Economia real e tensões institucionais

Gilmar Mendes Lourenço.
A queda de -0,2% da produção industrial brasileira, em julho de 2025, em relação ao mês de junho, apurada pelo IBGE, evidencia o delineamento de um processo desaceleração da velocidade de expansão da economia, em curso desde o segundo semestre de 2022, sustentada pela recuperação da renda e do emprego, associada à combinação entre esforço exportador e adensamento dos programas públicos de proteção à população vulnerável.
A par disso, as variáveis de desempenho industrial, acompanhadas por pesquisa mensal feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), demostraram estabilidade na passagem de junho para julho, depois do arrefecimento apresentado ao longo do primeiro semestre.
Ainda assim, a massa de salários e o rendimento médio real amargaram recuo de -1,9% e -2,1%, respectivamente, nos primeiros sete meses do ano em confronto com igual intervalo de 2024, e o grau de utilização da capacidade instalada diminuiu -1,6%, em um ano.
É fácil perceber os componentes de exaustão desse movimento virtuoso por conta da subida persistente das necessidades de financiamento e da dívida do setor público e dos escorchantes juros, estabelecidos pela autoridade monetária para o combate de uma espécie de moinho de vento de inflação de demanda, principal referência à rolagem dos passivos governamentais.
Aliás, considerando a inflação média ao consumidor de cerca de 7% ao ano desde o lançamento do real, em julho de 1994, é lícito admitir o exagero embutido na meta de 3%, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), com faixa de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos, balizadora da orientação monetária.
Esse raciocínio pode ser entendido pela constatação de variação de 5,13%, em doze meses findos em agosto de 2025, do índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), do IBGE, termômetro oficial da marcha inflacionária e âncora do regime de metas do BC.
A expressiva dimensão da fatia reservada ao estado no volume de recursos captados pelas entidades financeiras e a natureza extremamente oligopolizada do sistema bancário nacional servem para catapultar o preço do crédito contratado por empresas e consumidores.
Só que o quadro agudo de restrições de caráter fiscal e monetário se fazia presente mesmo nos estágios de encorpado crescimento dos níveis de atividade, ensejando inclusive a realização de precipitados diagnósticos de uma imunidade dos negócios à escalada dos juros e/ou de compensação da ortodoxia do Banco Central (BC) por meio de frouxidão da política fiscal.
Não obstante, tratam-se de argumentos superficiais para explicar tanto a resistência dos patamares de produção e emprego por prolongado período temporal quanto o esboço de resposta dos agentes à austeridade monetária determinada exclusivamente pela via dos juros.
A decifragem do fenômeno do teimoso avanço e da regressão dos negócios exige a compreensão e, principalmente, aplicação de um conceito que os economistas importaram da física, expresso no “equilíbrio instável”, que se traduz permanentemente na movimentação das peças da matriz de preços relativos.
Na verdade, o sistema de geração e apropriação do produto social se notabiliza pelo desalinhamento do conjunto de macro preços, constituído por salários, juros, lucros, aluguéis, tarifas e itens administrados, tributos e câmbio, que representam as forças que conferem direcionamento à contenda distributiva.
Nas circunstâncias atuais, até exercícios econométricos menos sofisticados permitem apreender a flagrante desarrumação daquelas cartas avaliadas como essenciais aos expedientes de “administração da casa”, ou οἰκονομία, origem etimológica grega da palavra economia.
O pior é que, rotineiramente, a bagunça acontece em benefício da articulação promíscua entre encurtamento dos prazos de rolagem do crescente déficit público, estratosférica carga de impostos, taxas, contribuições e tarifas e rentabilidade recorde das instituições bancárias, e em prejuízo da massa de rendimentos do trabalho – tapeado com a concessão dos benefícios sociais – e das margens de rentabilidade das firmas produtivas.
Apenas a título de ilustração, é prudente refletir acerca dos juros reais básicos brasileiros, que ostentam a segunda colocação no mundo, atrás apenas dos turcos, da rentabilidade bancária, a maior do planeta, e da carga tributária, a mais elevada do elenco de países de renda média, que, em esquema de sintonia fina, colaboram para desestimular as decisões de consumo e a deflagração dos projetos de investimentos em ativo fixo.
Tanto que a taxa de investimento, ou as inversões em máquinas, equipamentos e instalações, que atendem à finalidade de ampliação continuada da capacidade produtiva do organismo econômico, mantém-se encalhada em 17% do produto interno bruto (PIB).
Com isso, a formação de capital situa-se longe do pico, pouco superior a 20% do PIB, contabilizado nas gestões de Fernando Henrique Cardoso (FHC) 1, em 1995, Lula 2 (2010) e Dilma 1 (2013), e próximos do piso de 15% do PIB, observado durante a maior recessão da história da república, em 2015 e 2016, e o escape para a estagnação, entre 2017 e 2019.
Por essa ordem de interpretação, não há saída fácil para a perda de embalo econômico que se configura, a não ser a ferrenha perseguição da estabilidade macro, o que soa pouco provável em época de antecipação das pelejas eleitorais, em clima de agudização da polarização, marca registrada das condutas em campanhas políticas na última década no Brasil.
Igualmente indispensável seria o resgate dos compromissos com a viabilização de robustos empreendimentos de reformas estruturais, capazes de restabelecer a operacionalidade do estado e garantir o fortalecimento e consolidação dos ganhos de eficiência da microeconomia.
