Trump e o dia D para o Brasil

Trump e o dia D para o Brasil
Gilmar Mendes Lourenço.

A poucas horas do dia D para a vigência da sobretaxa escorchante de 50%, imposta pelo governo dos Estados Unidos (EUA) às importações procedentes do Brasil, a maior entre os países alcançados, estipulada para 1º de agosto de 2025, o cenário é desalentador.

É absolutamente impossível a identificação de qualquer manifestação de desencadeamento de abrangente, concreta e robusta negociação entre as partes envolvidas, por conta do fundo essencialmente político e não comercial da agressão desmedida.

Se isso não fosse verdadeiro, o documento encaminhado pelo presidente Lula, quando do anúncio da aplicação da tarifa recíproca de 10%, em abril de 2025, não teria sido solenemente ignorado, pelas autoridades americanas, adequadamente orientadas pelo chefe de governo.

Mais até, por ocasião da decisão de julho de 2025, o ex-presidente Bolsonaro não seria agraciado com o recebimento de carta de solidariedade nem os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), “insensíveis” às demandas dos golpistas e respectivas gangues políticas, fantasiadas de patriotas, teriam seus vistos para ingresso em território americano revogados.

Outras motivações para o emprego da bomba tarifária também corroboram a argumentação da natureza política da punição, em especial os acenos das autoridades brasileiras ao Irã, desafeto do Tio Sam, e a coordenação e defesa da substituição do dólar em transações comerciais e financeiras no âmbito do Brics.

Mesmo considerando que o comportamento “normal” de Trump é caracterizado por avanços e recuos desnorteantes, até para os cidadãos americanos, em um estilo quase idêntico ao “morde e assopra”, pareceria prudente não contar nem menos com o adiamento da entrada em vigor do novo choque de tarifas.

A esperança de mais um “TACO trade” (Trump Always Chickens Out, sigla em inglês), ou uma espécie de sinônimo de “Trump sempre volta atrás” pode dar com os “burros n´água”, se o comandante da fortaleza optar pelo Brasil como dura lição a ser apreendida. 

Em paralelo, a escolha de utilização de contrapartidas, amparada na Lei de Reciprocidade, é igualmente desaconselhável, em razão dos inevitáveis contra-ataques, notadamente pelo caráter ainda extremamente fechado do mercado interno brasileiro, mesmo com a abertura comercial promovida desde a década de 1990, no âmbito de outros aprimoramentos estruturais.

Um ensaio de caminho a ser percorrido vem sendo sinalizado pelo vice-presidente da república, Geraldo Alckmin, responsável pelos diálogos e o levantamento de iniciativas propositivas junto à comunidade empresarial, reside na indução dos importadores norte-americanos de produtos made in Brazil ao exercício de pressão junto ao staff de Trump, amparado na justificativa de pronunciado desarranjo das cadeias de suco de laranja, carne e pescados, por exemplo.

Ainda assim, esse tipo de ação esbarra nas barreiras de ordem política, ensejando a criação de outros vetores de retaliação, como a demonstração de incômodo com o sucesso das operações finalizadas por meio do pix e a suposta pirataria praticada na rua 25 de março.

Há também a cobiça dos minerais tidos como vitais, como nióbio e lítio, cuja exploração estaria sendo negligenciada pela administração de Lula, e das terras raras, explicitada pelo responsável de negócios da embaixada americana, Gabriel Escobar, em encontro com os responsáveis pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), organização de caráter privado, presidida pelo Ex-Ministro dos governos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Michel Temer, Raul Jungmann.

As terras raras são formadas por 17 elementos químicos – com acréscimo do escândio e do lítio – fundamentais à fabricação de chips, radares, turbinas de aviões, painéis solares, dentre outros produtos, sendo que o Brasil possui ¼ das reservas mundiais – e responde por 1% da produção, e também é considerado rico em lítio, silício e nióbio (maior ex5tração no planeta), empregados na fabricação de baterias e semicondutores -, atrás apenas da China, que, por seu turno, atende 80% da demanda dos EUA, que,  exatamente por isso, estão empenhados na diversificação do suprimento.

De outra parte, a sugestão alternativa, cultivada por membros relevantes do poder executivo, de envio de equipe de alto nível aos EUA pode esbarrar em portas fechadas, a não ser que esteja municiada por propostas contundentes e de ampla envergadura para serem colocadas à mesa de discussões, como a tributação das big techs.

Em circunstâncias extremamente díspares, carregadas de tensões unilaterais, que extrapolam o terreno da lógica econômica, provocadas pela ainda maior e mais aberta economia do planeta, tratativas vêm sendo encaminhadas e resoluções obtidas pelos representantes de Trump junto a algumas nações, visando à contração do desequilíbrio comercial de US$ 1,21 amargado pelos EUA, em 2024 e outros ganhos estruturais significativos.

