PEC da Anistia: coalizão de desejos inescrupulosos de forças contrárias

PEC da Anistia: coalizão de desejos inescrupulosos de forças contrárias

É bastante provável que o título deste artigo não esteja rigorosamente alinhado com o episódio que o conteúdo busca descrever. O problema é que a opção por “PEC da vergonha”, abraçada inclusive por editoriais de jornais de circulação nacional, poderia induzir o leitor mais apressado a enveredar por labirintos no afã da descoberta de resquícios de recato na postura dos atores políticos envolvidos na embaraçosa empreitada.

Com 338 votos a favor, suplantando os 308 necessários, 83 contra e 4 abstenções, ou 79,5%, 19,5% e 1%, respectivamente, a proposta de emenda à Constituição nº 9/2023, batizada de PEC da Anistia, foi confirmada em segundo escrutínio, em 11 de julho de 2024, em sessão híbrida, com plenário praticamente esvaziado, por quase 83% dos 513 membros da Câmara dos Deputados.

De pronto, o texto seguiu para a apreciação do Senado da República, provavelmente no mês de agosto, e, se deliberado, derrubará enormes muralhas e, por extensão, facilitará a “passagem da boiada” composta por outras peças desvinculadas das vontades públicas, por meio de meros projetos de Lei, o que configura permanente cenário de instabilidade no sentido da conformação do apocalipse democrático.

Esse procedimento congressual representa uma espécie de passaporte de imunização ou de impunidade às agremiações partidárias, o que provocou múltiplas manifestações de indignação e críticas, por parte do ambiente especializado e dos demais segmentos da sociedade, por transmitir explicitamente a mensagem de negligência com o seguimento do arcabouço legal, justamente por aqueles que deveriam respeitá-lo.

A iniciativa constitui um autêntico ato de desvirtuamento do papel da Casa de Leis e de descaso com a acolhida, encaminhamento, tramitação, votação e aprovação das demandas urgentes e/ou prioritárias, explicitadas pela população, que extrapolam o não tão restrito conjunto de interesses afetos aos caciques parlamentares e suas legiões de asseclas.

O ato de remissão dispensado às legendas e respectivos braços de captação de recursos, mais especificamente institutos e fundações, sugere três rotas de barbaridades.

A primeira indecência diz respeito à drástica contração do passivo tributário e não tributário, excetuando-se a conta previdenciária, englobando as dívidas derivadas de falhas e/ou fraudes nas prestações de contas eleitorais (fundo eleitoral) e anuais (fundo partidário), com correção monetária e eliminação de juros, multas e outros valores relativos às condenações. É o sonho que qualquer endividado, “militante e juramentado”.

No fundo, trata-se de acintoso perdão por ações irregulares cometidas pelos partidos e representantes legais, portadores ou desprovidos de mandato, por ocasião das campanhas eleitorais e/ou da gestão das organizações políticas, que abocanharam mais de R$ 5 bilhões, em 2022, por ensejo dos pleitos majoritários e proporcionais da federação, na rubrica Fundo Especial de Financiamento de Campanha que devem se repetir, neste 2024, com a disputa para as prefeituras e câmaras municipais.

A segunda afronta contida no documento compreende um amazônico alongamento do prazo de pagamento do endividamento das siglas, equivalente a quinze anos (cinco anos para os débitos previdenciários), com escolha de adesão a qualquer momento e facultado o direito de emprego dos repasses obrigatórios do orçamento da União, lotados no Fundo Partidário, destinados à manutenção das engrenagens das máquinas dos políticos, estimados em R$ 1 bilhão, por ano.

A terceira desfaçatez de absolvição e/ou anacronismo repousa na tentativa de enfraquecimento da autoridade judiciária, com a redução de 50% para 30% das cotas para alocação de haveres em candidaturas pretas nas eleições, e preservação de 30% dirigido às mulheres, sem especificação se compreende o piso ou o teto.

Essa incursão configura uma colisão com decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que, ainda em 2020, determinou a repartição das somas recebidas conforme a quantidade de postulantes, o que significaria a mais de 50% no pleito realizado em 2022, que, decerto, não foi seguido.

Ressalte-se que a atitude soberana e esclarecedora do poder judiciário se encontra em perfeita sintonia com o perfil da sociedade brasileira, demonstrado a partir dos resultados definitivos do Censo Demográfico 2022, apurados pelo IBGE, que indicam a participação 51,5% de mulheres e 55,5% de pretos e pardos na população total de 203 milhões de pessoas.

Ainda por essa perspectiva, a PEC carrega outro abuso ao permitir a possibilidade de compensação, nas eleições vindouras, das infrações cometidas com o descumprimento das cotas e 2020 e 2022, sem a imposição de qualquer tipo de penalidade.

