Ensaio do espetáculo de retomada econômica?

Desde 2010, a autoridade monetária brasileira calcula e disponibiliza mensalmente o índice de atividade econômica do Banco Central – Brasil (IBC-Br), que funciona como uma espécie de prévia da variação do produto interno bruto (PIB) trimestral, medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e representa apoio relevante à feitura de projeções de curto e médio prazo e à realização das escolhas estratégicas dos agentes.

De acordo com o BC, o indicador exibiu apreciável empuxe em maio de 2019, com acréscimo de 0,54% frente ao mês de abril, resultando em incremento de 0,94% no ano e 1,31% em doze meses. Decerto, trata-se de excelente notícia.

No entanto, considerando a não divulgação pelo BC das estimativas desagregadas para as principais variáveis representativas dos diferentes segmentos da matriz de produção e negócios, parece lícito admitir que o parâmetro expressa essencialmente a performance positiva da agropecuária, a eterna “salvadora da pátria” ou da lavoura.

De acordo com os prognósticos do IBGE, efetuados no mês de junho, a quantidade produzida (de cereais, leguminosas e oleaginosas) deve chegar a 236,0 milhões de toneladas, em 2019, sendo 4,2% superior à de 2018 e 0,6% acima da avaliação feita em maio deste ano.

Em linha ampliada, as investigações trimestrais da pecuária, também do IBGE, apuraram alguns recordes históricos no intervalo de tempo compreendido entre janeiro e março de 2019, desdobrados em elevações de 3,0%, nas aquisições de leite (6,2 bilhões de litros), 6,0% na produção de ovos de galinha (912,6 milhões de dúzias), e 5,5% no abate de suínos. Já o abate de bovinos aumentou somente 1,6%, totalizando 7,9 milhões de cabeças. Na contramão, o abate de frangos recuou 2,0% (perfazendo 1,45 milhões de cabeças) e a compra do couro experimentou redução de 2,2% (8,5 milhões de peças).

Na verdade, exceto a costumeira pujança líquida das cadeias produtivas articuladas ao rural, o movimento dos demais setores desautoriza a precipitação de posturas e diagnósticos de ocorrência de esboço de uma fase de retomada do crescimento, que ganharia contornos mais nítidos a partir da aprovação em primeiro turno, pela Câmara dos Deputados, da proposta de alteração das regras de aposentadorias e pensões.

Mais precisamente, a tomada de pulso dos outros ramos integrantes do sistema econômico oportuniza a caracterização de fraqueza generalizada, o que serve para corroborar, na melhor das hipóteses, a manutenção do quadro de estagnação dos patamares de produção, vivido pela nação desde o começo de 2017, depois do escape da mais longa e intensa recessão da história republicana, resumida no declínio acumulado de 8,5% do PIB, por onze trimestres seguidos.

Tanto é assim que a mistura entre inferências da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do IBGE permite verificar, para as estatísticas industriais, retração de 2,2% do faturamento real e 0,2% das horas trabalhadas, emprego e produção, no mês de maio, em comparação com abril, resultando em 21,2% de capacidade ociosa.

Em embalo semelhante, fortemente afetado pela resistência de expressivas taxas de desocupação e encolhimento da massa de rendimentos da mão de obra, aspectos agudizados pela escassez e encarecimento do crédito, o volume dos serviços apresentou incremento zero e as vendas do comércio varejista decresceram 0,1%, em maio.

Apenas a título de ilustração, conforme a Confederação Nacional do Comércio (CNC), em junho de 2019, o endividamento dos brasileiros registrou a 6ª elevação mensal consecutiva, observando o maior nível desde julho de 2013, e englobando 10,3 milhões de famílias.

De seu turno, o front externo também vem demonstrando sintomas de fadiga, atestada pela contração de 2,6% das exportações e estagnação das importações, no primeiro semestre do corrente ano, em razão da conjugação entre discreta desaceleração da economia global e depressão doméstica.

Cumpre esclarecer que, em todas as situações, o exercício de cotejo com o mesmo período de 2018 não constitui o mais apropriado. Isso decorre do fenômeno conhecido como “compressão da base de comparação”, ensejado, neste caso, pelo episódio da greve dos caminhoneiros.

Por tudo isso, não é difícil apreender que a economia do país contínua funcionando em marcha lenta à espera da construção de condições objetivas ao retorno da expansão sustentada, o que requer sintonia fina entre executivo e legislativo na concretização das reformas estruturais e formulação e discussão de um projeto distante da miopia do curto prazo.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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