A título de ilustração, o nocaute ucraniano aconteceu em fevereiro de 2025, depois dos insultos contra o presidente Volodymyr Zelensky, na sala de imprensa da Casa Branca, e da chantagem de suspensão da ajuda militar no conflito com a Rússia, tendo Trump conseguido, pouco tempo depois, carta branca para acesso aos minerais críticos como manganês, ferro, lítio titânio e urânio, da Ucrânia.

Particularmente os países asiáticos, como Japão, Indonésia, Filipinas e Vietnã, efetuaram não poucas concessões no quesito liberalização de mercados, com redução ou até eliminação de obstáculos tarifários e não tarifários e promessa de migração de inversões produtivas.

O Vietnã, que contabilizou superávit de US$ 123,5 bilhões com os americanos, em 2024, e seria penalizado com alíquota do imposto de importação de 46%, deverá pagar 20% (contra os 10% anteriores, piso do pedágio para adentrar no mercado americano) e 40% para a transferência de mercadorias de outros países. Nesse aspecto o alvo principal é a China, que desde o primeiro mandato de Trump, multiplicou o investimento fabril do Vietnã para fugir da artilharia americana.

Enquanto isso, serão cobradas tarifas de 19%, para aos produtos das Filipinas versus 20% da definição inicial, em troca do desmanche protecionista, e também de 19% para mercadorias e serviços da Indonésia, contra 32% antes, tendo como sentença o desmonte do aparato não tarifário.

No que tange ao Japão, com saldo comercial de US$ 63 bilhões com os EUA, o acerto foi mais expressivo, com taxação de 15%, em vez de 20%, com diminuição de 25% para 15%, para veículos e peças, menor do que o mais importante parceiro, o México, com a condição de efetivação de investimentos de US$ 550 bilhões em território americano.

Quanto ao enquadramento preliminar ou a rendição ao poder sem freio acusado pela União Europeia – que havia engatilhado um programa de US$ 90 bilhões em represálias -, carente de aprovação pelos 27 membros do bloco, equivale ao grande triunfo de Trump nas contendas.

Haverá a promoção de tarifas de importação de 15% sobre os produtos europeus, ao invés dos 30%, sobre os atuais 10%, incluindo os veículos, que pagam 27,5%, taxação zero de parcela expressiva de produtos americanos exportados para o continente – commodities, aeronaves, componentes, químicos, genéricos e equipamentos de semicondutores -, além do compromisso de realização de inversões de US$ 600 bilhões nos EUA e compras de US$ 750 bilhões de gás natural liquefeito, petróleo e combustível nuclear.

Isso pode atrapalhar a vida da Rússia e a viabilização do acordo UE-Mercosul, fechado em dezembro de 2024, em evento em Montevidéu, que prevê aquisição de 450 mil toneladas de gás com tarifa reduzida, e multiplicar as resistências de produtores rurais europeus ao ingresso de produtos dos complexos carnes e sucroalcooleiro ofertados pelos países do Sul.

No entanto, os diálogos com a China, avaliado como briga de cachorro grande, o que requer “guerra de guerrilha”, quase não andou. O prazo chinês expira em 12 de agosto, com a ameaça de gravame interino de 30%, que deverá ser prorrogado, com o agrado da autorização para comercialização de chips última geração da Nvidia, brecada desde os tempos de Biden.

No pior dos mundos, em caso do desfecho provável, resumido na não ocorrência de avanços nos entendimentos ou destrave dos canais de comunicação com o Brasil, soa recomendável, em curto termo, a organização de criteriosas estratégias fiscais de ajuda e compensação, mesmo que transitória, aos segmentos produtivos afetados pelo trumpismo irracional, já aventadas pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Urge também o fortalecimento dos fundamentos fiscais da estabilização macroeconômica, de modo a debelar focos inflacionários e induzir rota cadente dos juros e do custo do crédito, nas diferentes modalidades, descolados de bandeiras eleitoreiras.

Já, em média maturação, será indispensável a perseguição da celebração de novos acordos comerciais e da maior pulverização dos destinos das vendas externas, no afã de diminuir a subordinação aos EUA como segundo mercado mais importante, atrás apenas da China.

Como se vê, Trump está vencendo os principais combates da conflagração comercial. Resta aguardar o desenlace das conversações com o Brasil, que, a rigor, não se verificaram, inclusive na área da diplomacia, e o tamanho da ousadia punitiva de 1º de agosto.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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