E o Brasil não se curvou aos “Voluntários da Pátria”

E o Brasil não se curvou aos “Voluntários da Pátria”
Gilmar Mendes Lourenço.

Em contraste com o desfecho preliminar da guerra comercial promovida pelos Estados Unidos (EUA) com as demais nações e blocos, abarcando também aliados históricos, o tarifaço mitigado, aplicado pelo governo do presidente Donald Trump ao Brasil, que “deve” começar a valer a partir do dia 6 de agosto, não advém de qualquer tipo de negociação.

Até porque, desde a divulgação inicial da pancada, por um lado, o mandatário norte-americano não oportunizou nenhum espaço para diálogos, discussões, interlocuções e entendimentos, e, por outro, as instituições brasileiras (executivo, legislativo e judiciário) não cederam um milímetro sequer ao assédio de natureza política perpetrado por Trump.

Afinal, para o bem ou para o mal, o Brasil optou por não se curvar à vassalagem. Rechaçou, por exemplo, a reprodução da vergonhosa submissão da União Europeia, que, em flagrante esfacelamento e deterioração macroeconômica, política e institucional, “latiu muito” em vez de se defender.

Em paralelo, em demonstração cabal de ausência de ideias e pressupostos consistentes, antecedentes às incursões, ou de percepção superficial da realidade, pelo incumbente da maior potência, proliferaram acusações genéricas contra o Brasil de violação de direitos humanos e de eleições livres, além da perseguição a empresas de “vanguarda” e de atrapalho à penetração internacional dos EUA, verbalizadas pelos secretários de Estado e do Tesouro daquela nação.

A rigor, o filhote preferido da ultradireita mundial do século 21 assumiu o papel de organizador e coordenador da tentativa de ressurreição, com figurino um pouco diferente, dos episódios que antecederam o 08 de janeiro de 2023, no Brasil, resumidos em iniciativas de supressão da democracia, em uma imitação da invasão do Capitólio, no princípio de 2021, pela turba trumpista, em veemente negação dos preceitos do sufrágio universal e, no limite, na criminalização do voto e da participação política da população.

Paradoxalmente, a democracia preconiza, dentre outras qualidades, o reconhecimento de derrotas eleitorais, algo que não faz parte do cotidiano dos orientandos de Steve Bannon, o verdadeiro feiticeiro da adesão e doutrinação de massas dirigidas à prática do extremismo conservador.

Nesse contexto, bolhas digitais passam a ser abastecidas pela produção e disseminação de notícias falsas e desinformação e estimuladas à maximização da performance virtual, completamente desatrelada de diálogos racionais e centrada em agressões e comunicações de ódio.

Mais do que isso, persiste, nesse tipo de reduto, retóricas opressoras, antagônicas aos empreendimentos públicos endereçados à diminuição da desigualdade funcional na apropriação do produto social, que, por essa abordagem, deixaram de integrar os mecanismos distributivos subjacentes à social democracia e passaram a ser “coisa de comunista”.

Esse tipo de conduta incentiva o desmantelamento da fortaleza de consensos civilizatórios seculares da democracia, a corrosão do espírito de pluralidade com contrapontos críticos e o desaparecimento das condições mínimas e indispensáveis à discussão pública portadora de princípios, regras e, sobretudo, posturas de racionalidade.

Basta mencionar a patacoada dos seguidores de Bolsonaro, em 26 maio de 2019, que, em sendo incitados pelo capitão mor, então na presidência, ocuparam as ruas do país em protestos contra o “sistema”, curiosamente ocupado pelo chefão por mais de 20 anos, quando fazia parte do “baixo clero” da Câmara dos Deputados.

No caso brasileiro, a ofensiva do chefe americano possui ligação apenas residual com a proteção de interesses comerciais dos EUA, que, na mais benevolente das análises, representariam uma espécie de disfarce para o alcance de objetivos imperialistas, na direção da derrubada da soberania de uma república absolutamente independente.

O vetor de intromissão vem sendo construído com apoio irrestrito de entes locais peçonhentos, conspiradores e autoproclamados de “voluntários da pátria”, só que às avessas, que tem tudo para virarem “bucha de canhão” da fracassada ofensiva institucional trumpista.

Em vez de configurar intransigente cuidado com os pilares da democracia e a salvação da pátria dos perenes dissabores ocasionados por supostos corruptos de esquerda, os atos, orquestrados e ativados de fora para dentro, visam exclusivamente o livramento do juízo e condenação do patriarca do time, suficientemente preso na teia de graves infrações institucionais, sendo fã incondicional de torturadores e germe da ditadura.

Catapultados de um condomínio familiar brasileiro, os seres acomodam-se em território povoado e dominado por venerados “super-heróis”, sendo bancados por uma legião de devotos cativos e autênticos analfabetos funcionais, mediante transferências efetuadas pelo demonizado pix.

Mais especificamente, a conspiração exógena contra a marcha normal da política e economia nacional tem como “cabeças” Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo Partido Liberal (PL), por São Paulo, e Paulo Figueiredo, blogueiro e neto do último presidente dos “tempos de chumbo” no Brasil, o general João Batista de Oliveira Figueiredo, entre 1979 e 1985, aquele mesmo que não forjou nenhum sinal de constrangimento ao afirmar, em público, que “preferia odor equino ao cheiro do povo”.

