Lula 4 já começou

Lula 4 já começou
Gilmar Mendes Lourenço.

As estatísticas recentes, referentes ao mercado de trabalho e contas públicas no Brasil, sugerem, às autoridades econômicas, a premência de realização de adequações e correções, aprimoramentos e aprofundamentos das rotas das variáveis de estabilização e de crescimento visando ao alcance da almejada sincronia entre manejo macroeconômico e execução das estratégias de típicas de estado, notadamente as integrantes da agenda dirigida à inclusão e mobilidade social.

De fato, no campo da dinâmica laboral, o país registrou taxa de desemprego de 5,2% da força de trabalho, no terceiro trimestre de 2026, o que equivale a 5,6 milhões de pessoas à procura de trabalho, sendo o menor patamar para o período desde o começo da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE.

Ao mesmo tempo, o contingente ocupado atingiu 103,6 milhões, o mais elevado nível da série, e o rendimento médio real habitual mensal, com desconto da inflação, subiu 3,6%, em relação ao intervalo de tempo compreendido entre julho e setembro de 2025.

Contudo, a taxa de informalidade ampla permanece superior a 40% da população ocupada, com remuneração média inferior a 60% da auferida pelos integrantes do pedaço registrado do mercado, o que suscita, ao menos preliminarmente, suspeitas de precarização das relações de trabalho, em um ambiente de proximidade do pleno emprego ou, em outros termos, de esgotamento das margens de ociosidade desse fator de produção.

Há poucas dúvidas quanto à apreciável aderência entre vitalidade da utilização de mão de obra e adensamento das iniciativas oficiais de proteção social, em especial com o aproveitamento de brechas durante o calendário eleitoral, caracterizado por o que os cientistas políticos categorizam como populismo redistributivo, fortemente subordinado às renovadas decisões de expansão fiscal.

A frouxidão orçamentária beneficia a sustentação do emprego e da renda, inclusive em um movimento contracíclico à conjuntura internacional adversa e à conformação de um cenário de desaceleração do ciclo de negócios doméstico, decorrente da cobrança de juros proibitivos, da base a ponta do sistema de operações com empréstimos e financiamentos, que mantem o Brasil na incômoda liderança em escala planetária.

O cenário externo menos promissor deriva do acionamento de práticas comerciais protecionistas, destituídas de critérios consistentes, e a multiplicação das contendas bélicas, ambas comandadas pelo desgoverno de Donald Trump, no intento de resgate da posição hegemônica dos Estados Unidos (EUA). Exatamente por isso, o chefe americano levou uma coça nas eleições de meio de mandato, realizadas neste começo de novembro de 2026.

No que se refere as mazelas endógenas, a despeito da justificativa técnica, repetida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), de busca de rigoroso cumprimento do sistema de metas de inflação, definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), permanentemente pressionado pela farra fiscal, parece legítima a suspeita de que a prática de juros estratosféricos atenderia a outros propósitos menos nobres.

As intenções desvirtuadas da agência monetária repousam na garantia de retornos alargados à cúpula do rentismo, formada tanto por especuladores “puro sangue” quanto por membros da comunidade empresarial, ocupados com a aplicação de excedentes em transações não operacionais, no afã de maximizar os ganhos de tesouraria, sob as vistas grossas dos formadores de opinião, verdadeiras estações repetidoras dos malefícios provocados pelos déficits fiscais.

A esse respeito, não raras inferências e argumentações acadêmicas permeadas pela racionalidade têm revelado que deliberações de alinhamento ou compatibilidade da taxa Selic ao funcionamento refinado das engrenagens dos chamados fundamentos econômicos propiciariam intensificação dos cortes da taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano.

Sem malabarismos ou mágicas, uma sinalização de intenção de recuo de ao menos 4 pontos percentuais da Selic, em curto termo – comportando, sem traumas, a acolhida do desconto do juro neutro mais a previsão de inflação -, provocaria decréscimo de quase 4% do produto interno bruto (PIB) por ano.

Essa engenharia resultaria em drástica redução do volume de recursos públicos abocanhados pelos rentistas, como contrapartida ao custo de rolagem da dívida, e contrastaria com as profecias da comunidade financeira, consultada semanalmente pela Pesquisa Focus, do BC, que, por sinal, não projeta juros básicos inferiores a dois dígitos até o final desta década, o que transparece demasiado pessimismo, na mais polida das avaliações.

Os princípios basilares do equilíbrio instável (tomado emprestado da física pelos economistas) do organismo econômico, a serem obedecidos na fixação da magnitude dos juros deveriam englobar os componentes determinantes da estrutura de preços relativos, acrescidos do hiato do produto, taxa real neutra, deslizes inflacionários, cronograma de vencimentos da dívida pública, estoque de reservas cambiais, regime de fluxos de capitais e demanda de investimentos.

Não por acaso, no front da contabilidade governamental, as necessidades de financiamento primárias assinalaram 0,52% do PIB, em doze meses terminados em setembro de 2026, contra 0,40% do PIB, no exercício fechado de 2025, e meta de 0,25% do PIB, determinada pela Nova Regra Fiscal, segundo o BC.

Já o resultado nominal foi de 9,51% do PIB, em doze meses até setembro de 2026, versus 8,99% do PIB, em 2025, e a rubrica de juros representou 8,99% do PIB, contra 8,07% do PIB, em todo o ano passado.

