Crise no varejo reflete combinação de crédito caro, endividamento e transformação do consumo

Dados de 2026 mostram maior comprometimento do orçamento das famílias em um cenário que envolve juros elevados e desafios nas empresas
As dificuldades enfrentadas por grandes varejistas brasileiros refletem uma combinação de fatores econômicos e mudanças estruturais no setor. Juros elevados, crédito mais caro, endividamento das famílias, transformação da jornada de compra, avanço dos canais digitais e desafios relacionados aos modelos de negócios compõem o cenário. No que se refere ao comportamento do consumidor, a educação financeira entra como uma ferramenta importante para o planejamento das famílias.
Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostram que 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho de 2026, o maior percentual da série histórica. O comprometimento médio da renda dos endividados chegou a 29,5%, considerado alto sobre o orçamento familiar.
O custo do crédito acrescenta outra camada a esse cenário. Segundo o Banco Central, a taxa média de juros do crédito livre destinado às pessoas físicas chegou a 64% ao ano em junho, aumento de 4,6 pontos percentuais em 12 meses. A inadimplência dessa carteira atingiu 7,6%, enquanto a taxa Selic está em 14% ao ano desde agosto, mantendo condições restritivas para novos financiamentos.
“A educação financeira não resolve sozinha fatores como juros altos, renda, inflação ou condições de crédito, mas ajuda as pessoas a compreender melhor o impacto dessas variáveis sobre o próprio orçamento. Quando o dinheiro fica mais caro e uma parcela maior da renda já está comprometida, conhecer juros, organizar despesas e avaliar o uso do crédito permite tomar decisões com mais informação”, afirma Nathalia Arcuri, jornalista e fundadora da Me Poupe!, ecossistema de educação financeira.
Menos espaço para comprar
O desempenho do comércio reforça que os efeitos não são uniformes. Segundo o IBGE, o volume de vendas do varejo brasileiro cresceu 1,9% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, mas recua 0,4% no segundo trimestre diante dos três primeiros meses. Em junho, o varejo restrito avança 0,5% sobre maio, enquanto o ampliado registra queda de 1%.
“Quando falamos sobre o momento do varejo, precisamos olhar para uma relação que envolve famílias, empresas, sistema financeiro e ambiente econômico. Um consumidor com parte relevante da renda comprometida naturalmente encontra menos espaço para novas compras, principalmente aquelas financiadas, mas essa é uma peça de um cenário muito maior. Para as pessoas, educação financeira significa aumentar a capacidade de atravessar esses ciclos com planejamento e autonomia”, comenta Fernando Schmitt, CEO da Me Poupe!.
Além das condições econômicas, o setor atravessa mudanças na forma de pesquisar e comprar. Comércio eletrônico, marketplaces, comparação de preços e integração entre lojas físicas e canais digitais ampliam a concorrência e alteram a relação com o público. Cada varejista também enfrenta condições próprias de estrutura financeira, custos, estoque, operação e estratégia, fatores que ajudam a explicar desempenhos diferentes dentro de um mesmo ambiente econômico.
Crédito da imagem: IA – Chat GPT








