Debate econômico nas redes reflete acirramento da polarização de 2014 a 2018

Às vésperas do começo da campanha oficial à Presidência, quatro anos atrás, o debate econômico orbitou quase por inteiro, nas redes sociais, a partir de um tópico sempre importante para o brasileiro, mas nem sempre sob o ponto de vista da economia: o futebol. A Copa do Mundo de 2014, sediada pelo Brasil governado por Dilma Rousseff, foi usada na web como elemento central de diferentes discussões econômicas, que refletem precisamente o momento vivido pelo país no último ciclo eleitoral — e como as agendas e pautas de economia do Brasil de hoje são bastante distintas, inclusive para os atuais candidatos a presidente.

No mapa de interações sobre o debate econômico no país, de 15 de junho a 15 de julho de 2014, período exato de coincidência com a realização da Copa, o desempenho da competição (e da seleção brasileira, eliminada pela Alemanha) operou como termômetro da percepção dos brasileiros sobre os altos gastos públicos realizados pelo governo para a competição, a carga tributária, corrupção e a prestação de serviços públicos de qualidade em saúde e educação. O desemprego, por exemplo, ainda não despontava como grande subtema econômico nas redes sociais, e nem as reformas — que emergiram como agendas centrais a partir da interrupção do segundo mandato de Dilma, em 2016.

 

O “elemento Copa”, inclusive, se faz mais presente no principal núcleo de debate do grafo (em rosa), que reuniu 20,6% dos perfis que participaram da discussão sobre economia. Sem manifestar apoio político a nenhum dos eixos eleitorais do período pré-campanha de 2014, Dilma, Aécio Neves ou Eduardo Campos — que viria a falecer em 13 de agosto —, o grupo é dominado por piadas e sátiras ao maciço investimento federal em estádios (frente à falta de recursos para hospitais e escolas) e ao uso de impostos para financiar uma competição esportiva. O debate sobre o “legado” da Copa, que previa melhorias em infraestrutura, segurança pública e demais serviços públicos para o país, é reconhecido como falho pelos perfis, que demonstram alegria com o Mundial, mas ironizam o fato de que os gastos do governo não irão resultar em benefícios para a população.

Segundo maior núcleo do grafo, o grupo em amarelo (10,12%) se organiza em função da imprensa tradicional, que mantinha maior relevância no debate econômico em 2014 do que atualmente. Nesse núcleo, apresentava-se maior diversidade de temas de economia abordados, a partir de eventos e pautas específicas e temporais, mas com principal ênfase ao desdobramento do “legado da Copa”, entendido de forma sobretudo muito negativa. As reportagens e postagens destacaram o descumprimento de promessas em investimentos, o alto custo da competição, os atrasos na entrega de obras e o valor usado em estádios, antevendo que muitos se converteriam em “elefantes brancos”.

Notadamente, os dois grupos com alinhamento político a Aécio e Dilma não foram majoritários na discussão econômica — ao contrário do que ocorre hoje, com as regiões online de influência de Lula e Jair Bolsonaro em predomínio sobre quaisquer outros núcleos. Com 8% dos perfis (em verde), o grupo de maior proximidade com o PSDB também discute o impacto econômico da Copa, com visão mais explicitamente crítica ao governo do PT. Os gastos públicos, o uso político da máquina estatal (com programas sociais), os baixos índices de crescimento econômico, a inflação e a Petrobras são os principais tópicos de economia citados pelos perfis, que enfatizam o baixo retorno, para a população, dos impostos pagos ao governo. Muitos perfis também destacam o investimento brasileiro em países como Angola e Cuba, sob o argumento de que é uma estratégia apenas política, e não interessada em resultados positivos para a economia brasileira.

Já do outro lado, no núcleo pró-Dilma (em vermelho, 7,49% dos perfis), ficou marcado o recurso ao futebol como representação dos resultados positivos do Brasil na economia, principalmente a partir de postagens da conta oficial da ex-presidente. O governo federal enfatiza a importância de se melhorar as condições financeiras dos clubes do país e a competitividade com o cenário internacional de futebol, destacando ainda a força das estatais (particularmente a Petrobras), dos investimentos no mercado interno brasileiro e da criação de empregos durante os governos do PT e por conta da Copa. A cúpula dos BRICS também é citada positivamente como símbolo do reposicionamento do Brasil como uma potência econômica mundial, assim como balanços que apontam os benefícios do Mundial para o crescimento do PIB ao fim de 2014.

Em contraposição à pequena presença de grupos de apoio aos dois atores de maior protagonismo na eleição de 2014 no debate econômico, este ano os núcleos que orbitam em função de perfis e influenciadores alinhados ao PT e a Jair Bolsonaro respondem sozinhos por 57,5% de todas as contas que falaram sobre economia no Twitter entre 15 de junho e 15 de julho. Isso dá boa mostra da politização e polarização de tópicos gerais como desemprego, impostos, reformas e contas públicas nas redes sociais, com os dois lados capturando a dianteira na condução dos temas de impacto para a sociedade.

