O que explica a aparente vitalidade do mercado de trabalho

Gilmar Mendes Lourenço.
As estatísticas relativas ao comportamento do mercado de trabalho brasileiro permanecem sugerindo a existência de mecanismos de defesa contra os desdobramentos dos percalços geopolíticos e econômicos externos e os incômodos institucionais domésticos.
Particularmente a exacerbação das incertezas internas vem se traduzindo em recrudescimento das pressões inflacionárias e preservação da conduta conservadora, por parte da autoridade monetária, o que pode ser fatal, em futuro não muito distante, ao desempenho da atividade econômica.
De fato, a taxa de desocupação da mão de obra, levantada a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, foi de 6,1% da força de trabalho, no primeiro trimestre de 2026, o que consubstancia o menor patamar apurado para o período desde o começo da série histórica, em 2012.
Ao mesmo tempo, a massa de rendimentos real e a renda média habitual, ambas com depuração da inflação, cresceram 7,1% e 5,5%, respectivamente, em relação a igual intervalo de 2025, sendo igualmente recordes da trajetória de acompanhamentos, o que poderia sugerir a manutenção da uma marcha vigorosa de geração de emprego e renda.
No entanto, há que advertir as posturas mais entusiasmadas ou mesmo triunfalistas precipitadas por esses resultados, por conta da percepção da natureza pouco sustentável dos elementos determinantes do prosseguimento da reativação econômica aferida, notadamente a partir do final de 2022, baseada em componentes qualitativamente precários.
Por um lado, a impulsão da ocupação e da massa de renda tem a ver com os efeitos irradiadores das exportações, a despeito da agudização das restrições exógenas, em especial com os ataques de Estados Unidos (EUA) e Israel ao Irã e o imediato fechamento do Estreito de Ormuz, que comprometem irremediavelmente, em curto e médio prazo, o fluxo operacional de incontáveis cadeias de suprimento de matérias primas e bens finais, notadamente de petróleo e derivados, insumos para a fabricação de fertilizantes e alimentos.
Ainda assim, a vendas externas do país aumentaram 7,1%, em dólares, entre janeiro e março de 2026, em comparação com idêntico intervalo do ano anterior, puxadas pela indústria extrativa (21,6%), notadamente petróleo e minério de ferro – por causa do conflito no Irã e da demanda chinesa, ancorada na multiplicação de investimentos em infraestrutura -, responsáveis por ¼ do valor total, suplantando o agronegócio, que representou 20,9%.
Decerto que há expressivo efeito-preço nesta performance, pois, de acordo com inferências do Banco Central (BC), as cotações globais das commodities subiram 7,8%, nos três primeiros meses de 2026, com acréscimo de 29,1%, para as energéticas, 15,9%, para as metálicas, e de 0,3%, para as agropecuárias.
Por outro lado, a vitalidade das ocupações vem sendo apoiada em um pilar endógeno extremamente frágil, sintetizado na pronunciada expansão fiscal direcionada prioritariamente ao alargamento da abrangência das iniciativas oficiais de proteção social, sendo que parcela expressiva, configurada nos benefícios previdenciários, tem sido afetada positivamente pela restauração da política de valorização do salário mínimo.
Diga-se de passagem, que o eixo monetário também colaborou para a conformação de um panorama de aquecimento da economia, mediante a disponibilização de crédito abundante, a contrapartida de juros completamente fora da curva de razoabilidade, que são ingredientes da receita tradicional de endividamento.
Sem entrar no mérito da velha discussão do equilíbrio instável da macroeconomia, caracterizado por uma espécie de compensação ou anteparo, via adoção de juros exorbitantes – alguns preferem chamá-los de pornográficos -, das tensões inflacionárias produzidas pela frouxidão orçamentária, patrocinada pelos diferentes níveis de poder e esferas da administração pública, não parece difícil perceber o caráter anômalo do fortalecimento do reduto laboral.
Mais especificamente, trata-se da preservação das relações de informalidade em dimensão superior a terça parte da população ocupada, ou, mais precisamente, 37,3%, o que corresponde a mais de 38 milhões de pessoas, com remuneração real equivalente a 60% daquela auferida pela média dos trabalhadores.
Por isso, o prolongamento da etapa de recuperação do emprego, em paralelo ao progressivo deslocamento de trabalhadores, do espaço não registrado para o reduto com carteira assinada, ou mesmo para a dedicação a tarefas de empreendedorismo formalizado, depende de radical alteração do raio de ação e foco de intervenção dos atores políticos.
Urge a preparação, encaminhamento e discussão, democrática e não demagógica, de propostas voltadas ao longo prazo, englobadas em um projeto de desenvolvimento capaz de reunir prioridades diretamente associadas aos objetivos de implantação de reformas institucionais, imprescindíveis à conjugação virtuosa entre devolução dos requisitos de solvência do setor público e reconquista de ganhos de eficiência duradouros da microeconomia.
Nessa perspectiva, arranjos direcionados à alavancagem de investimentos em educação básica e profissionalizante, por meio da disseminação de iniciativas de capacitação e qualificação, ampliação; modernização e diversificação da infraestrutura; adensamento da retaguarda em ciência, tecnologia e inovação, em linha com a quarta revolução industrial global; além do aproveitamento das enormes oportunidades abertas pela vigência, ainda provisória, do acordo de liberalização comercial assinado entre Mercosul e União Europeia, devem ocupar lugar de destaque na fila de temas relevantes.
Só que a observação de prevalência de um jogo de interesses que, deliberadamente, exclui a construção de margens de manobra visando à abertura de espaços para diálogos e entendimentos maduros, marcante no atual ciclo eleitoral, desautoriza o acalento de qualquer tipo de esperança de delineamento de rumos menos nebulosos.
Não soa circunstancial a anotação do contínuo declínio da fatia nacional no bolo econômico mundial, depois do esgotamento da etapa de quase cinco décadas de industrialização por substituição de importações, com forte presença e participação do estado desenvolvimentista, depois dos anos 1970.
Medições feitas pelo Fundo Monetário Nacional (FMI) revelam apreciável queda na relação entre a renda per capita brasileira – mensurada por meio da utilização do critério paridade de poder de compra (PPP, em inglês) e as das nações avançadas, em um intervalo de tempo de quatro decênios e meio, recuando de 42,9%, em 1980, para 31,4%, em 2025.
Apenas para não passar em branco ou provocar a equivocada impressão de fuga da conversa séria a respeito dos escandalosos juros cobrados pelas instituições financeiras, fruto primordialmente da concatenação perversa entre passivo governamental e ausência de concorrência efetiva, caberia um breve comentário final.
Predomina o ceticismo nas avaliações cética da incursão oficial direcionada ao desenrolamento das dívidas das famílias de baixa renda, que, na prática, constitui a contenção temporária da doença com a prescrição de remédios populistas, bancados com renovação de dinheiro público.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








