Lógica dos juros proibitivos e o pós-eleições no Brasil

Gilmar Mendes Lourenço.
O comportamento recente das variáveis relativas ao mercado de trabalho e inflação no Brasil desmonta, ao menos provisoriamente, os argumentos em defesa da continuidade da austeridade monetária, sobretudo os elevados patamares de juros, voltada à contração da demanda e subsequente desaceleração da economia e da velocidade de crescimento dos níveis de preços.
No terreno da precificação, o indicador balizador do regime de metas de inflação, representado pelo índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA) – que mensura a flutuação do varejo ou da ponta da matriz de transações, centrada na variação de preços do conjunto de bens e serviços consumido por famílias com renda mensal entre um e quarenta salários mínimos -, do IBGE, tem esboçado rota consistentemente descendente.
Mais precisamente, constatou-se subida de 4,22%, no acumulado em 12 meses encerrados em agosto de 2026, perfeitamente encaixado na faixa de tolerância – centro 3% ao ano e teto de 4,5% a.a. – determinada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), para o paradigma de metas, contra 4,72%, em um ano até maio de 2026, quando da forte interferência dos ataques de Estados Unidos (EUA) e Israel ao Irã, autênticos cartões de visita da era Trump, em ofensiva permanente rumo a uma guerra sem fim.
Na verdade, o fechamento do Estreito de Ormuz provocou significativa desarrumação das cadeias globais de suprimentos de bens de produção e produtos finais e imediata disparada das cotações globais de matérias primas energéticas e insumos do agronegócio, puxadas por petróleo e fertilizantes.
Essa curva cadente da inflação brasileira, beneficiada pela depreciação do dólar e a supersafra agrícola, constituiria justificativa suficiente para a promoção de firme reversão da fúria de conservadorismo, empregado pelo Comitê de Política Monetária (Copom), instância deliberativa pertencente ao Banco Central (BC).
No entanto, a postura ortodoxa da autoridade consubstancia verdadeiro combustível à multiplicação do endividamento de empresas e famílias – o rotativo do cartão de crédito a 445% a.a., em agosto de 2026, “não é brinquedo não” -, passivos a qualquer programa governamental de renegociação, dado que o Desenrola já está em fase de lançamento da terceira versão, focado na agudização de descalabros que tenciona solucionar, preponderantemente a restauração da confiança moral nos instrumentos de crédito.
A preservação da política de juros estratosféricos ainda assegura a potencialização da rentabilidade dos ativos financeiros, tão desejada pela comunidade de negócios, habituada com a obtenção de ganhos encorpados, fáceis e seguros, o que chega a transmitir a “falsa” impressão de existência de uma espécie de conluio entre o staff do BC e as elites financeiras, em contraposição ao atendimento dos interesses nacionais.
Enquanto o “amaldiçoado” déficit primário – julgado culpado e condenado até por eventuais unhas encravadas – aumentou de 0,43% do produto interno bruto (PIB), no exercício de 2025, para 0,62% do PIB, em 12 meses findos em agosto de 2026, a conta de juros saltou de 7,91% do PIB para 8,86% do PIB, em igual período, para celebração de poucos e penúria de muitos.
Ressalte-se que a perda de embalo inflacionário tem sido ainda mais intensa na base, como demonstra o índice de preços ao produtor amplo (IPA), levantado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), que infere os preços da porta para dentro das fábricas e dos canais de distribuição, com registro de ampliação de 1,66%, em doze meses até agosto de 2026, contra 2,16%, no mesmo intervalo de 2025.
A desculpa pouco convincente para a resistência da não escolha pela deflagração de rodadas de maior afrouxamento dos juros repousa no supostamente persistente aquecimento dos níveis de atividade, evidenciado pelo desempenho do emprego e da renda.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), também do IBGE, o país contabilizou o maior contingente de ocupados da série histórica, iniciada em 2012, totalizando 103,5 milhões de pessoas, e massa de rendimentos real (com a retirada do efeito inflacionário) também recorde.
Por essa ordem de ideias, o BC deliberadamente ignora que o problema reside na acentuada precarização da dinâmica laboral, sintetizada em taxa de informalidade superior a 40% do pessoal com ocupação efetiva, recebendo remuneração média equivalente à metade da auferida por aqueles portadores de vínculos formais, o que explica a vagarosa diminuição da desigualdade social e a estagnação, com viés de baixa, da produtividade agregada.
Cumpre sublinhar que a eficiência microeconômica é, em simultâneo, origem e consequência das forças motrizes da expansão sustentada, notadamente em tempos de inexorável transição demográfica, caracterizada pela diminuição estrutural da oferta de mão de obra, em ambiente de rápida disseminação dos processos digitais e da inteligência artificial.
Por tudo isso, parece dispensável a dotação de abrangente capacidade de observação dos movimentos da conjuntura econômica para perceber que a principal disfunção macroeconômica e, por extensão, mazela, nacional, pode ser resumida nos juros absolutamente fora de lugar.
Mesmo que amparado por apreciável estoque de capital político brotado das urnas, o vencedor das eleições presidenciais de outubro de 2026 deverá, obrigatoriamente, desembarcar dos palanques e encapar, assumir e manobrar uma agenda propositiva.
Mais do que isso, o mandatário possui um encontro, pessoal e inadiável, agendado para o princípio de 2027, destinado à construção de alicerces sólidos, imprescindíveis à correção e, preferencialmente, eliminação, dessa patologia e de outras dela derivadas.
Excelente voto a todos. Que a democracia sobreviva.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








