Gangorra industrial e desigualdade social

Gilmar Mendes Lourenço.
A produção fabril nacional registrou incremento de 1,3%, no primeiro trimestre de 2026, em relação a igual período de 2025, o que, à primeira vista, sugeriria a interpretação de razoável acomodação do setor às agruras das turbulências internacionais e à inflexão do mercado doméstico, essa última associada aos ventos contrários da política e aos estragos provocados pelos juros elevados.
Tanto é assim que, das quatro categorias de uso encapadas pelo inquérito do IBGE, três delas experimentaram subida de produção, sendo de 1,7%, para bens intermediários (combustíveis e mineração), 1,6%, para bens duráveis de consumo (impulsionados por automóveis), e 1,8%, para bens de consumo não duráveis e semiduráveis, com destaque para medicamentos.
Em outros termos, a combinação entre o prosseguimento da vitalidade da demanda global, especialmente para petróleo, gás e minério de ferro, por causa da guerra no Oriente Médio e da persistente escalada de inversões chinesas em infraestrutura, e o aquecimento da absorção endógena, explicada principalmente pelo adensamento das iniciativas oficiais inclusivas, configuraria uma espécie de certificado de garantia à dinâmica industrial.
O reforço da proteção social, catapultado pela valorização do salário mínimo, funcionaria como um autêntico anteparo à orientação de austeridade monetária, praticada pelo Banco Central (BC) em nome do questionável propósito de preservação a “ferro e fogo” do regime de metas de inflação, que, inclusive, tem sido incapaz de conter o recrudescimento dos reajustes de preços derivados de choques de oferta e vem rendendo sucessivas rodadas de renegociação de dívidas das famílias, patrocinadas com recursos públicos.
No entanto, chama a atenção que a atmosfera virtuosa compreendeu somente 10 (dez) dos 25 (vinte e cinco) ramos, 26 (vinte e seis) dos 80 grupos e 44,0% dos 789 produtos contemplados pela coleta de informações feita pela entidade nacional de estatística.
Ademais, apurou-se encolhimento de -6,3% na produção de bens de capital, imputado notadamente a equipamentos industriais, máquinas para a agricultura e materiais de transporte, o que oportuniza alinhavar adversidades ligadas à principal variável antecedente do futuro, sintetizada no investimento, duramente castigado pela exacerbação das incertezas mundiais e internas, sendo essas comandadas pelas flutuações políticas e institucionais.
Em tendência menos rósea, levantamento realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), junto a uma amostra significativa de empresas, expressou comportamento desfavorável dos principais itens acompanhados, entre janeiro e março de 2026.
A investigação captou declínio de -4,8%, -1,5% e -0,7% no faturamento real, nas horas trabalhadas na produção e no nível de emprego, respectivamente, e acréscimo de 0,8% e 1,5%, na massa de salários reais e no rendimento médio dos trabalhadores, respectivamente, já com desconto da inflação. Também houve recuo de -0,4% na utilização da capacidade instalada, na comparação em doze meses.
A notícia menos dolorosa traduz o alargamento do rendimento médio da força de trabalho em intensidade equivalente a pouco mais da metade dos ganhos de produtividade de 2,8%, neste começo de 2026, o que neutraliza, aos menos por enquanto, as chances de formação de novas tensões inflacionárias pelo lado da demanda.
Na verdade, as “idas e vindas” da indústria brasileira, sobretudo da classe de transformação, enfeixam, a despeito de inúmeros esforços capitaneados por governo e iniciativa privada, a insistência na priorização da condução de um paradigma expansivo excessivamente centrado no mix entre exportações de bens dotados de menor potencial de agregação de valor e consumo das famílias.
Trata-se de um modelo assentado na generosa concessão de incentivos e subsídios, fiscais e creditícios, que, na esmagadora maioria dos casos, distorce a lógica microeconômica de uma economia capitalista, e, o que é mais grave, comprime drasticamente o volume de haveres públicos que poderiam ser canalizados a iniciativas voltadas à diminuição estrutural do Custo Brasil.