Ligeiramente maior que o núcleo mais próximo a Bolsonaro (e a outros atores alinhados à direita, em menor escala), o grupo em vermelho, pró-Lula e próximo de nomes ligados à esquerda, responde por 29,6% dos perfis do grafo e focaliza posicionamentos a partir da oposição entre os governos petistas versus a gestão Temer e outras plataformas contrárias ao PT. Todos os grandes subtemas econômicos são debatidos, portanto, a partir desse eixo, incluídos em destaque o papel (e tamanho) da atuação do Estado na economia, investimentos sociais, desigualdade e direitos trabalhistas e previdenciários. Sob foco fortemente eleitoral, articulando atores de PT, PCdoB, Psol e, em distanciamento maior para estes, PDT e PSB, o grupo deposita menos atenção a questões específicas da conjuntura atual, como o desemprego, a crise e a carga tributária, enfatizando um “projeto político” mais abrangente e que contempla maior investimento estatal, manutenção de empresas estratégicas sob controle brasileiro, programas de combate à pobreza e garantias sociais.

Do outro lado, o núcleo à direita e com Bolsonaro ao centro (azul, 29% dos perfis), o principal tópico de debate contrapõe a estrutura do estado frente aos serviços que presta à sociedade. Ou seja, com a identificação da elite política (vista como corrupta), dos servidores públicos, da carga tributária e da burocracia como condutores da crise, da pobreza, dos serviços de má qualidade e, principalmente, do desemprego. Somam-se críticas ao tamanho e aos custos do Estado brasileiro, aos privilégios de servidores e aos impostos pagos rotineiramente, sob o argumento de que a privatização, a redução de interferência do governo na economia e o investimento em segurança pública são centrais para a resolução de diferentes problemas. Temas regulares de economia como inflação, câmbio e juros passam longe das esferas de maior impacto no debate.

Com 8,59% dos perfis (em amarelo), apenas um núcleo regido pela imprensa tradicional opera contato entre os dois polos — ao contrário de 2014, pouco do debate econômico apresenta agrupamentos não partidários ou sem explícito teor político. Mobilizado por portais de notícias e alguns poucos influenciadores “intermediários” entre esquerda e direita, que fazem críticas aos dois lados, o núcleo aborda dados e informações específicos sobre a atual conjuntura brasileira, como dados de geração de emprego, previsões de crescimento, imigração e déficit público. Em maior equivalência em relação à cobertura temática apresentada nos dois outros núcleos, o principal destaque é a questão tributária, abordada por muitos pontos de vista: imposto de renda, sonegação, corrupção, custo da máquina estatal e educação pública.

O teor do debate econômico: 2014 x 2018

Ressalvadas as diferenças de perfil dos usuários de redes sociais entre 2014 e 2018 – e a tendência crescente do tamanho do debate na esfera virtual em diversos temas neste período, incluindo a economia – há uma série de diferenças (mas também semelhanças) entre as estruturas temáticas do debate econômico no contexto eleitoral entre 2014 e 2018. Entre junho e julho de 2014, as discussões eleitorais, em geral, estavam focadas em três candidatos: Dilma Rousseff (PT), que tentava a reeleição, Aécio Neves (PSDB), que fazia oposição direta à candidatura petista e Eduardo Campos (PSB), que tentava se firmar como terceira via. Na economia a situação é exatamente esta. Diferentemente da situação atual, a discussão estava fortemente polarizada entre PT e PSDB.

Em relação à Dilma, como mostra a nuvem a seguir, a principal discussão econômica do momento era o legado da copa do mundo de 2014 e sua relação com a gestão das contas públicas, como se pode ver em palavras como “dinheiro”, “povo”, “eficiente”, “impostos”, entre outras. O conteúdo era fortemente crítico em relação às escolhas públicas realizadas no âmbito orçamentário. Os usuários questionavam o uso de recursos públicos em estádios e outras obras em detrimento de outros serviços públicos.

Em 2018, o cenário eleitoral é bastante distinto. Além, é claro, do fato de copa do mundo neste ano não ter sido realizada no Brasil, a pulverização de candidaturas e a situação econômica desfavorável do país trouxeram outros temas à tona, colocando a economia como um dos principais temas discutidos em torno de praticamente todos os presidenciáveis, mesmo antes da definição oficial das candidaturas.

A seguir são apresentadas as nuvens de palavras, considerando o período de 15 de junho a 15 de julho de 2018 para cinco candidatos Lula (PT), Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (REDE), Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT), que são os candidatos que têm desempenhado melhor nas pesquisas eleitorais até o momento.

Assim como em 2014, as nuvens nem sempre apresentam conteúdo focado em propostas para a área econômica. No caso de Lula, por exemplo, o debate acaba centrado em torno das reviravoltas relacionadas à sua prisão, o que faz com que, quando o debate econômico venha à tona, não aborde um assunto específico, mas críticas ou defesas gerais sobre o programa do seu governo anterior.

Algo semelhante ocorre com Marina Silva. As discussões em torno da pré-candidata tem focado mais em questões políticas do que econômicas, bem como suas críticas em relação ao governo atual e outros programas de governo. Em menor grau, há um debate em torno de suas propostas como rever o teto de gastos e a Reforma Trabalhista e em torno da sua relação com o mercado financeiro.

No caso de Jair Bolsonaro, pode-se observar uma concentração em torno de palavras (“economista”, por exemplo) que remetem às propostas aventadas até o momento por Paulo Guedes, provável ministro da Fazenda caso o deputado federal seja eleito presidente. Isso é reiterado pela presença de palavras como “reforma” e “dívida”, o que revela o interesse do economista no tema do controle da dívida (incluindo sua proposta de usar recursos de privatização para tal).

Já em relação a Ciro Gomes, a nuvem é dominada por palavras que remetem ao evento em que o presidenciável sofreu vaias dos empresários ao se posicionar contra a Reforma Trabalhista. Suas visões, interpretadas pelos usuários como radicais, tendem a gerar um alto volume de críticas e defesas, de forma polarizada.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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