Traços da fadiga na recuperação da economia brasileira

Em contraste com as avaliações otimistas, reinantes no Palácio do Planalto e em parcela dos meios especializados, com direito ao uso de artilharia pesada contra a entidade encarregada da geração das estatísticas oficiais e desprezo aos equívocos cometidos na articulação política entre executivo e legislativo, visando à aprovação da reforma da previdência, o comportamento das variáveis econômicas tem se revelado dramaticamente decepcionante neste começo de 2019.

Mais que isso, nota-se uma espécie de fadiga da mais vagarosa recuperação dos negócios da história, esboçada no país desde o final de 2016, a partir da combinação virtuosa entre os impactos do impeachment da presidente Dilma e queda consistente da inflação e dos juros primários.
Após a superação da recessão, experimentada pela matriz produtiva nacional entre abril de 2014 e dezembro de 2016, o vigor da reativação foi contido pelas flutuações da confiança dos agentes, derivadas da multiplicação de evidências de corrupção do governo Temer, das inseguranças subjacentes ao ciclo eleitoral de 2018 e os acentuados desarranjos políticos que vem marcando o princípio da gestão de Jair Bolsonaro.

Na verdade, a despencada dos patamares de investimento público e privado e as enormes margens de ociosidade acumuladas pelo setor industrial, verificadas durante a longa etapa de contração dos níveis de atividade, agudizada pela gangorra da credibilidade, não apenas desautorizava a confecção de cenários otimistas acerca da possibilidade de ocorrência de rápida deflagração de uma retomada sustentada do crescimento, como validava os diagnósticos de formação de um quadro de estagnação.

Aliás, esse fenômeno é bastante peculiar a economias capitalistas em estágios de saídas da depressão, na ausência de sinalizações concretas da orientação macroeconômica na direção do desencadeamento de iniciativas voltadas à eliminação dos fatores geradores da situação de instabilidade, precisamente, no caso brasileiro, o vultoso e crescente desequilíbrio estrutural das contas públicas.

A perspectiva de resistência daquele constrangimento foi reforçada pela proliferação de atritos e antagonismos despropositados, protagonizados entre as cúpulas do governo e câmara dos deputados, e a desordem administrativa e ruídos políticos caseiros.

Esses últimos podem ser sintetizados na descoberta de ações financeiras nefastas, feitas por um ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho do chefe de estado, além da destituição do secretário-geral da presidência, Gustavo Bebianno, por conta da identificação do registro de candidaturas laranja, pelo PSL, em 2018, que contou com a participação especial do ministro do turismo, Marcelo Antônio, ainda no cargo.

A descrição de apatia econômica pode ser denotada, pelo ângulo da oferta, na marcha da produção industrial, medida por pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que expos encolhimento de 0,2% nos dois primeiros meses do corrente ano, em comparação a idêntico período de 2018. A performance ruim pode ser explicada pela queda acusada em bens intermediários (-0,9%) e o esfriamento da reação esboçada, em 2018, pelos segmentos fabricantes de bens de investimento (0,1%), reproduzindo as alterações de humor e, consequentemente, a exacerbação da cautela, dos atores produtivos.

A produção de veículos contabilizou recuo de 0,6% no entre janeiro e março de 2019, em relação ao mesmo intervalo de 2018, de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), influenciada notadamente pelo desempenho desfavorável observado no mês de março, determinado pela greve da categoria de trabalhadores, a enchente ocorrida na planta da Mercedes-Benz e o declínio das vendas externas, principalmente para o mercado argentino.

Na mesma linha, outros componentes da evolução do complexo manufatureiro, acompanhados mensalmente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), também exibiram decréscimo no bimestre, especificamente faturamento real (-1,5%), massa salarial real (-2,1) e remuneração média real (-2,1%). Já as horas trabalhadas na produção cresceram 1,8% e o contingente empregado permaneceu inalterado.

