STF suspende multas mas riscos psicossociais na NR 1 continuam sob responsabilidade das empresas

STF suspende multas mas riscos psicossociais na NR 1 continuam sob responsabilidade das empresas

Decisão interrompe sanções por 90 dias enquanto organizações precisam estruturar diagnóstico

O Setembro Amarelo de 2026 coincide com um avanço dos afastamentos por transtornos mentais no país. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% em um ano, segundo dados divulgados pela Fundacentro. O movimento reforça a pressão sobre as empresas para identificar sobrecarga, assédio, conflitos, cobranças excessivas e outras condições capazes de afetar a saúde mental no trabalho.

Jéssica Palin Martins, advogada e psicóloga, é sócia da Palin & Martins, consultoria especializada em gestão tributária e empresarial, e fundadora da IntegraMente, plataforma de gestão emocional corporativa voltada ao diagnóstico de fatores psicossociais e à construção de planos de ação para lideranças e equipes de recursos humanos. Para a especialista, o Setembro Amarelo amplia uma discussão que, dentro das organizações, precisa ultrapassar campanhas pontuais. “A suspensão das multas da NR 1 não elimina os riscos psicossociais. O Setembro Amarelo reforça a importância da saúde mental, mas esse cuidado precisa chegar à sobrecarga, ao assédio, às cobranças excessivas e à forma como as lideranças conduzem as equipes”, afirma.

Em 20 de agosto de 2026, o Supremo Tribunal Federal confirmou, por unanimidade, a suspensão por 90 dias das multas e demais sanções relacionadas à inclusão dos fatores psicossociais na NR 1. A decisão não revogou as diretrizes do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais nem afastou a necessidade de as organizações avaliarem situações relacionadas à forma como as atividades são estruturadas.

A nova redação do capítulo sobre Gerenciamento de Riscos Ocupacionais entrou em vigor em 26 de maio de 2026, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. O texto passou a mencionar expressamente os fatores psicossociais relacionados à atividade profissional entre aqueles que devem ser considerados na identificação de perigos e na avaliação dos riscos ocupacionais.

Na prática, entram nessa análise questões como excesso de demandas, ritmo intenso, baixa autonomia, jornadas extensas, falta de apoio, comunicação inadequada, violência, assédio e problemas nas relações profissionais. O foco está nas condições em que as funções são executadas, e não no diagnóstico clínico individual dos empregados.

Setembro Amarelo exige mais do que campanhas internas

Para a advogada e psicóloga, palestras, comunicados e ações de conscientização podem contribuir para ampliar o debate, mas não substituem medidas capazes de identificar as causas presentes na rotina profissional.

“Não adianta falar sobre saúde mental durante um mês e manter durante o restante do ano uma estrutura marcada por excesso de demandas, falta de apoio ou conflitos que nunca são tratados. A prevenção começa quando a organização consegue identificar o que, dentro da própria forma de trabalhar, pode estar contribuindo para o adoecimento”, ressalta.

A suspensão das penalidades ocorreu após questionamentos sobre a objetividade dos critérios utilizados para caracterizar irregularidades. A medida havia sido determinada inicialmente pelo ministro André Mendonça, em junho, e posteriormente referendada pelo Plenário do STF. O período de 90 dias foi estabelecido para permitir a busca de uma solução consensual e a definição de parâmetros mais claros para fiscalização e aplicação de sanções.

Documento não basta: gestão precisa chegar à rotina

A adequação às novas exigências relacionadas aos riscos psicossociais não se resume à elaboração de documentos ou ao registro de procedimentos. Para a especialista em saúde mental corporativa, o principal desafio das empresas está em transformar o diagnóstico em medidas concretas dentro da rotina de trabalho.

“Um relatório não corrige metas incompatíveis, excesso de demandas, conflitos recorrentes ou uma liderança que amplia a pressão sobre a equipe. É preciso identificar onde está a exposição, compreender sua relação com a atividade e registrar quais providências foram adotadas para reduzir o problema”, aponta.

O diagnóstico é uma das primeiras etapas desse processo. A análise pode considerar a distribuição das tarefas, o grau de autonomia, as formas de cobrança, a relação com gestores, os canais de comunicação e eventuais episódios de assédio ou violência.

A partir do mapeamento, o plano de ação pode estabelecer prioridades, responsáveis, prazos e formas de acompanhamento. Revisão de processos, capacitação das lideranças, aprimoramento dos canais de escuta e monitoramento das áreas mais expostas estão entre as medidas que podem ser adotadas para prevenir problemas e acompanhar a efetividade das ações.

“A gestão dos riscos psicossociais na NR 1 não se resume a uma palestra ou a uma ação pontual. Diagnóstico, plano de ação e acompanhamento permitem construir um processo contínuo e documentar o que efetivamente está sendo feito para reduzir fatores relacionados ao trabalho”, destaca a fundadora da IntegraMente.

A orientação do Ministério do Trabalho e Emprego também delimita o papel do empregador. A avaliação deve observar elementos presentes nas condições e na organização das atividades, sem exigir investigação psicológica individual de cada funcionário.

“A empresa não precisa diagnosticar psicologicamente cada pessoa da equipe. Precisa avaliar se a forma como o trabalho está organizado cria ou amplia sobrecarga, conflitos, assédio ou outras situações capazes de afetar a saúde. É sobre essas causas que a prevenção deve atuar”, conclui a psicóloga.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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