Juros altos estão reduzindo a verba de marketing das empresas?

Juros altos estão reduzindo a verba de marketing das empresas?
Robson V. Leite.

Com a Selic em 14%, companhias pressionam contratos e exigem retorno mais rápido das agências

O custo elevado do crédito afeta o marketing antes mesmo de uma empresa anunciar cortes formais. Quando financiar estoque, antecipar recebíveis ou obter capital de giro fica mais caro, a administração passa a revisar despesas e priorizar investimentos com retorno próximo e mensurável. Campanhas de construção de marca, projetos experimentais e contratos mais extensos tendem a enfrentar questionamentos nesse processo.

Para Robson V. Leite, mentor de agências e estrategista digital, os juros chegam às agências de maneira indireta. O primeiro impacto ocorre nos clientes, que vendem menos, pagam mais para financiar a operação ou adiam planos de expansão. Depois, a pressão aparece nas renegociações de escopo, na redução dos prazos contratuais e na cobrança por resultados mais rápidos.

O cenário econômico ajuda a explicar essa cautela. Em agosto, a Selic estava em 14% ao ano, mesmo após o início do ciclo de redução. O Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, projetava taxa de 13,75% no encerramento de 2026 e crescimento de 1,99% para o PIB. A combinação de crédito restritivo e atividade mais lenta reduz o espaço financeiro das empresas, sobretudo entre negócios de pequeno e médio porte.

A pressão não significa uma queda uniforme de toda a publicidade. Copa do Mundo e eleições movimentaram o mercado brasileiro em 2026, enquanto setores menos dependentes de financiamento mantiveram investimentos. Dentro das empresas, porém, a disputa pelo orçamento ficou mais rigorosa. O marketing passou a concorrer com despesas financeiras, tecnologia, recomposição de caixa e pagamento de dívidas.

Essa tensão aparece também fora do Brasil. A pesquisa global CMO Spend Survey 2026, conduzida pela Gartner, consultoria internacional que acompanha decisões corporativas de tecnologia e gestão, mostra que os orçamentos de marketing ficaram praticamente estagnados em 7,8% da receita das empresas. Entre os executivos entrevistados, 56% afirmaram não possuir verba suficiente para executar a estratégia prevista para o ano.

“Quando o dinheiro fica caro, o cliente reduz a tolerância a projetos sem indicadores claros. Isso não significa que toda ação precise gerar uma venda imediata, mas a agência terá de explicar melhor a relação entre investimento, aquisição de clientes, posicionamento e receita”, afirma Robson.

Na prática, a contenção assume diferentes formatos. Algumas empresas diminuem a mídia paga e preservam o contrato da agência. Outras mantêm o investimento nas plataformas, mas pressionam o valor do serviço. Também crescem os pedidos por contratos trimestrais, remuneração variável, metas comerciais e concentração da verba nos canais que apresentam histórico de conversão.

O risco está em tratar desempenho apenas como resultado de curto prazo. A redução indiscriminada do marketing pode enfraquecer a geração de demanda e deixar a empresa ainda mais dependente de descontos, indicações ou prospecção ativa. A cobrança por eficiência faz sentido, mas precisa considerar o ciclo de compra, a margem do produto e o tempo necessário para uma estratégia produzir efeitos.

Para as agências, o período exige maior controle sobre a rentabilidade dos contratos. Aceitar descontos sem reduzir entregas transfere a dificuldade financeira do cliente para o prestador. “A negociação precisa preservar a capacidade de execução. Se o orçamento caiu, agência e cliente devem redefinir prioridades, entregas e métricas. Manter o mesmo volume de trabalho por um preço menor costuma comprometer a qualidade e a margem”, conclui Robson V. Leite..

Mesmo com a perspectiva de novos cortes na Selic, o alívio não chega imediatamente ao caixa das empresas. Contratos mais flexíveis, relatórios ligados aos objetivos do negócio e escopos bem delimitados devem continuar em pauta enquanto o crédito permanecer caro. Para as agências, compreender esse ambiente econômico passou a fazer parte da própria gestão da carteira.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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