Afora os integrantes das bancadas do Novo e do bloco formado por PSOL e Rede, que foram orientados à rejeitar o expediente vergonhoso, quase todos os demais hóspedes do legislativo – que ocupam alas reservadas aos apoiadores do governo Lula 3 (correntes de centro-esquerda, capitaneadas pelo Partido dos Trabalhadores), às oposições (direita e ultradireita, conduzidas pelo Partido Liberal, de Jair Bolsonaro) e ao centrão, aglutinaram-se na intransigente defesa da propositura que serve apenas para aprofundar a descrença popular na imagem e posições daqueles entes alçados pelo voto à nobre função ou dever de fazedores de leis.

Em vez da dedicação ao lançamento de dispositivos que somente estimulam a violação dos parâmetros de responsabilidade fiscal e regulatórios do sistema eleitoral e ao atendimento de solicitações que desfiguram a simplificação tributária, os deputados e senadores poderiam perseguir ferrenhamente a reversão da indiscutível insuficiência de eficácia e eficiência dos trabalhos, na direção do estreitamento do diálogo institucional visando à montagem de um projeto contemporâneo de nação.

Decerto que agenda é ampla. Porém, no terreno das diretrizes gerais, parece razoável admitir a premência do desencadeamento de discussões de diretrizes, programas e medidas capazes de devolver a capacidade operacional do estado e impulsionar a produtividade da microeconomia.

Nesse contexto, não é difícil elencar temas estratégicos, passíveis de inserção no processo de planejamento, formulação e discussão de políticas públicas, com foco nas reformas institucionais, imprescindíveis ao reencaixe do organismo público dentro do orçamento e correspondente resgate da captura por corporações de servidores – abarcando a supressão de privilégios, em especial, da secular imutabilidade dos supersalários, que suplantam o teto constitucional de R$ 44 mil mensais – e de grupos empresariais agraciados com vultosos subsídios, destituídos de retornos sociais; ao barateamento do custo e ampliação da disponibilidade do crédito bancário; e à desburocratização dos negócios e da vida das pessoas.

Com relação à farra salarial, inúmeras artimanhas (auxílios, gratificações e benefícios de várias naturezas), disfarçadas na modalidade “verbas indenizatórias” permitiram que 93% dos juízes, desembargadores e ministros de tribunais superiores, e 91,5% dos procuradores, tenham driblado a regra, em 2023.

Apesar de não ser necessariamente inchado, pois responde por 12% dos empregos, somando as esferas federal, estadual e municipal, versus 15%, nos Estados Unidos, e 18% em média, nas nações da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (PCDE), o aparelho público brasileiro é caro e ineficiente, marcado pela precária provisão de serviços à população, por representar massa de salários equivalente a 13% do PIB, contra 8,7%, nos EUA, e 7,6%, na Alemanha, por exemplo.

Igualmente indispensável seria a elaboração e implantação de um rearranjo federativo, com a criteriosa revisão de receitas e responsabilidades entre união, estados e municípios, em substituição à imprudente proposição de renegociação das dívidas das instâncias subnacionais, apresentada pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que, sem contemplar o salutar “caso a caso”, premia os perdulários e penaliza os austeros; e a identificação de flancos à restauração da competitividade e diversificação da infraestrutura nacional.

Não seria ocioso sublinhar também o imperativo de vigoroso empenho na mutação do paradigma e do modus operandi educacional, combalidos por insistentes interferências de natureza política, centradas na precarização da aplicação de recursos e utilização de procedimentos padronizados, ditados por plataformas digitais precarizadas, normalmente carentes de preocupações com as especificidades regionais explicitadas por um país de dimensões continentais.

Por fim, sobressai a necessidade de convencimento político acerca da maximização das vantagens comparativas dinâmicas subjacentes à combinação entre transição energética e quarta revolução industrial, em curso no mundo, dominada por digitalização e inteligência artificial, exigentes de constantes upgrades em ciência tecnologia e inovação.

A julgar pelo insuficiente grau racionalidade, concertação política e disposição à costura de consensos voltado à reconstrução institucional, evidenciado pela diminuta relevância do desconexo amontoado de projetos miúdos, hospedados nas comissões e pautados nas sessões da Câmara e do Senado, prontos para suprimento da tóxica demagogia redentora, não soa absurdo levantar a premissa de o legislativo brasileiro não estar adequadamente preparado para o enfrentamento de problemas e a superação de desafios de tamanha complexidade.

Portanto, o frequente retorno da reprodução e disseminação de ideias de modelos alternativos de condução política, ancorados na implantação do parlamentarismo ou ao mesmo de um semipresidencialismo, esboçada pelo ex-chefe de estado, Michel Temer, não revela a menor aderência à realidade brasileira.

No entanto, é oportuno reconhecer que a remoção dos obstáculos ao fortalecimento da democracia depende do amplo e contínuo exercício do confronto e entendimento político, tanto no atacado quando no varejo das intrincadas relações sociais.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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