Desenrola Empresas: renegociar com bancos e ignorar o Fisco cria uma “bomba-relógio” no balanço

Alongar o passivo privado sem projetar obrigações tributárias gera uma falsa recuperação e deixa a empresa à mercê de bloqueios judiciais, diz tributarista
A oportunidade de alongar prazos e renegociar dívidas bancárias por meio de programas como o Desenrola Empresas tem atraído a atenção de diretorias e executivos financeiros em todo o país. Contudo, a adesão a essas facilidades de crédito sem um prévio mapeamento do passivo fiscal pode empurrar as companhias para uma armadilha letal. A ausência de um planejamento integrado transforma o que deveria ser a salvação do caixa em um risco imediato de paralisação das atividades.
A avaliação é de Marcelo Costa Censoni Filho, especialista em Direito Tributário, sócio do Censoni Advogados Associados e CEO do Censoni Tecnologia Fiscal e Tributária. Segundo o advogado, o principal perigo que os executivos correm ao focar apenas nos débitos privados é o da falsa recuperação financeira.
“Ao alongar o passivo bancário sem tocar no passivo fiscal, a empresa ganha fôlego no curto prazo, mas mantém uma ‘bomba-relógio’ no balanço. Diferentemente de dívidas privadas, que podem ser negociadas com maior flexibilidade, os débitos fiscais trazem consigo o poder de execução imediata da Fazenda Pública, de realizar penhora online pelo sistema Sisbajud, bloqueio de ativos e até a decretação de falência por dívida tributária”, alerta Censoni Filho.
Gargalo
O grande gargalo dessa estratégia unilateral é o destino do próprio fluxo de caixa recuperado pela renegociação. Em vez de o dinheiro oxigenar o capital de giro ou financiar a operação produtiva, ele acaba sendo comprometido por parcelamentos fiscais mal dimensionados ou por execuções judiciais inesperadas.
Para ilustrar a gravidade da situação, o especialista faz um paralelo direto com a negligência estrutural.
“Na prática, alongar o banco sem reorganizar os tributos é como remendar o pneu furado, mas esquecer o freio quebrado. A empresa até anda, mas não consegue parar no momento crítico, e a sobrevivência do negócio fica à mercê do primeiro auto de infração ou da primeira certidão negativa negada”, explica Censoni Filho.
A recomendação central para evitar esse cenário é a adoção de tecnologia fiscal e inteligência de dados antes de qualquer acordo com credores privados. O mapeamento prévio garante que a companhia consiga projetar obrigações futuras, organizando os tributos de forma compatível com a nova realidade financeira e assegurando a blindagem do patrimônio e a manutenção da Certidão Negativa de Débitos (CND).