Porém, esse segundo grupo de tarefas esbarra nas quase que intransponíveis barreiras ao diálogo e entendimento político, erguidas por outro tipo de disfunção, tão grave quanto a dos preços relativos, assentada em autêntica guerra travada entre os poderes constituídos, na direção de renovadas demonstrações de independência, quando a soberania representa um atributo do estado, reforçadas pelo rigoroso cumprimento de incumbências específicas e cruciais de cada um dos elementos.
A percepção dessa anomalia tem incitado a disseminação do mau humor entre os atores econômicos, precipitado a maximização das incertezas e exacerbado as expectativas negativas que, somadas à trincheira dos juros elevados, vem começando a afetar negativamente a operação do lado real do aparelho econômico.
Nessa perspectiva, enquanto o executivo, de propensão progressista, localizado nos perímetros da centro-esquerda do espectro ideológico, emite inequívocos sinais de anseio populista pelo adiamento ad eternum do ajuste fiscal, o parlamento, predominantemente de centro-direita – englobando liberais em crise de identidade e no limiar da desocupação do armário e embarque imediato no navio da extrema-direita -, acrescentou, à bandeira contra o ativismo do judiciário, a performance do “pintar e bordar”.
Mais especificamente, como se não bastassem os incontáveis equívocos e omissões, brotados de insuficiente qualificação ou mesmo de propósitos fora da nobreza, como a desidratação das regras eleitorais, o perdão às agremiações partidárias infratoras e o alargamento dos haveres alocados nos fundos partidário e eleitoral, os perturbadores do caminho da redemocratização flutuante brasileira estariam ultrapassando todos os limites de tolerância civilizatória.
Mesmo que relativizado o evento de absorção da formulação e execução da peça orçamentária, anabolizado pela multiplicação dos valores das emendas individuais e coletivas, que prejudicam o cumprimento das iniciativas públicas, acordadas pela plataforma vencedora nas urnas, e comprimem as alocações para investimentos, as escancaradas incursões recentes contra a democracia são absolutamente abomináveis e inaceitáveis.
Em evidente comprovação de desinteresse pela discussão madura de temas subjacentes às prioridades nacionais, manifestada pela esmagadora maioria da população, os membros do legislativo, em rotineiro momento de insensatez desejam a habilitação para a destituição de diretores do BC e, em consequência, a derrubada da autonomia do eixo principal da estabilidade monetária.
Em outra investida delirante, ou denodado esforço em causa própria, deputados cometem o atrevimento de cogitar a rápida tramitação e aprovação, dentre outras imoralidades, de proposta de anistia a todos aqueles insurgentes, visíveis ou ocultos, contra o estado de direito, que externaram a vontade de anulação dos resultados de segundo turno das eleições presidenciais de 2022, derivados principalmente da vontade dos mais pobres.
Mais do que isso, planejaram meticulosamente, ainda que de forma bizarra e destituída de competência e apoio amplo no interior da caserna, a supressão das regras democráticas e induziram, com a ajuda de milícias digitais, uma multidão de inconformados com o desfecho do pleito – uma massa de manobra -, a acamparem defronte aos quartéis do exército, sob a proteção ou omissão dos comandantes, e invadirem e depredarem instalações dos prédios públicos da capital federal, em nome da tomada de poder.
A concretização da modalidade de excrecência reproduzida na anistia aos idealizadores e executores da fracassada trama significará a emissão do green card para o golpismo, como mencionou com propriedade a jornalista Flávia Oliveira, e o despejo no lixo do denodado trabalho realizado pelos integrantes da Polícia Federal, Ministério Público e Supremo Tribunal Federal (STF), em suprimento dos clamores populares em defesa das instituições e rechace de atitudes destinadas à subversão dos princípios democráticos.
Por ser integralmente inconstitucional, alheia aos interesses dos brasileiros, desprovida de qualquer fragmento de legalidade e racionalidade e um cheque em branco para novas rodadas de golpes, a ação perniciosa dos congressistas desavisados ou mal-intencionados deve ser veementemente peitada.
Aliás, comportamentos racionais é o que menos se vê no meio legislativo – hipertrofiado e reduto da vanguarda do atraso, ocupada com a otimização de privilégios e negociatas privadas às escondidas -, eminentemente marcado por posturas de seres despreparados, de costas para a sociedade, comprometidos com a produção de recortes inflamados para postagem nas redes sociais, constantes propagadores do “morango do terror” e adeptos incondicionais da liberdade de conspiração e de suicídios institucionais.
Esses disparates, voltados à destruição da democracia, precisam de resposta à altura, sintetizada, em um primeiro instante, na condenação, com firmeza e destituída de espírito de vingança, dos arautos do autoritarismo, que, por aqui, não costumam aceitar malogros nas urnas e fazer oposição programática, enquanto aguardam o embate eleitoral subsequente.
Ao contrário, escolhem o incentivo à fúria de fervorosos adeptos de ideias estapafúrdias, habituados a prostarem-se de joelhos em frente a altares improvisados com pneus, vibrantes portadores de bandeiras dos Estados Unidos (EUA) e de Israel, justamente na comemoração do dia da independência do Brasil, em desesperado clamor pela restauração da liberdade de expressão, paradoxalmente por eles exercida ao extremo.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








