Trabalhar mais, render menos: o paradoxo que está custando caro às empresas

Trabalhar mais, render menos: o paradoxo que está custando caro às empresas

Com jornadas cada vez mais intensas e resultados cada vez mais inconsistentes, empresas começam a tratar o burnout não apenas como um problema de saúde

Durante muito tempo, produtividade foi sinônimo de volume. Mais horas, mais entregas, mais pressão. Mas esse modelo começa a dar sinais claros de esgotamento — literalmente. Em um cenário de sobrecarga constante, empresas enfrentam um paradoxo crescente: equipes que trabalham mais, mas produzem menos.

O fenômeno não é isolado. Desde 2019, os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) já classificam o burnout como um fenômeno ocupacional, associado ao estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso. No Brasil, o cenário é ainda mais sensível. Segundo a International Stress Management Association (ISMA-BR), cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a síndrome de burnout, colocando o país entre os níveis mais altos do mundo.

Esse impacto não é apenas humano, é financeiro. De acordo com levantamento da Gallup, colaboradores desengajados ou esgotados podem ser até 18% menos produtivos e apresentam maior taxa de absenteísmo e rotatividade. Em outras palavras, o custo do burnout aparece diretamente na linha de resultado das empresas.

Para Patrícia Suzuki, Diretora de RH da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, o erro está na forma como muitas organizações ainda interpretam produtividade. “Durante anos, produtividade foi confundida com presença e volume de trabalho. Essa percepção não faz sentido no contexto atual que colaboradores exaustos não sustentam performance. O resultado é um ciclo de queda de rendimento, aumento de erros e, muitas vezes, desligamentos evitáveis”, afirma.

Identificar esse problema, no entanto, ainda é um desafio. Diferente dos indicadores tradicionais, o burnout não aparece imediatamente nos dashboards. Ele se manifesta de forma gradual: queda de engajamento, aumento de retrabalho, desmotivação e até conflitos internos.

“O primeiro sinal raramente é um afastamento. É uma mudança de comportamento. O colaborador que antes participava passa a se isolar, quem entregava com consistência começa a oscilar”, explica Patrícia.

Empresas mais maduras começam a adotar uma abordagem preventiva. Isso inclui desde pesquisas de clima mais frequentes até o uso de dados de desempenho cruzados com indicadores de bem-estar. Segundo relatório da Deloitte, organizações que investem em saúde mental têm retorno médio de US$ 4 para cada US$ 1 investido, especialmente pela redução de turnover e absenteísmo.

Mas não se trata apenas de monitorar, é preciso agir. Entre as práticas mais eficazes estão a revisão de metas irreais, a capacitação de lideranças para identificar sinais de esgotamento e a criação de ambientes onde o colaborador se sinta seguro para falar sobre limites.

“Não adianta oferecer benefício se a cultura continua premiando o excesso. O líder precisa ser exemplo”, reforça Patrícia.

Outro ponto está na gestão do tempo e das prioridades. Em muitos casos, o problema não é a carga de trabalho em si, mas a falta de clareza sobre o que realmente importa. “Quando tudo é urgente, nada é estratégico. Empresas que conseguem definir prioridades com clareza tendem a reduzir a sobrecarga e melhorar a qualidade das entregas”, diz.

Para o colaborador, o desafio também passa por reconhecer limites, algo que ainda enfrenta barreiras culturais. A romantização do excesso, muitas vezes associada a comprometimento, começa a ser questionada. E isso muda a relação das pessoas com o trabalho.

O recado é claro: produtividade sustentável não se constrói no limite. Em um mercado cada vez mais competitivo, empresas que conseguirem equilibrar performance e bem-estar não apenas reter talentos — mas também entregarão resultados mais consistentes ao longo do tempo.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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