Em face do deliberado desinteresse do estado, sequestrado por posturas patrimonialistas do “toma lá, dá cá”, que empesteiam as tentativas de diálogo e entendimento entre os poderes da república, e das lideranças produtivas, torna-se cada vez mais complicado o preenchimento das lacunas de competitividade sistêmica.
O salto sistêmico revela-se imprescindível ao encaixe do complexo manufatureiro nacional na quarta revolução industrial planetária – em regime de agudização do multilateralismo comercial – tocada por processos digitais, robotização e inteligência artificial.
Frise-se que a maioria dos integrantes da classe empresarial, mesmo corriqueiramente assumindo a posição crítica contumaz da gastança pública, atuam permanentemente pela conquista de polpudas benesses escoadas pelos múltiplos ralos da máquina governamental.
A rentabilidade financeira da santidade corporativa é ainda preservada pela maximização das receitas não operacionais, propiciadas pelas bancas financeiras, hospedeiras preponderantemente das transações de rolagem dos títulos da dívida pública.
Não obstante a identificação de aprimoramentos regulatórios em algumas áreas, como a de minerais críticos (lítio, cobalto, níquel, terras raras etc.), e a implantação gradual do avanço civilizatório representado pela reforma do sistema de tributação de incidência indireta, prevalece o descaso com a viabilização de mecanismos indispensáveis à otimização diversificada de aplicações em infraestrutura, abarcando a transição energética, e em educação, ciência, tecnologia, inovação e mentes amoladas.
Sem contar a natureza cronicamente capenga e covarde do arranjo macroeconômico, exageradamente preso, por um longo intervalo de tempo, a busca do alcance da utópica sintonia fina entre os elementos de estabilização, e omisso com respeito à organização dos componentes de desenvolvimento, verdadeiros determinantes de profundas transformações sociais, em época de rápido desaparecimento do bônus da demografia.
Em não sendo isso efetuado, a nação notabiliza-se pela com a contabilização de não poucos paradoxos. Por exemplo, em 2025, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, aferiu o maior rendimento médio por pessoa da série histórica, iniciada em 2012, anotando R$ 3.367, em paralelo à discreta ampliação da desigualdade social.
Mais precisamente, a disparidade na apropriação do produto social pode ser comprovada pelo comportamento do índice de Gini domiciliar per capita (que varia entre zero um, denotando melhor distribuição à medida que se distancia da unidade), que passou de 0,504, em 2024, para 0,511, em 2025.
Apesar de ter sido o segundo menor da série e inferior ao pico de 0,545, assinalado em 2028, o indicador camufla o crescimento de 8,7% da renda médias dos mais ricos, em 2025, em relação ao ano anterior, chegando a R$ 9.117, contra avanço de apenas 3,1% dos 10% mais pobres, somando R$ 268.
Outra comprovação quantitativa do regresso da marcha de acentuação dos desníveis sociais repousa na ascensão do quociente entre os rendimentos dos 10% do topo – sem incorporar as informações provenientes do imposto de renda, como entradas de aluguéis, aplicações financeiras e dividendos – e os dos 40% menos favorecidos, que passou de 13,2 vezes, em 2024, para 13,8%, em 2025.
O retorno do aumento do fosso entre os extremos da população, também denotado pelo IBGE, oportuniza suspeitar da possibilidade de esgotamento do processo de redistribuição de renda ancorado na disseminação das ações assistenciais, como Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC), e previdenciárias, adicionados de outros paliativos eleitorais.
Essencialmente presos aos anseios e requerimentos de curto prazo da sociedade, esses repasses correspondem a mais de 13% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, o que suplanta por larga margem as alocações para o suprimento dessas finalidades, realizadas pelas principais nações portadoras de estatura econômica semelhante.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