No extremo da demanda, é fácil notar flagrante arrefecimento, demonstrado por nova impulsão do desemprego que, conforme apurações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, recobrou a curva ascendente, passando de 11,6% da população economicamente ativa (PEA), em novembro de 2018, para 12,4% da PEA, em fevereiro de 2019, calculado em médias móveis trimestrais.

Assim, a nação teria 13,1 milhões de pessoas sem ocupação à procura de trabalho nos últimos 30 dias, e 27,9 milhões de subutilizadas (24,6% do total), classe que abrange, além dos desempregados, os que desistiram da busca de ocupação, chamados de desalentados, e aqueles ocupados em jornadas consideradas insuficientes.

A propósito disso, em recente cruzada contra os fatos, o presidente da república, tentando transmitir familiaridade com a cesta de índices econômicos e sociais disponível, desancou críticas e empregou expressões desqualificadoras ao trabalho da instância nacional de pesquisa, sublinhando que os indicadores seriam produzidos por ela “para enganar a população”.

É curioso notar que, em 2018, na condição de candidato eleito, Bolsonaro insinuou ausência de lisura nas atividades do IBGE por produzir taxas de desemprego supostamente menores do que as enxergadas por ele em suas andanças. Isso significaria, em sua visão, que os critérios metodológicos do IBGE oportunizariam erros para baixo ou para cima, a depender do interesse conspiratório do momento.

Porém, em igual sentido adverso, sondagem da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) identificou subida do endividamento e inadimplência dos consumidores brasileiros. A investigação constatou que 62,4% das famílias (10.076 milhões de pessoas) mencionaram possuir algum tipo de dívida, em março de 2019, contra 61,5%, em fevereiro, o maior nível desde setembro de 2015, concentrado no cartão de crédito (78,0%), carnês (14,4%), financiamento de veículos (10,0%) e crédito pessoal (8,4%).

Os que declararam estar com os pagamentos atrasados, em tempo superior a dois meses, somaram 23,4% (3.735 milhões), em março, versus 23,1% em fevereiro, e os que mencionaram estar desprovidos de condições para a quitação dos débitos atingiram 9,4% total (1.551 milhões), em março, contra 9,2%, em fevereiro.

Nesse particular, ressalta a interferência da corrosão do poder de compra da população, sobretudo das categorias com menores rendimentos, mais afetadas por repiques de inflação dos alimentos. Enquanto o índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA)-15, preparado pelo IBGE para aferir a curva de preços para famílias com renda mensal entre 01 e 40 salários mínimos (SM), situou-se pouco acima de 4,0% em doze meses findos em março, o índice de preços ao consumidor classe 1 (IPC-C1), elaborado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), para a faixa entre 1 e 2,5 SM, cravou 5,42%, no mesmo período.

Não por acaso, representantes técnicos dos segmentos produtivos e financeiros, consultados semanalmente pelo Banco Central, vem promovendo contínuas revisões para baixo nas projeções de variação do produto interno bruto (PIB) nacional para o exercício de 2019, que caíram de 2,6% para 1,97%, entre janeiro e abril de 2019.

Portanto, cabe às novas altas autoridades a compreensão de que a organização e cumprimento dos requisitos essenciais ao retorno à rota econômica expansiva no Brasil requerem menos animosidade e revolta com os organismos oficiais responsáveis pela coleta, tratamento, sistematização e mensuração das informações, e mais empenho no detalhamento das ações voltadas ao equacionamento das mazelas por elas demonstradas.

Até porque, investigação efetuada pelo Datafolha constatou que apenas 32,0% dos brasileiros consideram positiva a atual gestão governamental, obtida pela agregação dos conceitos ótimo e bom, captados nas entrevistas. Trata-se da pior avaliação verificada para um presidente, em tempo semelhante de primeiro mandato, desde 1990, quando o instituto começou a realizar essa modalidade de inquérito.
O Datafolha igualmente captou diminuição da esperança de melhora na economia pelos brasileiros, de 65,0%, em dezembro de 2018, para 50,0%, em abril de 2019, algo inédito em princípio de primeira gestão.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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