Reforma da Previdência e crescimento econômico – Não é bem isso

A aprovação do projeto substitutivo de reforma da previdência, pela Câmara dos Deputados, traduz essencialmente a desintoxicação política do assunto com a acentuada queda da rejeição popular ao projeto, que passou, de acordo com o Datafolha, de 71,0%, em maio de 2017, na gestão de Michel Temer, para 51,0%, em janeiro de 2019, e 44,0%, em junho de 2019, e, por extensão, a derrubada das barreiras erguidas pelas hostes oposicionistas naquela casa de leis.

O núcleo de alterações repousa no estabelecimento gradual de pisos etários mais elevados para a concessão das aposentadorias – 65 anos para homens e 62 anos para mulheres – em sintonia com o que acontece em escala planetária, determinado pela necessidade de adequação do pagamento dos benefícios às mutações demográficas, sintetizadas no declínio das taxas de fecundidade e natalidade e ampliação da longevidade da população.

Também houve a designação de equiparação, com algumas exceções, dos regimes previdenciários dos funcionários públicos e trabalhadores da iniciativa privada, corroborando os contornos delineados nas mudanças realizadas em 2003. Ademais, de maneira compensatória às benesses derivadas das carreiras, os servidores públicos contribuirão com maiores alíquotas incidentes sobre os proventos.

No entanto, o episódio de referendo das alterações do arcabouço previdenciário pela Câmara carrega dois conjuntos de perturbações. O primeiro ressalta o malogro do governo Bolsonaro no trabalho de montagem de uma base parlamentar consistente, explicado pela formação de staff ministerial de competência discutível, protagonista de não poucos deslizes e, o que é pior, desconectado dos interesses e demandas manifestados pelo congresso recém-empossado, simpático aos ditames do presidencialismo de coalizão.

Sem contar as disputas domésticas, verificadas entre a área ideológica, capitaneada pelos filhos de Bolsonaro e o astrólogo e guru, Olavo Carvalho, e outras alas da administração, algumas das quais encarregadas da hercúlea missão de reparar os estragos provocados por várias incursões estapafúrdias do chefe de estado.

Isso explica a frágil articulação política entre executivo e legislativo e, na sequência, a terceirização da tarefa reformista ao presidente da câmara e lideres partidários, e, o que é pior, o amargo regresso das práticas de fisiologismo da velha política, expresso na abertura das gavetas com as costumeiras emendas, que configuram a permuta de recursos públicos por votos, típica dos modelos de cooptação. Isso seria o protagonismo parlamentar.

O segundo elemento de anomalia exprime a percepção geral de ausência de um programa oficial consistente capaz de, rapidamente, promover a retirada da nação do pântano da estagnação econômica e reversão da curva ascendente de desocupação dos fatores de produção (mão de obra e capital fixo), que ensejaria a constituição de um clima propício ao encaminhamento e tramitação do bloco de mudanças institucionais requerido para a devolução do equilíbrio estrutural das finanças públicas, por meio da contração do custo médio dos passivos governamentais, em médio e longo prazo.

Nesse sentido, parece oportuno o levantamento de alguns pontos na direção da relativização da onda de otimismo precipitada pela “nova previdência”, especialmente quanto à transmissão da mensagem de esta vir a constituir peça-chave no resgate da solvência governamental e retomada quase que instantânea do crescimento dos níveis de produção, investimento e emprego.

Rigorosamente, cálculos efetuados pela Instituição Fiscal Independente, pertencente ao Senado da República, demonstram que, depois da desidratação da proposição enviada originalmente pelo executivo ao parlamento – com a fixação de novas regras de transição para o regime próprio de previdência social, transbordada para o regime geral, a não correção da idade mínima pelo critério da sobrevida e a supressão das aposentadorias rurais e da presença de estados e municípios -, houve redução de 38,0% da potência fiscal projetada pela equipe de Paulo Guedes, ministro da Economia, recuando de R$ 1,2 trilhão, para R$ 744,0 bilhões.

Por tais razões, é absolutamente exagerado o empenho retórico em atribuir exclusivamente à reforma da previdência a reponsabilidade pelo saneamento definitivo das contas públicas e, menos ainda, pela restauração de um ambiente negocial benéfico à impulsão dos ganhos de eficiência da microeconomia nacional.

Aliás, o alcance daqueles propósitos exige participação em jogos ainda mais duros, englobando a esperada flexibilização tributária, que poderia começar com a sugestão “cinco por um”, que unificaria os encargos municipais (ISS), estaduais (ICMS) e federais (PIS, Cofins e IPI); e a reforma financeira, que alargaria o espaço de competição entre os bancos e ensejaria a irradiação do recuo estrutural dos juros.

Igualmente relevante seriam as reforma fiscal, redefinindo encargos e receitas entre as diferentes esferas da federação, e do estado, crucial para a concretização do desejo de promover o encaixe da união, estados e municípios dentro das peças orçamentárias.

Por fim, afigura-se imprescindível a intensificação da estratégia de concessões de serviços e privatizações de empresas públicas, embasadas em regras transparentes e estáveis, priorizando aquelas companhias cronicamente deficitárias e dependentes de socorro financeiro do tesouro nacional, caso de Correios e distribuidoras de energia.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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