Reforma Tributária no varejo: maior inimigo não será o imposto, mas o produto mal cadastrado

Reforma Tributária no varejo: maior inimigo não será o imposto, mas o produto mal cadastrado

Especialista mostra impacto das mudanças para setor e orienta como se adaptar

O varejo brasileiro aprendeu a sobreviver em meio a um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. Alíquotas sobrepostas, legislações estaduais conflitantes, exceções municipais e uma infinidade de códigos fiscais transformaram o simples ato de vender uma camiseta, por exemplo, em um exercício de engenharia de dados.

E, pela primeira vez em décadas, esse sistema de consumo começa a ser redesenhado com a nova Reforma Tributária, uma mudança que chega direto ao balcão, ao estoque, à nota fiscal e ao caixa. A promessa é de mais transparência, porém com uma dependência muito maior de tecnologia.

Para lojas de moda, calçados, acessórios e comércio em geral, a reforma muda como cada produto será cadastrado, tributado, vendido e registrado no fisco. A afirmação é de Chrystian Scanferla, Head de Negócios da IRRAH Tech, empresa que desenvolve IA aplicada ao atendimento, automação de processos e digitalização de pequenas e médias empresas, presente em mais de 70 países.

Na prática, a reforma substitui cinco tributos que hoje compõem o preço de praticamente tudo no varejo — PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS. Em seu lugar, passam a ser implementados de forma gradual dois impostos sobre valor agregado: a CBS (federal) e o IBS (estadual e municipal). Juntos, esses tributos constituem a base do IVA brasileiro (Imposto sobre Valor Agregado), cuja implementação plena está prevista para 2033.

Chrystian Scanferla, Head de Negócios da IRRAH.

“O Brasil passa a adotar um modelo próximo ao que já funciona na Europa e em economias avançadas, onde o imposto incide sobre o valor que cada empresa agrega ao produto ao longo da cadeia. Isso muda o jogo para o varejo”, destaca Scanferla.

Ainda segundo o Head, “não existirá mais aquele emaranhado de nomenclaturas de tributos que ninguém entende direito, o que facilitará a apuração e compensação. Porém, de outro lado, cada venda precisará estar perfeitamente classificada e registrada, porque o sistema passa a validar tudo em tempo real”.

Ele explica que, no modelo antigo, o varejo trabalhava com CST (Código de Situação Tributária). Agora, surge uma classificação nacional padronizada, que define como IBS e CBS incidem sobre cada item comercializado.

Isso inaugura um novo tipo de risco operacional no varejo: o risco do dado incorreto. “Em um sistema tributário altamente automatizado, integrado e auditável, erros cadastrais podem ter impacto direto sobre a operação e o caixa das empresas”.

Na prática, o maior desafio do varejo em 2026 não será apenas a alíquota do imposto, mas a qualidade das informações que alimentam os sistemas fiscais. Um cadastro mal estruturado pode gerar tributação indevida, bloqueios fiscais e interrupções na cadeia de vendas.

“A reforma correlaciona saída e entrada, transforma dados em lucro, custo ou prejuízo, porque tudo passa a incidir automaticamente em impostos. O lançamento de um produto, por exemplo, depende de um cadastro absolutamente correto. Um único código errado pode bloquear a emissão da nota fiscal, paralisar a venda e interromper o fluxo de caixa”, afirma o executivo.

Segundo Scanferla, o sistema KIGI ERP, que atende o varejo, foi redesenhado para absorver essa nova lógica fiscal. “A reforma tributária não é um problema fiscal, é um desafio de gestão. Ela expõe quem realmente controla seus dados, seu estoque e sua margem, e quem opera no escuro. Ela muda o jeito como o lojista acompanha sua margem. E quem tiver tecnologia para fazer isso de forma inteligente ganha velocidade.”

O cronograma da reforma não atinge todo mundo ao mesmo tempo. A partir de janeiro, as empresas enquadradas nos regimes tributários do Lucro Real e Lucro Presumido, já começam a emitir notas fiscais dentro do novo modelo de IBS e CBS. Será um ano de testes, mas os documentos já precisam estar certos.

Já para as no Simples Nacional, a obrigatoriedade só chega em 2027.

Mas, segundo Scanferla, isso não significa que dá para ignorar 2026. Na rotina da loja, três pontos passam a ser críticos:

  1. Cadastro de produtos
    Cada item precisa estar corretamente classificado. Se errar, não vende.
  2. Emissão de nota fiscal
    A nota passa a validar IBS e CBS em tempo real. Sistemas antigos não acompanham isso.
  3. Margem real de lucro
    Com o IVA, o imposto vira parte da estrutura de preço. Quem não acompanha a margem em tempo real começa a vender sem saber se está ganhando ou perdendo dinheiro.

“Assim, o KIGI ERP passa a atuar exatamente nesses três pontos: estoque, nota e rentabilidade, absorvendo os novos códigos tributários, validando notas em tempo real e transformando dados fiscais em indicadores de rentabilidade”, explica o profissional da IRRAH Tech.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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