Parece conveniente sublinhar com respeito ao pix, que, mesmo elogiado e engrandecido pelo economista Paul Krugmann, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2008, o expediente que enseja a feitura de transações instantâneas, criado pelo Banco Central do Brasil (BC), provoca substanciais prejuízos às empresas operadoras de cartões de crédito e débito de “pequeno porte” de bandeira americana.

A avalanche trumpista contra o Brasil repousa em elementos políticos, institucionais e geopolíticos. Na órbita política, a intenção precípua engloba a busca de interferência no funcionamento de um dos pilares do estado democrático brasileiro, precisamente com a implementação de penalidades financeiras previstas na Lei Magnitsky – reservada a assassinos, terroristas, traficantes, ditadores e violadores de direitos humanos -, ao Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.

A causa primária da punição reside na forma e conteúdo da investigação do empreendimento do golpe de estado, concebido, em 2022 (há que defenda que o embrião teria surgido em 2019), e no monitoramento da atuação perniciosa e de regulamentação frouxa, “livre, leve e solta”, passível de responsabilização, das companhias privadas conhecidas como big techs e data centers, com matriz nos EUA, e seus algoritmos estatísticos.

A penalização imposta a Moraes embute a esperança de reversão da conduta das autoridades judiciárias no transcorrer do julgamento dos acusados de conspiração contra o desenlace das urnas, em 2022, no afã de anular o desejo popular transmitido por eleições livres.

Haveria igualmente a crença de aprovação da anistia aos infratores – que sorrateiramente se colocam como turistas circunstanciais, em trânsito na capital federal, na semana seguinte à posse de Lula 3 -, e de montagem de um ciclo eleitoral virtuoso ao postulante da extrema-direita, para o calendário de 2026.

A vertente institucional do comportamento de Trump consiste em reprimir as ações de Lula e demais integrantes do Brics, voltadas ao enfraquecimento do dólar como referência comercial e financeira e emprego de um padrão monetário do grupo na realização e liquidação de transações.

No terreno geopolítico, prevalece o propósito, não tão velado, de promoção do deslocamento dos mais importantes mercados emergentes da crescente órbita de influência da China e da Rússia e, por extensão, do erguimento e consolidação de encadeamentos políticos mais encorpados com Pequim e Moscou, em meio ao flagrante redesenho rumo a uma ordem multipolar das relações de poder.

Especificamente em relação ao tarifaço – ou, como querem alguns, sanções comerciais -, “até agora explicitado”, na medida em que, em se tratando de Trump, é recomendável permanecer no aguardo de mudanças, para pior ou para melhor, este denota dureza sem, no entanto, constituir o “fim do mundo”.

De fato, a ameaça de tsunami transformou-se em forte ventania, pois, provavelmente em atendimento a pressões domésticas, o decreto de super taxação de 30 de julho de 2025, deixou de fora cerca de 700 itens, com alguns grupos de produtos relevantes.

Dentre eles sobressai suco de laranja, castanha, aeronaves, combustíveis, petróleo, celulose, siderurgia, metalurgia e máquinas e equipamentos. Não por acidente, no dia da proclamação do teor do decreto, as cotações dos papéis da Embraer, Suzano e Weg esboçaram rota ascendente.

Só que a aparente vitória temporária não deve obscurecer esforços de cautela e estruturação das táticas de curto, médio e longo prazo. É prudente observar e reiterar que o conjunto de isenções está em estreita sintonia com demandas de companhias americanas, como acontecido nas concessões incorporadas nos acordos com outras nações.

Daqueles produtos que restaram vitimados pela sobretaxação, sem a sinalização de adoção de nenhum tipo de alívio, e que ostentam expressivo peso na pauta de vendas externas brasileiras e possuem desdobramentos propagadores dinâmicos em diversas cadeias de valor, destacam-se café, calçados, plásticos, frutas frescas, cerâmicas, partes de madeira, armas, madeira compensada, pescado, dentre outros.

Para estes, avalia-se que os estragos nos níveis produção, renda e ocupação de mão de obra deverão ser expressivos, o que, de pronto, os coloca no elenco de segmentos produtivos a serem contemplados com providências de políticas públicas anticíclicas.

Apenas a título de ilustração, há diversos relatos dos esforços feitos, durante anos, por pequenas e médias empresas, para a conquista de clientes no mercado americano, que, de uma hora para outra, se viram privadas do principal destino de comercialização de sua produção, sendo que algumas delas consubstanciam o “pulmão” econômico de não poucos pequenos municípios.

Por tudo isso, com base na hipótese bastante forte de que as encrencas com Trump devem perdurar ao menos até o fim das eleições de 2026, urge o escape da truculência, de lá e de cá, e a recomposição do papel basilar do centro democrático do espectro político.

No front econômico, afigura-se crucial o aproveitamento da blindagem proporcionada pelo estágio de persistente robustecimento do mercado interno, amparado na contínua recuperação do consumo das famílias, apesar da bolha de endividamento engendrada pelos juros fora da curva.

A maior extensão da demanda privada tem sido induzida pela intensificação dos programas de proteção social e evidenciada pela constatação do piso e teto histórico do desemprego e da renda média dos trabalhadores, respectivamente, no segundo trimestre de 2025, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE.

O ambiente de dinamismo da absorção endógena pode ser corroborado também pela retirada do Brasil do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), a partir da estimativa de menos de 2,5% da população, ou 8,4 milhões de pessoas, em condições de subalimentação, em 2024.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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