Bolsonaro e o inevitável ajuste do BNDES

A designação do doutor em economia pela Universidade de Chicago, Joaquim Levy, para a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no governo Bolsonaro, sinaliza a provável restauração contemporânea do papel histórico exercido pela agência de fomento e o despojamento de seu uso como instrumento de aventuras ancoradas na retórica de um ativismo nacionalista e oportunista, escondido em uma espécie de depósito, trancado a sete chaves e carente de transparência e impessoalidade.

Lembre-se de que a instituição foi criada em 1952, durante o segundo governo de Getúlio Vargas, com o propósito de assegurar cobertura financeira a projetos de infraestrutura e empreendimentos industriais necessários a produção de um choque de desenvolvimento no País, o que veio a ocorrer no transcorrer da implementação do Plano Metas de Metas, de Juscelino Kubitschek, entre 1956 e 1960, e ser adensado com o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), de Geisel, no intervalo 1975-1979.
Levy ostenta participação técnica qualificada em diferentes estágios do poder executivo federal brasileiro, começando nos ministérios da fazenda e planejamento, na administração de Fernando Henrique Cardoso (FHC), no biênio 2000-2001, passando pela secretaria do tesouro sob Lula, entre 2003 e 2006, e chegando a titular da pasta da fazenda, no princípio do segundo mandato de Dilma Rousseff, em 2015.

Nessa última incursão teve o ensejo de realinhar a estrutura de preços relativos, mediante a aplicação de um choque tarifário e cambial, depois do represamento de quatro anos, e fracassar na realização do ajuste fiscal, por conta das múltiplas resistências políticas esboçadas no congresso nacional e no interior do próprio governo.

O futuro chairman do BNDES também ocupou funções importantes no Banco Central Europeu e Bradesco e outras ainda mais relevantes em instâncias multilaterais, como a de vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e diretor financeiro do Banco Mundial (BIRD).

O eixo central do Banco sob o comando de Levy repousará em iniciativas voltadas à decisiva contribuição para a recuperação do equilíbrio estrutural das finanças públicas, desmanchado por incursões populistas patrocinadas pela dupla Lula e Dilma entre fins de 2008 e começo de 2016.

Mais especificamente, houve a injeção de mais de R$ 500,0 bilhões no BNDES, por parte do tesouro nacional, apoiada em emissão de dívida pública, captada com o compromisso de pagamento de juros superiores à taxa Selic, e destinada a sustentar gigantescas operações de aportes de recursos a juros altamente subsidiados para grupos privados nacionais, batizados de “campões” e atuantes no mercado doméstico ou em “nações amigas do senhor”, que serviram na maioria das situações para irrigar, de maneira fraudulenta, campanhas eleitorais. Dentre os não poucos casos é destacável o financiamento, às escuras, da construção do porto de Mariel, em Cuba, pela empreiteira Odebrecht.

A devolução de tais cifras ao tesouro é fundamental tanto ao funcionamento do banco, embasado em regras microeconômicas, quanto à diminuição do endividamento bruto da esfera pública que, ao ultrapassar R$ 5,0 trilhões e aproximar-se de 80,0% do produto interno bruto (PIB), representa o principal óbice à retomada da capacidade de crescimento econômico de longo prazo da nação.

No que diz respeito à eliminação gradual dos subsídios creditícios, o atual staff do Banco Central (BC) deu apreciável colaboração ao organizar e viabilizar a permuta, desde fevereiro de 2018, da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), definida a partir da meta de inflação acrescida de um prêmio de risco, pela Taxa de Longo Prazo (TLP), inferida pela evolução das remunerações reais pré-fixadas dos bônus da dívida pública mais a inflação.
De um lado, tal providência beneficiará os ingressos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que responde por 30,0% dos haveres da entidade e atende aos requisitos de provisão de programas sociais, como o seguro-desemprego, e de fornecimento de capital de terceiros para obras de infraestrutura.

De outro extremo, a nova posição incitará o aumento da presença de bancos privados em espaços de desembolsos ocupados pelo BNDES para negócios de grande dimensão e a abertura de flancos para as ações da agência em capital social básico e inovação, imprescindíveis para a minimização do custo Brasil e o encaixe empresarial nacional na quarta revolução industrial.

A imposição de decréscimo do passivo junto à União e a retração da demanda por crédito, associada à crise reinante por essas paragens desde 2014, provocou expressivo declínio das saídas dirigidas a empréstimos e financiamentos do banco que recuaram de R$ 190,0 bilhões (3,3% do PIB), em 2014, para R$ 40,0 bilhões (0,9% do PIB), no lapso janeiro-setembro de 2018.

É igualmente oportuno argumentar a premência de o BNDES reassumir o protagonismo na preparação e execução da agenda de privatizações e vendas de ativos públicos, resgatando, à luz da realidade global e nacional, as experiências das estratégias levadas a cabo na década de 1990, focadas na redução da dívida, diminuição grau de intervenção, tamanho e complexidade e melhoria da produtividade do estado.

Estudo preparado pelo Observatório das Estatais, ente da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), revela que o Brasil possui mais corporações estatais do que qualquer um dos 36 países integrantes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne as economias mais avançadas do mundo. Conforme o levantamento da FGV, a nação abriga 418 empresas controladas direta ou indiretamente pela União, Estados e municípios, o que, a julgar pela qualidade dos serviços prestados, não constitui motivo de orgulho para os contribuintes, penalizados pela imposição de excessivo fardo de tributos.

Enquanto os governos Collor e Itamar priorizaram a transferência de ativos públicos dos segmentos de insumos básicos (siderurgia, fertilizantes e petroquímica), a gestão FHC privilegiou as áreas de transporte, mineração e telecomunicações justamente devido ao atraso acumulado, de uma década e meia, nas inversões em infraestrutura, ocorrido por uma sucessão de fatores adversos, como a crise financeira internacional e a falência do Estado.

Nas circunstâncias presentes, urge a designação do rol de companhias públicas a serem repassadas, em especial as frações não estratégicas e/ou dotadas de diminuta capacidade competitiva, e das correspondentes regras “estáveis” de funcionamento dos mercados, acompanhadas da fixação de retornos compatíveis com o cálculo privado, que evitem a transformação de monopólios públicos em oligopólios privados, avessos à consolidação de padrões e estruturas concorrenciais.

Porém, antes disso afigura-se indispensável o encaminhamento da extinção de organizações marcadas por gestão e operação comprovadamente ineficientes, desvinculadas do interesse público e dependentes, permanentemente, de verbas que transitam nas peças orçamentárias, extraídas direta e indiretamente da população e destinadas exclusivamente à satisfação dos apetites de aparelhamento partidário e das ingerências de natureza política, verdadeiras senhas para a multiplicação de práticas de corrupção.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-diretor presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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