Com isso, a dívida bruta do governo geral (administração federal, INSS e governos dos estados e municípios) alcançou 82,9% do PIB, em setembro de 2026, versus 78,6% do PIB, em dezembro de 2025, contra 95% do PIB da média mundial, sendo 108% do PIB, para os países ricos, e 68% do PIB, para os emergentes, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Ao se observar o tempo contratual requerido para a quitação integral dos passivos, percebe-se que, em 30 de setembro de 2026, 26,8% dos bônus venciam em até um ano, 23,5%, entre um e três anos, 20,3%, entre três e cinco anos, 17,7%, entre cinco e dez anos, e 11,7% em mais de dez anos, o que afasta, dos consultórios de diagnósticos econômicos adeptos de conclusões e mensagens atreladas ao catastrofismo, o perigo de insolvência e/ou colapso da máquina pública.

Sem considerar que 83% dos detentores da dívida pública líquida interna – que representa 88% do endividamento geral – são instituições financeiras, fundos de previdência e de investimentos, seguradoras e outros agentes classificados como residentes em território nacional.

Por tudo isso, não é difícil notar que, sem um declínio substancial nos juros básicos, torna-se absolutamente impossível a feitura de esforços fiscais que promovam ao menos a estabilização da relação dívida/PIB, parâmetro estipulado pelos meios especializados como revelador da saúde das contas do governo.

A gestão Lula 4 deverá evitar o comodismo do triunfalismo consensual dos bajuladores (antigos e cristãos novos), arautos da irrestrita subserviência à centralização, e livrar-se de velhas e, principalmente descabidas, concepções quanto ao gigantismo estatal e a infinitude dos haveres públicos.

Nessa perspectiva, a nova administração terá que privilegiar a construção de formas contemporâneas de diálogos, relacionamentos e entendimentos políticos, com participação crucial das demandas levantadas pelo arranjo virtuoso entre mobilizações e movimentos das ruas e mídias digitais, que revelaram, no segundo turno das eleições, a capacidade de transformação de simpatizantes comuns em militantes ferrenhamente disciplinados.

Operacionalmente, Lula deverá elencar e priorizar rapidamente os nós econômicos a serem desatados e as oportunidades a serem aproveitadas e otimizadas, pois, a rigor, o quarto mandato começou com pouco mais de dois meses de antecipação, inaugurado pela batalha do executivo com os “tubarões” da Faria Lima.

A resposta dos mercados, em forma de derretimento de quase 18% das bolsas e depreciação de 9% do real, verificada na primeira semana depois do pleito, consiste em uma demonstração inequívoca de que gente graúda despejou somas expressivas e firmou posições em apostas arriscadas no favoritismo do boxer ovacionado pelos devotos da ultra direita.

Malgrado o deputado federal pelo PSOL, Guilherme Boulos, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em 01 de novembro de 2026, ter batizado a fúria especulativa de chantagem, soa prudente poupar o incumbente – dada a experiência pretérita, remota e recente, nas relações pouco amistosas com a cúpula do BC – da apresentação repentina de ideias mirabolantes, emanadas de raciocínios econômicos heterodoxos, que podem ser facilmente engolidos pela modelo de aversão política à implantação de novidades institucionais.

A rigor, a proposta preparada pelo economista, André Lara Resende, um dos elaboradores da Unidade Real de Valor (URV), em 1994, que antecedeu o lançamento do Plano Real, em 1º de julho daquele ano, de criação de instrumentos que propiciem o declínio da Selic para 7,5% a.a., em doze meses, notadamente a fundação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), esbarra em pronunciadas limitações políticas, ausentes nos tempos do presidente Itamar Franco e do ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso (FHC).

A perda por pontos do preferido da família Bolsonaro começou a ser delineada na efervescência da conjugação entre incursões populares, feitas por estudantes, nas ruas, e redes sociais, ganhou contornos mais nítidos no derradeiro debate, patrocinado pela Rede Globo, com a lamentável manifestação preconceituosa acerca dos “nove dedos” do presidente, e terminou com o nocaute acontecido em meio aos inúmeros “segredos não revelados” pelos eleitores, protegidos e preservados pelas urnas eletrônicas.

Há que incorporar ao raciocínio explicativo da derrocada a vergonhosa fuga do candidato Flávio Bolsonaro, que, ao deixar a cadeira vazia, engendrou instabilidade no xadrez político, que prejudica predominantemente as oposições, impondo rápida reacomodação das forças ortodoxas.

A propósito disso, convém contemplar, ou pelo menos não descartar, a hipótese, bastante aceitável, de a maior fração da direita vir a ingressar em uma espécie de empreendimento portador de dimensão e força suficientes para se desvencilhar da doentia dependência, lealdade e lógica plantadas pelo ex-mandatário, fora dos percursos democráticos.

Cabe assinalar que se trata de parcela conservadora do espectro político, decente pela própria natureza, que, mesmo desaprovando escancaradamente a maior parte das iniciativas (ou a falta delas) do governo Lula, optou pela não cumplicidade com a plataforma antidemocrática, juntando-se à frente ampla, que, ao contrário do desenho de alianças com as candidaturas de centro e direita, como as acertadas depois do primeiro turno em 2022, assumiu configuração instantânea e espontânea no segundo tempo de 2026.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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