Conselho ganha protagonismo na mediação de conflitos em empresas familiares
Estrutura ajuda a equilibrar relações, preservar o negócio e garantir decisões mais racionais, especialmente em processos de sucessão
Em empresas familiares, relações pessoais e interesses corporativos frequentemente se misturam. Neste cenário, acordos de sócios e conselhos têm assumido um papel estratégico na moderação de conflitos.
De acordo com o advogado Idevan Lopes, fundador da Corporatio Governança e Sucessão e presidente da Confraria de Conselheiros e Governança, sediada em Curitiba, a atuação do conselheiro deve sempre estar alinhada ao interesse da empresa. “Quando a disputa permanece no âmbito familiar, fora do negócio, não cabe intervenção. Mas, quando impacta a companhia, o conselho pode e deve atuar como mediador”, explica.
Os conflitos mais comuns nesse tipo de organização envolvem disputa por poder, ausência de critérios claros de sucessão, sobreposição entre papéis familiares e profissionais e divergências sobre distribuição de resultados. Segundo a headhunter Simone Turra, diretora da 4Search, essas situações acabam contaminando decisões estratégicas, tornando a gestão menos eficiente e mais suscetível a desgastes. “Sem regras claras, prevalecem relações informais de poder, o que pode comprometer a meritocracia, afastar executivos de mercado e até gerar riscos de ruptura societária”, afirma.
Nesse contexto, instrumentos de governança ganham relevância. Os Acordos de Sócios, por exemplo, estabelecem regras objetivas sobre a participação da família na empresa e ajudam a prevenir conflitos antes mesmo que eles surjam. Já os protocolos familiares ampliam essa organização ao definir diretrizes de convivência que vão além do negócio, incluindo decisões sobre patrimônio e investimentos da própria família. “São ferramentas fundamentais para criar previsibilidade e reduzir tensões”, destaca Idevan, que é especialista em direito societário e governança.
Importância
Nos processos de sucessão, a governança corporativa passa a ter uma importância muito grande, pois possibilita que o conselho de administração ou mesmo familiar possa desenvolver um papel ainda mais decisivo. Cabe ao conselho estabelecer critérios claros, avaliar competências e conduzir a transição de forma planejada e pacífica.
Um caso prático citado por Idevan Lopes ilustra essa atuação: em uma empresa familiar composta por pai e três filhos, havia a expectativa de que um dos herdeiros assumisse o comando, o que gerou desgaste interno. O conselho definiu metas e parâmetros objetivos para a escolha, levando à conclusão de que outro filho estava mais preparado para o cargo, decisão que acabou sendo aceita por todos.
Além de conduzir a sucessão, o conselho familiar também atua na preparação dos futuros líderes, promovendo desenvolvimento, mentoria e exposição a desafios estratégicos. Esse processo contribui para legitimar escolhas e fortalecer a confiança entre os envolvidos, garantindo maior estabilidade para a empresa.
Sem uma governança estruturada, empresas familiares ficam mais vulneráveis a conflitos recorrentes e decisões desalinhadas. Em cenários mais críticos, isso pode levar à fragmentação do negócio ou até à sua venda forçada. Por outro lado, quando bem implementado, o conselho se consolida como um aliado essencial para equilibrar interesses, preservar relações e assegurar a continuidade da empresa ao longo das gerações.
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