudo no teor dos documentos interpretativos do cotidiano nacional e estadual.

Paradoxalmente, a aceitação do salutar costume de discussão de ideias e confronto de opiniões, por parte da órbita política, perdeu fôlego com a redemocratização da nação – deflagrada com a acachapante vitória das oposições em praticamente todos os níveis de poder e geográficos, nas eleições de 1982 -, coincidindo com a gênese da fragilização dos institutos de pesquisa.

Uma justificativa provisória para tal anomalia pode ser depositada na brutal escassez de recursos públicos, vinculada ao colapso do estilo de cobertura do desenvolvimento substitutivo de importações, adotado pela nação desde os anos 1930, altamente subordinado à combinação entre poupança externa e estatal.

Não obstante, os experts também apreenderam e acompanharam pari passu os movimentos da década perdida de 1980, rotulada como a da “crise da dívida”, menos nociva ao Paraná em razão da formidável resistência do agronegócio, dominado por cooperativas e privilegiado pelo arranjo macroeconômico nacional batizado de “exportar é o que importa” – tocado pelo superministro da Economia, Delfim Neto -, e a maturação plena das grandes inversões efetuadas no decênio precedente.

A equipe do organismo igualmente examinou a inserção regional nas modificações acontecidas no marco institucional do país, nos anos 1990, abarcando a desinflação promovida pelo Plano Real, que, alargadas pelas vantagens competitivas produzidas ex ante, possibilitaram a materialização de reparos e inversões em expansão na infraestrutura e o desenho de novo ciclo industrial, impulsionado pela intensificação da verticalização do agronegócio e caça de montadoras de automóveis e utilitários e correspondentes supridores mundiais de primeira camada.

Não menos relevante foi o comportamento técnico cuidadoso adotado na apreciação da marcha e flutuações cíclicas da economia e sociedade local, na década de 2000, em consequência do boom das commodities, puxado pela China, da proliferação das iniciativas públicas de proteção e inclusão social, criadas na Constituição de 1988 e organizadas nos anos 1990, e dos impactos da crise financeira internacional de 2008, incitada pela quebra do segmento hipotecário de segunda linha dos Estados Unidos, conhecido como subprime.

O elenco Ipardiano ainda forneceu elementos úteis ao desencadeamento de nova indução governamental à diversificação industrial do Paraná, a partir de 2011, liderada pelas cadeias da metalmecânica, agroindústria e papel e celulose, em contraste com a apatia nacional e a despeito da extraordinária discriminação política e orçamentária executada pelo executivo federal.

Os projetos abrigados no Programa Paraná Competitivo, sucessor dos instrumentos fiscais de estímulo ao investimento privado, adotados por todos os governos estaduais desde a criação do Programa de Fomento à Industrialização (PEFI), nos anos 1970, abrigou portfólio superior a R$ 40 bilhões, concretizada apenas parcialmente em decorrência do panorama de crise, que precipitou o país na maior e mais prolongada recessão da história da república, entre 2014 e 2016, e culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff.

*Agradeço a Luiz Eduardo Sebastiani, economista, meu grande amigo, irmão e companheiro da longa e tortuosa jornada ipardiana, pela leitura criteriosa do artigo e elaboração de oportunas críticas e reparos.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Um comentário em “50 anos do Ipardes: Pesquisa e planejamento do desenvolvimento do Paraná

  1. Agradeço ao Professor Gilmar pelos ensinamentos que pude angariar quando fui estudante de Ciências Econômicas da UFPR e estagiária do Ipardes em meados dos anos 90, assim como os conhecimento ao realizar a pesquisa de preços mensal e a leitura dos jornais diários, enquanto preparávamos os “Destaques Econômicos”, o professor Gilmar preparava o texto completo de “Análise Conjuntural”. Se hoje entendo um pouco de economia e tenho gosto pela leitura econômica e política, devo 90% ao professor Gilmar. Obrigada.

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